'Nunca vou trocar informações por asilo no Brasil', afirma Edward Snowden

Por Redação | 23 de Dezembro de 2013 às 16h06

Em entrevista ao programa Fantástico, da Rede Globo, o ex-analista da Agência Nacional de Segurança dos Estados Unidos (NSA), Edward Snowden, revelou neste domingo (22) que aceitaria sair da Rússia caso o Brasil lhe oferecesse asilo político, mas rejeitaria a proposta se fosse em troca de informações sobre o esquema de monitoramento norte-americano.

"Se o governo brasileiro quiser defender os direitos humanos, será uma honra para mim fazer parte disso", disse Snowden. "Eu nunca vou trocar informações por asilo, e também não acredito que o governo brasileiro faria isso. Uma concessão de asilo deve sempre ser uma decisão puramente humanitária, e a carta foi bastante clara a esse respeito: eu nunca vou cooperar com ninguém fora do devido sistema legal".

A declaração vem quase uma semana depois de Snowden publicar uma carta aberta ao povo brasileiro na qual se coloca à disposição do governo nacional para ajudar nas investigações sobre denúncias de espionagem americana contra os usuários brasileiros. Vários veículos de comunicação interpretaram o documento como um pedido de asilo do ex-agente da NSA na última terça-feira (17), data em que a carta foi publicada.

"O objetivo da mensagem foi explicar por que essas questões são importantes [sobre a espionagem americana contra o Brasil], explicar que eu não estou em posição para ajudar os senadores brasileiros que estão procurando por respostas para perguntas muito importantes, e encorajar o povo brasileiro a seguir no seu esforço para defender o seu direito à privacidade", completou.

A equipe de reportagem do Fantástico afirma que conversou por e-mail com Snowden através de seu advogado em Nova York. A medida, segundo a Rede Globo, foi para evitar interceptações e evitar que o conteúdo do bate-papo fosse divulgado na internet.

Edward Snowden ainda disse estar agradecido por ter "tantos novos amigos e aliados" no Brasil. "Eu me sinto encorajado e impressionado pela crescente liberdade política que os brasileiros estão vivendo". O ex-analista cita ainda o jornalista Glenn Geenwald, o porta-voz que tem divulgado ao mundo os documentos secretos obtidos por Snowden sobre a vigilância de governos em vários paises.

Perguntado se voltaria para os Estados Unidos, Snowden respondeu: "O problema é que atualmente a lei americana não faz diferença entre quem denuncia programas ilegais e um espião que vende segredos para terroristas. O maior problema é que a ofensa mais séria não é prejuicar o governo, mas envergonhá-lo. Está claro que eu não teria um julgamento justo no meu país".

O ex-analista americano também comentou a decisão de especialistas da Casa Branca, que recomendaram reduzir o poder da NSA por considerar que seu programa de espionagem em massa ultrapassou os limites. No entanto, Snowden acredita que as conclusões dos especialistas não são suficientes, mas reconheceu que "é um início e dar este primeiro passo é importante".

"Lembre que o grupo de conselheiros foi composto por pessoas escolhidas a dedo. Sua missão não era conter os abusos, era restaurar a confiança do público na atividade de espionagem. Muitas das recomendações que fizeram foram mudanças cosméticas, coisas que soam bem, mas mudam pouco", disse.

Asilo

O governo brasileiro já teria se posicionado sobre a possibilidade de conceder asilo político a Edward Snowden. Segundo matéria publicada na Folha de S. Paulo no dia 18 de dezembro, a presidente Dilma Rousseff teria se reunido com ministros e decidiu recusar qualquer pedido nesse sentido. Para o Ministério das Relações Exteriores, o país não irá ceder asilo a Snowden porque não tem interesse em investigar a NSA.

Snowden tem autorização para ficar na Rússia até a metade de 2014, quando seu asilo temporário terminará no país. Até lá, o brasileiro David Miranda, companheiro do jornalista Glenn Greenwald, tem se mobilizado para pressionar o Senado por um asilo permanente ao ex-técnico da inteligência americana. Miranda criou uma petição online para oficializar o pedido à presidente Dilma, e o documento já possui cerca de 70 mil assinaturas.

"Muitos senadores brasileiros pediram minha ajuda com suas investigações sobre suspeita de crimes contra cidadãos brasileiros", escreveu Snowden na semana passada. "Expressei minha disposição de auxiliar, quando isso for apropriado e legal, mas infelizmente o governo dos EUA vem trabalhando muito arduamente para limitar minha capacidade de fazê-lo. Até que um país conceda asilo permanente, o governo dos EUA vai continuar a interferir em minha capacidade de falar".

A carta aberta de Edward Snowden ao público brasileiro pode ser lida, na íntegra, aqui.

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