Análise | Powerbeats3: mais qualidade que estabilidade para a galera fitness

Luciana Zaramela/Canaltech

Nossa última análise de fone de ouvido aqui no Canaltech foi sobre um modelo voltado aos esportistas que não abrem mão de uma boa música durante os treinos: o Jaybird Tarah. E o review de hoje também colocou à prova outro fone voltado aos esportes — dessa vez, o Powerbeats3, da... Beats.

Os fones são o modelo fitness mais recente da marca no Brasil. Lá fora, a empresa já lançou o sucessor Powerbeats Pro — que traz um design bem mais leve que a versão que analisamos aqui, com uma vida útil de bateria maior do que o irmão mais velho e melhorias na estabilidade do apetrecho. Ele segue mirando o público-alvo da linha: os esportistas.

Passamos um bom tempo com o modelo da Beats, que aliás, já tem cara de fitness logo à primeira vista. Os fones wireless têm um visual diferente e possuem um gancho característico, pra dar mais estabilidade nos treinos e não cair da orelha. Quer saber mais sobre eles? Vamos destrinchá-los detalhadamente nessa análise.

Design e ergonomia

Bonito esse cara aqui definitivamente não é. Mas, claro: além do conceito de beleza ser algo completamente subjetivo, não é necessário ter um visual maravilhoso para dar conta do recado, concorda?

Nossa primeira impressão ao tirar o Powerbeats3 da caixa foi: "Olha, mas é IDÊNTICO ao Powerbeats 3!". Realmente, a Beats investiu pouco em inovação de design neste modelo, a menos no que tange as cores. Com um corpo emborrachado e diferente, que pode causar estranheza em quem ainda não conhece seus antecessores, o Powerbeats3 não tem aquele visual premium com detalhes cromados já esperado por quem investe nos fones da Beats.

Prazer, Powerbeats3 (Foto: Luciana Zaramela/Canaltech)

Os buds contam com pontas emborrachadas que, da primeira vez, não se encaixam bem aos ouvidos nem quando trocadas entre as opções que os acompanham na caixinha (falaremos disso a seguir). O "corpo" dos fones, por assim dizer, tem um certo tipo de base plástica, onde ficam os componentes internos, e um gancho para prender atrás da orelha e deixar o aparelho estável. Nas laterais, o logo da Beats aparece discreto — pelo menos na cor que nos foi enviada para testes. Entre os buds direto e esquerdo há um cabo, que passa por trás da nuca e vem com controles.

As ponteiras emborrachadas podem ser trocadas de acordo com o tamanho do canal auricular do usuário, e na caixa, a Beats colocou algumas opções (quatro, ao todo). Mas apesar de contar com o gancho para ajudar na fixação na orelha, as pontas, por si só, não entram tanto no canal do ouvido quanto se espera de um fone esportivo e, talvez por isso, trazem um nível mediano de isolamento passivo. Já os ganchos, que em um primeiro momento parecem ser "largos" demais, podem ser manipulados para ficarem mais justos na orelha, bastando entortá-los um pouco com a mão (sem exageros, claro), para trazer um pouco mais de conforto e estabilidade. Embora os ganchinhos sejam maleáveis, os fones ainda saem do lugar mesmo durante uma simples caminhada.

Powerbeats3: o design "estranho" é para conferir mais estabilidade ao atleta (Foto: Luciana Zaramela/Canaltech)

Das primeiras vezes que colocamos os fones nas orelhas, tivemos um pouco de dificuldade e tivemos de despender alguma dose de paciência. É que, assim que tiramos o brinquedinho da caixa, testamos usando óculos. E se você usa óculos ou vai correr de óculos, por exemplo, pode achar um pouco "sacal" esse processo todo por causa do gancho, que vai disputar espaço atrás da orelha com a haste dos seus óculos e te incomodar.

Não recomendamos o uso do Powerbeats3 com hastes que deem a volta por trás da orelha. Aliás, seria lindo se a Beats tivesse pensado num upgrade para o Powerbeats2 com ganchos removíveis… (estes ganchos continuam presentes na linha, como mostra o Powerbeats Pro) afinal, as pessoas muito provavelmente também vão querer usar um fone desse preço em outras ocasiões fora os esportes. E no Powerbeats 3 os ganchos não se destacam, não. Tanta coisa pendurada na orelha pode incomodar até quem nem usa óculos, apesar de o conjunto todo ser bastante leve.

