Planeta anão Ceres é geologicamente ativo e pode ter água abaixo da superfície

Planeta anão Ceres é geologicamente ativo e pode ter água abaixo da superfície

Por Daniele Cavalcante | 10 de Agosto de 2020 às 19h50
NASA

Ceres é um planeta anão que, por muito tempo, foi considerado tão interessante quanto um asteroide qualquer. Isso começou a mudar quando a sonda Dawn, da NASA, passou por lá em março de 2015, observando formações com material reflexivo, que poderiam ser sinais da presença de gelo ou sais. Apesar do fim da missão, os dados coletados pela sonda continuam fornecendo informações o suficiente para que os cientistas pudessem concluir que Ceres é - ou foi - um mundo oceânico, com reservatórios de água sob a superfície.

O planeta anão está localizado no cinturão de asteroides entre Marte e Júpiter, e tem quase mil quilômetros de diâmetro, sendo o maior corpo do cinturão. Foi também o primeiro planeta anão visitado por uma espaçonave, e se revelou um lugar bastante peculiar. Em 2019, por exemplo, dados da missão Dawn revelaram muitos detalhes sobre o vulcão Ahuna Mons e sua formação, e os cientistas descobriram que as áreas brilhantes eram depósitos feitos principalmente de carbonato de sódio.

Esse composto formado por sódio, carbono e oxigênio provavelmente veio de um líquido que se emergiu até a superfície e evaporou, deixando para trás uma crosta de sal altamente reflexiva. Mas o que eles ainda não haviam determinado era de onde vinha aquele líquido.

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Imagens da Cratera Occator (NASA/JPL-Caltech/UCLA/MPS/DLR/IDA)

Agora, uma equipe internacional de cientistas dos EUA e da Europa deu prosseguimento ao trabalho, analisando imagens transmitidas da Dawn, capturadas a cerca de 35 quilômetros do pequeno mundo. O foco foi a cratera Occator, criada por um impacto há 20 milhões de anos. Os pesquisadores determinaram que existe um "extenso reservatório" de salmoura (uma solução de água saturada de sal) abaixo de sua superfície.

Outros estudos sobre Ceres também foram publicados nesta segunda-feira (10) nas revistas Nature Astronomy, Nature Geoscience e Nature Communications, e esses artigos parecem corroborar uns com os outros. Em um dos estudos, uma equipe revela que descobriu a presença de hidrohalita (material comum no gelo marinho), que até agora só havia sido encontrado na Terra.

A equipe disse que os depósitos de sal pareciam ter se acumulado nos últimos dois milhões de anos. Para Maria Cristina De Sanctis, do Istituto Nazionale di Astrofisica de Roma, a presença de hidrohalita em Ceres é uma evidência forte de que o planeta anão costumava ter água marinha em sua superfície, no passado. "Agora podemos dizer que Ceres é uma espécie de mundo oceânico", disse ela.

Mais interessante ainda é que os compostos ainda podem estar subindo do interior do planeta, já que dois milhões de anos é pouco tempo em escala cósmica. Se isso for verdade, os próximos estudos sobre Ceres podem trazer ainda mais surpresas - como a possibilidade de encontrar bioassinaturas. "O material encontrado em Ceres é extremamente importante em termos de astrobiologia", disse De Sanctis. “Sabemos que todos esses minerais são essenciais para o surgimento da vida”, completou.

Imagem da Cratera Occator criada a partir de um mosaico pela sonda Dawn, em 2018. Poços e montes brilhantes foram formados por líquido salgado liberado quando o solo rico em água congelou após o impacto, cerca de 20 milhões de anos atrás (Imagem: NASA/JPL-Caltech/UCLA/MPS/DLR/IDA/USRA/LPI)

Outro artigo parece completar ainda mais este cenário fascinante de Ceres. Nele, pesquisadores dos EUA analisaram imagens da cratera Occator e descobriram que seus montes e colinas podem ter se formado quando a água ejetada pelo impacto de um meteoro congelou na superfície. Os autores disseram que esses processos de congelamento de água "estiveram ativos em Ceres no passado geologicamente recente".

Foram ao total 5 artigos publicados sobre Ceres nesta segunda-feira, e é possível que novas informações interessantes apareçam nos dados da Dawn, mesmo após o encerramento da missão em 2018. Se as possibilidades de encontrar bioassinaturas por lá forem reais, é possível que o planeta anão seja alvo de interesse ainda maior nos próximos anos.

As descobertas implicam na revisão de alguns conceitos atuais. Por exemplo, antes desses estudos, sabíamos que a atividade geológica gelada no Sistema Solar acontece basicamente em luas congeladas, nas quais tal atividade é impulsionada pelas interações gravitacionais com seus planetas. Mas esse não é o caso de Ceres. O movimento de salmouras para a superfície do planeta anão sugere que há outros grandes corpos ricos em gelo, com atividade geológica, e que não são luas.

Fonte: NASA

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