Os planetas de Star Wars poderiam existir no mundo real?

Por Rafael Rodrigues da Silva | 23 de Dezembro de 2019 às 20h00
Disney/Buena Vista

Não precisamos falar a ninguém que um das sagas espaciais mais famosas de todos os tempos é Star Wars. Ainda que não seja exatamente uma obra de ficção científica, essa ópera espacial que nos leva para uma galáxia muito, muito distante, nos apresentou vários novos planetas ao longo de seus 42 anos de existência.

Mas, por não ser uma franquia de ficção científica, os roteiristas da saga nunca se preocuparam muito com a verossimilhança científica daquilo que nos apresentam na tela. Por isso, um grupo de cientistas da Escola da Terra, Energia & Ciências do Meio-Ambiente, da Universidade de Stanford (EUA), se reuniram para discutir se os planetas que vemos na franquia poderiam existir (ou não) no mundo real.

Mustafar

O planeta vulcânico Mustafar (Imagem: Star Wars Wiki)

No final de A Vingança dos Sith, Obi Wan Kenobi e um Anakin Skywalker que acabou de ser seduzido para o Lado Negro da Força duelam em Mustafar, um planeta que quase não possui pedaços de terra firme e é quase completamente dominado por um oceano de lava. Mas seria possível existir um planeta desses no mundo real?

Para Sonia Tikoo-Schantz, professora adjunta do departamento de geofísica, é possível que um planeta deste tipo exista de verdade por conta do fenômeno conhecido como aquecimento de maré. Um paralelo real presente na Via Láctea é Io, uma das luas de Júpiter, que é o corpo do Sistema Solar com maior atividade vulcânica. Isso acontece porque a intensa atração gravitacional do gigante gasoso deforma o satélite natural e faz com que suas camadas internas entrem em fricção, gerando uma enorme quantidade de calor.

Já Laura Schaefer, professora adjunta do departamento de geologia, cita que outra possibilidade para a existência de um planeta como Mustafar já encontrada por pesquisadores são exoplanetas que orbitam tão próximos de suas estrelas que conseguem manter oceanos de lava permanentes em sua superfície, já que a temperatura está sempre tão elevada que não há possibilidade de resfriamento.

Mas, ainda que a existência de um planeta como Mustafar seja não apenas possível, como há um mundo bem parecido em nosso próprio sistema estelar, o que seria impossível seria a ocorrência de qualquer duelo de sabres de luz na superfície de um planeta do tipo, como vemos em Star Wars. Isso porque, seja pelo aquecimento de maré ou por orbitarem muito próximos de suas estrelas, a superfície de tal planeta seria tão quente, e a atmosfera tão cheia de gases tóxicos, que qualquer Jedi viraria churrasco antes mesmo de ligar o sabre de luz.

Hoth

O planete gelado de Hoth (Imagem: Wookiepedia)

Planetas congelados não são uma novidade em nosso universo: normalmente qualquer planeta que esteja muito distante da estrela que orbita pode se tornar um planeta coberto de gelo assim como Hoth. Mas, em O Império Contra-Ataca, a Aliança Rebelde precisa fugir de um enorme ataque das tropas do Império à base deles no planeta gelado, e uma das dúvidas levantadas é: como os rebeldes poderiam mapear a superfície do planeta para traçar as melhores rotas de fuga?

Segundo Mathieu Lapôtre, professor adjunto do departamento de geologia, pelo que podemos ver no filme, Hoth não é exatamente um “planeta gelado”, mas sim um “planeta coberto por gelo”. Isso quer dizer que ele não é totalmente formado por blocos de gelo - como, por exemplo, a lua Encélado de Saturno - mas é mais parecido com a Terra durante os seus períodos glaciais: um planeta formado por rochas que se encontram cobertas por uma grande camada de gelo.

Mas, independente de ser um planeta composto totalmente por gelo ou um planeta apenas temporariamente congelado, a melhor forma de mapeá-lo seria utilizando um radar de penetração no solo. Isso porque, de acordo com Dustin Schroeder (professor adjunto no departamento de geofísica), tanto gelo quanto rocha se comportam de maneira parecida, o que faria dessa técnica a ideal para mapear todo o planeta, permitindo criar infraestruturas fortificadas e estradas de modo a evitar todos os locais onde o gelo é mais fraco e tende a quebrar com o tempo.

De acordo com o cientista, esse mapeamento com radar poderia ser feito por uma nave orbital mesmo. Agora, se for necessária uma leitura mais detalhada, a melhor opção seria carregar esses radares em trenós puxados por tauntauns (uma criatura nativa de Hoth que parece uma mistura de um canguru com uma lhama), já que as naves snowspeeders são muito rápidas para efetuar qualquer leitura com precisão.

Cinturão de asteroides

Millenium Falcon passando por um cinturão de asteróides (Imagem: Disney)

Logo depois de escapar de Hoth, os heróis precisam precisam escapar de um cinturão de asteroides na Millenium Falcon e, depois de desviar de vários detritos, eles acabam pousando em uma rocha uma pouco maior que as demais, a qual descobrem ser o lar de um verme espacial. Mas será que existe a possibilidade de uma forma de vida existir em pleno cinturão de asteroides?