Controles

Por serem fones wireless (exceto pelo cabo que une os buds, ausente na versão mais nova da linha), os controles ficam alocados ali mesmo no cabinho e no corpo dos fones — essa "caixinha" com a logo da Beats de onde "brotam" os buds.

Para ligar o aparelho, basta pressionar o Power no topo do corpo retangular do fone esquerdo. Já os controles de volume, reprodução, pausa e passagem de músicas fica alocado no cabo, também do lado esquerdo. É bom dar uma memorizada nos comandos antes de sair para seu treino, porque só pelo tato não é tão intuitivo assim executar o comando desejado. Mas depois fica fácil e você se acostuma logo. A Beats constrói seus fones com materiais resistentes, e a impressão que ela nos passou nesses controles é justamente essa.

Ao pressionar uma vez o botão central, você pausa e reproduz suas músicas. Ao pressionar duas vezes, você ignora a próxima faixa; três vezes, você volta e escuta a mesma música que ouviu por último. Ainda no botão central: ao pressionar duas vezes e mantê-lo pressionado na segunda, você avança a música. Três vezes, com a última mantida pressionada, você retrocede dentro da música.

Controle do Powerbeats3 (Foto: Luciana Zaramela/Canaltech)

Os botões das extremidades têm função primária de volume, mas só de música. Se quiser aumentar o volume da ligação, você vai ter que aumentar e abaixar no seu telefone, mesmo.

Ligações telefônicas

A Beats é famosa pela qualidade dos componentes de seus produtos, mas economizou no microfone do seu Powerbeats3. A qualidade da ligação não é a que esperamos de um fone de alto valor. A voz fica com um efeito "enlatado", robotizado, não chega limpa no interlocutor e a ligação não fica natural. Nos nossos testes, usamos um iPhone 7 e notamos problemas na transmissão da fala principalmente em locais mais movimentados, ou seja: faltou clareza para a pessoa do outro lado entender o que estávamos falando. O teste reverso também foi feito e confirmamos que o microfone não é lá dos melhores. Algumas vezes, o melhor foi transferir a ligação para o microfone do celular, mesmo.

Sobre controles: usando o botão central, é só pressionar uma vez para atender a uma ligação ou encerrá-la. A mesma coisa para chamadas em espera — e o botão alterna, também, entre elas. Para rejeitar uma chamada, é só apertar o botão e mantê-lo pressionado. Duas pressionadas rápidas transmitem o áudio para o telefone. E o comando de voz também pode ser ativo pelo Powerbeats: basta pressionar até ouvir o som da Siri (ou de outro assistente, dependendo do dispositivo que você está usando) e falar seu comando de voz.

Detalhe para a charmosíssima case para transporte, toda em silicone e sem emendas (Foto: Luciana Zaramela/Canaltech)

Bateria

O Powerbeats3 promete 12 horas de reprodução com a carga completa, o suficiente para quem pretende usá-lo, na maior parte do tempo, nas atividades físicas. Com cinco minutinhos carregando, ele te dá uma hora de música. O indicador de LED te ajuda a ver o status da bateria, ficando vermelho quando falta menos de uma hora para a carga acabar. Se esse LED vermelho começar a piscar, é hora de procurar uma entrada USB para conectá-lo (o cabo USB para carregamento já vem na caixa).

Conectividade

O chip W1, que está equipando os modelos mais recentes da Beats, vem para deixar os usuários de dispositivos Apple bem felizes com a conectividade dos fones. Ele tem a função de manter a conexão estável e reconhecer os dispositivos da marca (iPhone, iPad, MacBook etc.) sem precisar ficar trocando no menu de Bluetooth dos aparelhos. Ou seja: você pode começar ouvindo uma música no Mac e terminar de ouvir no iPhone, desde que os aparelhos estejam atualizados (macOS Sierra, iOS 10, watchOS 3 e posteriores + conta no iCloud).

