Novos testes mostram que o EmDrive é realmente um motor impossível; entenda

Por Daniele Cavalcante | Editado por Patrícia Gnipper | 05 de Abril de 2021 às 18h30
Les Bossinas/NASA

Parece estranho dizer, mas as leis básicas da física prevaleceram. O EmDrive, motor teórico que dispensa o uso de combustível, deixou muita gente entusiasmada — e intrigada — em 2015, quando foi proposto pela primeira vez. Trata-se de um mecanismo hipotético que poderia impulsionar veículos como espaçonaves nem a necessidade de um sistema de exaustão — algo que violaria muito do que se sabe sobre a física. Mesmo assim, experimentos nos últimos pareciam promissores, mas agora tudo foi “por água abaixo”.

Desde sua invenção, no início dos anos 2000, o motor foi apelidado de “impossível” porque, para funcionar, seria necessário desafiar a lei da conservação do movimento linear. Ou seja, a regra básica de que um objeto só pode ser impulsionado se houver uma força de propulsão em seu sentido oposto. Mas quando alguns resultados pareciam obter algum movimento, mesmo que pequeno, a comunidade científica voltou suas atenções para este projeto peculiar.

Motivos para empolgação não faltavam; afinal, se o EmDrive se provasse possível, poderia proporcionar viagens velozes no espaço — quatro horas para chegar à Lua, por exemplo, ou 70 dias para viajar a Marte. Para isso, seria usada uma espécie de propulsão eletromagnética que funciona no vácuo. Especificamente, o EmDrive é cavidade vazia e assimétrica, dentro da qual seria refletida radiação eletromagnética. O afunilamento na cavidade resultaria em um impulso do motor, sem nenhum vazamento.

(Imagem: Reprodução/NASA)

Apesar do ceticismo da maioria dos pesquisadores, alguns decidiram tentar colocar a ideia em prática. Um grupo de cientistas chineses afirmou ter obtido algum sucesso em seu próprio modelo de motor de propulsão eletromagnética, e mais tarde pesquisadores do NASA's Eagleworks Laboratories, liderados por Harold White, alegaram que o mecanismo poderia, sim, funcionar. Assim, em 2015, o EmDrive foi experimentado em pequenos modelos, com alguns testes resultando em pequenos movimentos do estranho dispositivo.

Martin Tajmar, cientista da Dresden University of Technology (TU Dresden), na Alemanha, afirmou no mesmo ano ter produzido uma quantidade de impulso similar à prevista originalmente por Roger Shawyer, o inventor do EmDrive. Com isso, a International Academy of Astronautics (IAA) aceitou seu trabalho e seu projeto foi publicado na Acta Astronautica, publicação mensal da academia. Na época, os defensores disseram que se tratava de uma revolução em nossa compreensão da física e do futuro do voo espacial — o que seria verdade, caso o sucesso fosse real. Mas este não foi o caso.

Após vários grupos de pesquisa, incluindo o Eagleworks da NASA e o DARPA (a agência de projetos de pesquisa do Departamento de Defesa dos EUA), continuarem explorando a viabilidade do EmDrive, Mike McCulloch, líder do projeto no DARPA, estava tão otimista que já pensava em viagens interestelares. “Podemos levar uma sonda não tripulada para Proxima Centauri em uma (longa) vida humana, 90 anos”, disse ele no ano passado. O investimento do DARPA no EmDrive vai até maio de 2021, e novos testes realizados pela TU Dresden não foram animadores.

De acordo com físicos da TU Dresden, os resultados anteriores que apresentaram movimentos do EmDrive eram todos falsos positivos, que são explicados por forças externas. Usando uma nova escala de medição e diferentes pontos de suspensão do mesmo motor, eles “foram capazes de reproduzir forças de empuxo aparentes semelhantes às medidas pela equipe da NASA, mas também de fazê-las desaparecer por meio de pontos de suspensão”, afirmam.

(Imagem: Reprodução/M. Tajmar)

Ainda de acordo com o novo estudo, “quando a potência flui para o EmDrive, o motor aquece. Isso também faz com que os elementos de fixação na escala deformem, fazendo com que a escala se mova para um novo ponto zero. Conseguimos evitar isso em uma estrutura melhorada. Nossas medições refutam todas as afirmações do EmDrive”, concluem. Eles publicaram três artigos sobre o tema.

O investimento da DARPA no EmDrive é bem pequeno, então este não será exatamente o fim do mundo para a agência. Contudo, as viagens espaciais mais velozes estão um pouco mais distantes. Por outro lado, os resultados ajudaram a aprimorar os métodos de medição para comprovar ou descartar futuras tecnologias hipotéticas, e é sempre bom descobrir algo novo. Se o carimbo de “impossível” for definitivamente estampado no EmDrive, ao menos os cientistas já sabem como medir outras tecnologias sem gerar os mesmos falsos positivos. De quebra, a lei da conservação do movimento linear foi comprovada mais uma vez.

Fonte: Popular Mechanichs, Universe Today

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