De acordo com Tikoo-Schantz, a própria ideia de que uma nave tenha que ficar desviando de rochas ao navegar por um cinturão de asteroides - uma noção que é compartilhada não apenas por Star Wars, mas por centenas de outros filmes, séries e jogos de videogame com temática espacial - é algo que não tem relação alguma com o que acontece no mundo real. De acordo com a cientista, a distância média existente entre um asteroide e outro numa formação de cinturão é de 965 mil quilômetros, então não há a necessidade de ficar “desviando” com a nave: é só traçar um curso em linha reta que muito provavelmente você não vai bater em nada.

Outro problema está em como essa formação foi criada: de acordo com o cânone de Star Wars, o campo de asteroides pelo qual a Millenium Falcon precisa passar é o resultado da colisão entre dois planetas rochosos. Assim, seria praticamente impossível um campo desses existir no mundo real, já que colisões entre planetas do Sistema Solar aconteceram nos anos formadores do nosso quintal espacial. Ainda, considerando a vida como a conhecemos aqui na Terra, até algum planeta desenvolver vida (que dirá inteligente), a ponto de uma civilização criar naves espaciais para viajar em velocidades mais rápidas que a da luz, os detritos resultantes de uma colisão planetária já teriam se unido pelas forças gravitacionais a ponto de criar um novo planeta ou uma lua, ou então já teriam sofrido tanta interferência da gravidade dos outros planetas da sistema que já teriam sido expulsos do sistema. No mundo real, os cinturão de asteroides que existe em nosso Sistema Solar é composto por vários planetesimais (corpos rochosos ou de gelo que se formaram no início do Sistema Solar) e que foram “pastoreados” até a atual posição que ocupam, normalmente pela ação gravitacional de planetas massivos como Júpiter.

Verme gigante que vive no cinturão de asteroides (Imagem: Disney)

Agora, quanto à possibilidade de um corpo do cinturão de asteroides servir de habitat para uma forma de vida (como, por exemplo, um verme gigante), essa é outra história mas com o mesmo desfecho: só é possível na ficção. De acordo com Schaefer, um asteroide não possui as condições ideais para o desenvolvimento de vida, especialmente do tipo “verme gigante”. Isso porque, se levarmos em consideração o maior objeto no campo de asteroides de nosso Sistema Solar (Ceres, que atualmente é classificado como um planeta-anão), o tamanho dele é mais ou menos o mesmo do estado do Texas, o que quer dizer que ele é pequeno demais para ter um campo gravitacional que permita o desenvolvimento de um atmosfera, o que é algo vital para a manutenção da água em estado líquido na superfície deste corpo.

Assim, apenas algumas bactérias e animais microscópicos, como os tardígrados (também conhecidos como urso d'água), poderiam sobreviver na superfície de um asteroide caso encontrassem um jeito de chegar até lá, mas se manteriam em um estado dormente e nunca teriam os recursos necessários para evoluir até a forma de um verme gigante.

Tatooine

A famosa cena do pôr do sol duplo em Tatooine (Imagem: Disney)

Uma das cenas mais belas de Uma Nova Esperança é aquela onde vemos Luke admirando o pôr do sol em Tatooine, e somos abordados por uma belíssima imagem de um planeta com dois sóis. Mas seria possível não apenas existir um planeta orbitando duas estrelas, mas ele também ser habitável?

De acordo com Schaefer, isso é algo possível, sim. O cientista revela que metade de todas as estrelas similares ao Sol que são conhecidas hoje estão em sistemas binários, e que os astrônomos e astrofísicos já conseguiram identificar 143 planetas em sistemas como esse. Isso quer dizer que, hoje, já sabemos da existência de 143 planetas que têm dois sóis em seus céus - assim como Tatooine.

Esses planetas estão divididos em 97 sistemas e, desses, em 22 deles os planetas orbitam as duas estrelas ao mesmo tempo - o que quer dizer que, em cada um desses 22 sistemas, há a possibilidade de haver um pôr do sol duplo assim como no primeiro filme de Star Wars. A coisa mais estranha no filme, contudo, é o fato de os dois sóis de Tatooine serem praticamente do mesmo tamanho, já que em todos os sistemas binários existe sempre um astro que é muito maior do que o outro.

Outra curiosidade é que a maior parte desses sistemas também são coplanares, o que quer dizer que tanto os planetas quanto as estrelas que eles orbitam foram formados a partir do mesmo disco protoplanetário. De acordo com Schaefer, o processo de formação desses sistemas é o mesmo daqueles que possuem apenas uma única estrela (como o nosso Sistema Solar), com a diferença de que, para formar duas estrelas, o disco protoplanetário teria que ser bem maior do que os daqueles sistemas com apenas um astro, além de que, por conta de uma maior força gravitacional, todos os planetas que se formaram muito próximos das estrelas desses sistemas binários foram expulsos para fora do sistema.

Agora, quanto à possibilidade de um desses planetas ser habitável, o professor afirma que não seria algo improvável, necessitando apenas que ele esteja a uma distância suficiente das duas estrelas para que a superfície tenha uma temperatura amena o suficiente para a existência de água em estado líquido e, consequentemente, de vida. Então, se você sonha em um dia presenciar um pôr do sol duplo como o de Tatooine, na teoria isso não é impossível, apenas muito improvável de acontecer no futuro próximo contando com as tecnologias espaciais atualmente disponíveis.

Fonte: Futurity

Gostou dessa matéria?

Inscreva seu email no Canaltech para receber atualizações diárias com as últimas notícias do mundo da tecnologia.