Já para quem vai usar o Powerbeats3 no Android e/ou no Windows, a conexão é normal. Você procura os fones na lista, faz o pareamento e pronto. Diferentemente do ecossistema Apple, a tarefa de busca e pareamento automático não acontece em dispostivos de outras marcas, portanto é como se fosse um fone de ouvido Bluetooth comum, sem essa "perfumaria".

Seja em um ecossistema ou em outro, de acordo com nossos testes (iOS e Android), a conexão é estável e de boa qualidade, mas não suporta vários dispositivos ao mesmo tempo e nem conta com tecnologia NFC. Há um pouco de latência, sim, mas nada que atrapalhe o que os fones trazem como objetivo: fazer a trilha sonora da sua prática esportiva.

E aí, curtiu o visu do Powerbeats3 na orelha? (Foto: Luciana Zaramela/Canaltech)

E agora, o som!

Apesar de não termos nos empolgado muito com o estilo do fone no início do nosso período de testes, vale dizer duas coisas importantes: a primeira dela é que, mesmo que não seja um fone estável fisicamente, você acaba se adaptando com o passar dos dias. Pelo menos, aqui no Canaltech foi assim. Mas esse gargalo de design, estabilidade e tudo o mais foi quase inteiramente compensado pela ótima qualidade do áudio que a Beats colocou nos buds.

Como faz parte da assinatura sonora da marca, você pode esperar e comprovar graves e médio-graves levemente ressaltados, mas não saturados. Até que para quem está no pique de uma corrida ou de uma malhação, é legal ter um grave mais marcante nas músicas. Afinal, quem é que vai ouvir ópera ou clássica enquanto puxa ferro? Brincadeiras à parte, se for o seu caso, é melhor considerar outro modelo.

Uma observação: demoramos a nos adaptar com o Powerbeats3 e suas ponteiras. No final das contas, as que melhor se adaptaram e seguraram tanto o som quanto os buds nos ouvidos foram as de tamanho G. Curioso, já que em nossos testes, geralmente usamos ponteiras médias. Isso, talvez, se deva pela instabilidade causada pelo peso dos fones com todos os apetrechos ao redor dos buds (ganchos, caixas com circuitos etc.).

Tem várias opções de ponteiras na caixa, mas talvez pelo peso dos fones, a G foi a que proporcionou resultados melhores (em canais auditivos M, inclusive) (Foto: Luciana Zaramela/Canaltech)

Com graves acentuados e médio-graves também, o Powerbeats3 — desde que usado com a ponteira certa — é um deleite para os fãs de estilos mais pesados, como o eletrônico, o rock, o hip-hop, o pop, o disco, o metal e todas as variações nesse espectro. Se a música explorar os graves, vai soar bem, para quem curte, no Powerbeats3. Os médios-graves têm um punch legal, principalmente em linhas de baixo que exploram mais os médios, como no jazz ou no fusion. Os baixos-agudos, idem. Toda a marcação, do contrabaixo ao bumbo, fica muito clara no Powerbeats3. E isso nos agradou em todos os estilos testados, justamente por não ter saturações perceptíveis e nem sobreposição de frequências notórias. Um bom exemplo é todo o álbum O Trem Azul, de Lô Borges. Parece que os fones foram feitos para ele, principalmente nos baixos aveludados e vocais médio-graves. Um hip-hop que explora MUITO os graves também se saiu bem, aqui. Foi o caso de Because I Got High, do Afroman, cuja batida não satura nem estremece os drivers dos buds.

Os médios gerais são como os graves: no lugar, sem exageros, sem faltas, com resposta rápida e levemente proeminente em alguns estilos, como a MPB. Isso, aos nossos ouvidos, soa bem. Os vocais e instrumentos que usam o centro da escala harmônica (a maioria de sopro, cordas e pianos) soam muitíssimo bem, inclusive nas faixas médio-graves nos agudos normais. Bom para solos ardidos de guitarra ou sintetizador, por exemplo. Melhor ainda para quem gosta de indie rock e groove em geral. Para ilustrar isso, vamos de Back Pocket, do Vulfpeck, que explora muito bem médios e graves. Uma delícia ouvir como ambas as frequências (e suas variações, ou seja, 60 Hz a 2 KHz) estão alinhadinhas no Powerbeats3.

