Nossos ancestrais podem ter visto explosão nuclear no centro da Via Láctea

Por Daniele Cavalcante | 09 de Outubro de 2019 às 14h00
NASA Goddard

No centro da Via Láctea, um buraco negro supermassivo aparentemente emite duas “bolhas” gigantes, uma acima e outra abaixo da região central da nossa galáxia. Elas se estendem nessas direções até uma distância de 25.000 anos-luz cada. Os cientistas chamam esses globos de gás cósmico de “bolhas de Fermi”, e sabem que eles têm alguns milhões de anos. Sua origem ainda é um dos maiores mistérios da nossa galáxia, mas um novo estudo parece se aproximar de uma possível resposta.

Procurando evidências do evento violento que teria originado essas mesmas bolhas de gás em uma das galáxias-satélite da Via Láctea, os pesquisadores criaram um modelo que pode explicar o nascimento desses globos. De acordo com um estudo publicado nessa terça-feira (8), as bolhas de Fermi teriam sido criadas por uma explosão épica de energia nuclear que disparou dos polos da galáxia há cerca de 3,5 milhões de anos, irradiando pelo espaço por centenas de milhares de anos-luz.

Esse fenômeno teria sido tão cataclísmico que brilhou no meio de nossa galáxia por 300.000 anos, de acordo com o autor principal do estudo, Joss Bland-Hawthorn, diretor do Instituto de Astronomia da Universidade de Sydney. Não só isso, mas a explosão pode ter sido visível aqui na Terra, para os primeiros seres humanos. "É um pensamento incrível que, quando os Homens das cavernas estiveram na Terra, se olhassem na direção do centro galáctico, teriam visto algum tipo de bola gigante de gás aquecido", disse Bland-Hawthorn.

Para medir a data da explosão, os pesquisadores olharam as observações que o Telescópio Espacial Hubble fez da Corrente de Magalhães (Magellanic Stream). Trata-se de um arco de gás de 600.000 anos de luz localizado atrás de duas galáxias anãs que orbitam a Via Láctea, conhecidas como Pequenas e Grandes Nuvens de Magalhães. A maior parte do gás hidrogênio que compõe a Corrente de Magalhães é muito fria, mas observações recentes do Hubble revelaram pelo menos três grandes regiões onde o gás é extraordinariamente quente. Além disso, essas regiões se alinham com os pólos norte e sul do centro galáctico da Via Láctea.

De acordo com Bland-Hawthorn, esse é um sinal claro de que essas regiões quentes foram afetadas por um enorme surto de partículas carregadas emitidas da nossa galáxia para o espaço profundo. "Isso só pode ser feito de forma radiativa a partir do monstro no núcleo da galáxia", disse Bland-Hawthorn.

Usando modelos matemáticos, o pesquisador e seus colegas mostraram como uma explosão de energia — conhecida como erupção de Seyfert, um tipo de explosão que pode ocorrer em galáxias com buracos negros ativos a cada 10 milhões de anos — pode explodir no centro da galáxia e chegar até as regiões mais quentes da Corrente de Magalhães. Eles calcularam que, para alcançar essas partes das galáxias vizinhas, a explosão deve ter ocorrido entre 2,5 e 4,5 milhões de anos atrás — uma época em que os ancestrais humanos já estavam caminhando pela Terra.

Apesar de nossos ancestrais estarem andando pelo planeta quando essa explosão aconteceu, é improvável que tenham sido afetados pela energia irradiada, graças à atmosfera protetora da Terra, de acordo com Bland-Hawthorn. Isso é uma boa notícia para nós, porque as erupções de Seyfert ocorrem aleatoriamente em galáxias como a nossa, e pesquisas anteriores sugerem que pode ter outras prestes a acontecer. “Acho que as explosões mais poderosas do nosso Sol teriam a mesma potência — ruim para satélites e caminhantes espaciais, mas nossa atmosfera protege a vida muito bem", concluiu o pesquisador.

Fonte: Live Sciencie

Gostou dessa matéria?

Inscreva seu email no Canaltech para receber atualizações diárias com as últimas notícias do mundo da tecnologia.