Já os agudos não merecem tantas estrelinhas quanto os graves e médios, apesar de, ainda assim, entregarem resultados bons aos ouvidos. Pelo fato de a assinatura da Beats geralmente focar mais em frequências mais baixas, os agudos mais altos acabam sofrendo um pouco e ficando em posição de menos destaque. Quem adora a frequência e sente falta de uma boa marcação de chimbais e percussão (isso interfere também em sopranos e instrumentos mais agudos — e nem vamos entrar no mérito de sons sibilantes e overblows), vai ficar na mão. Nada que um equalizador não ajude a melhorar. Quer um exemplo simples? Ouvir Do You Want To, do Franz Ferdinand, que tem aquela marcação incessante de chimbais e pratos por praticamente toda a música, deixa clara a falta de brilho e definição nessa frequência.

O palco sonoro, entretanto, não é amplo por motivos óbvios: temos aqui fones in-ear fechados e com um corpo que não interage em nada com os buds. Não há ressonância que crie um efeito mas amplo entre as partes, portanto o resultado é conciso em termos de ambiência. Mas isso é assunto para quem busca um fone para manter o foco na música, e não nas atividades físicas, certo?

Outro ponto que merece destaque é a ausência de um aplicativo para direcionar o som para onde o ouvinte quiser. Ou seja, a Beats não desenvolveu nada que possa turbinar a experiência do usuário em termos de equalização e efeitos. Quem quiser, que busque alternativas de outros desenvolvedores.

O que tem na caixa

  • Powerbeats3
  • 4 opções de ponteiras
  • Cabo de carregamento
  • Case de transporte
  • Manuais
Conteúdo da caixa (Foto: Luciana Zaramela/Canaltech)

Preço

Aqui no Brasil, pelo site da Apple, o Powerbeats3 pode ser encontrado por R$ 1.449 em três cores: preta, branca e preta e vermelha. Apesar da enxurrada de comentários negativos no site oficial (geralmente de quem usou o fone por mais de seis meses), ficamos cerca de seis semanas testando o Powerbeats3 e não tivemos graves problemas com ele.

Veredicto

O Powerbeats3 é um fone legal. Apesar de ser visualmente estranho e ter um sistema de estabilidade que não nos agradou, tem esses "defeitos" compensados por uma ótima qualidade sonora que vai animar seus treinos. E muito embora sejam fones de ouvido voltados para a prática esportiva, também gostamos do uso deles no nosso dia a dia. Mais do que nas pistas, aliás. Eles são leves e fáceis de transportar, inclusive — a case para transporte é um charme à parte.

Case charmosinha toda em silicone para levar os fones com você na bolsa ou na mochila (Foto: Luciana Zaramela/Canaltech)

Seria legal se a Beats investisse em ganchos auriculares removíveis para aqueles que usam óculos e gostariam de curtir mais os fones no dia a dia, por exemplo. Algo quase assim foi feito com o Powerbeats Pro (o qual estamos curiosos para testar, de fato). Não aprovamos a experiência diária de ter tanta coisa pendurada na orelha, mas como não são fones voltados ao uso no escritório, por exemplo, talvez essa crítica não se enquadre tão bem nesta análise — a menos que, durante sua caminhada ou corrida, você precise usar óculos de grau ou de sol cujas hastes passem por trás da orelha, disputando espaço com o Powerbeats3 e incomodando bastante no fim das contas.

Em termos de áudio, o Powerbeats3 entrega um som com graves encorpados, médios muito bem alocados e agudos que acabam sendo sobrepostos pelas outras frequências, mas que mesmo assim não deixam de ter seu lugarzinho sob o sol. Para quem gosta de ouvir músicas que investem mais em frequências graves, vale a pena. O preço é um tanto salgado, é verdade, mas gosto é gosto e a decisão final é do usuário. Para a ergonomia do conjunto, a nota é 6,5. Para a qualidade de áudio, a nota é 8. E para o que se propõe como fone fitness, a nota final é 7,25. Que venha o Pro!

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