Luas de Marte sugerem que o planeta já teve um anel – e terá outro no futuro

Por Daniele Cavalcante | 09 de Junho de 2020 às 13h30

O planeta Marte tem duas luas em sua órbita, chamadas Fobos e Deimos. Por muito tempo, acreditou-se que ambas já foram asteroides, que foram então capturados pela gravidade do Planeta Vermelho. Só que Deimos possui uma orbitação peculiar, que pode colocar em cheque as hipóteses mais aceitas atualmente sobre a formação desses objetos.

Deimos tem uma órbita um tanto quanto torta, de apenas dois graus em relação ao equador marciano. Muitos cientistas não levaram este fato em consideração, até olharem para isto em paralelo com a movimentação da outra lua, Fobos. O autor principal de um novo estudo, Matija Cuk, pesquisador no Instituto SETI, explica que Fobos orbita mais próxima da superfície de Marte, e que está gradativamente caindo em espiral na direção do planeta.

"O fato de a órbita de Deimos não estar exatamente no plano do equador de Marte foi considerado sem importância, e ninguém se importou em tentar explicá-la", disse Cuk. No entanto, sua equipe decidiu olhar para esse detalhe com mais atenção, e a inclinação orbital de Deimos “revelou seu grande segredo”, contou ele.

Acontece que, eventualmente, Fobos estará perto demais de um astro muito maior e com muito mais gravidade - Marte. Com isso, o satélite natural provavelmente será desintegrado em algum momento devido à força gravitacional do planeta, e seu pedaços formarão um anel.

Ilustração de Marte tendo anéis, e outros planetas do Sistema Solar (Imagem: Future)

Dois co-autores do estudo, David Minton, professor na Universidade Purdue, e Andrew Hesselbrock, seu orientando no programa de pós graduação, sugerem que este destino trágico de Fobos pode ser algo cíclico: isso significa que os pedaços da lua que formarem o anel podem ser reagrupados, devido novamente à força gravitacional, formando um novo satélite.

O Instituto SETI explica que este novo satélite entraria em um movimento de afastamento do planeta. Também explica que “uma lua em movimento de afastamento, bem perto da região dos aneis, pode encontrar o que pode ser chamada de ressonância orbital, e a órbita de Deimos seria 3 vezes maior do que a da outra lua”. Esse ciclo de destruição e reconstrução das luas explicaria como a inclinação orbital de Deimos aconteceu.

Em outras palavras, esse processo não só acontecerá com Fobos, mas já aconteceu outras vezes no passado marciano. A hipótese é que Marte possuía um anel, que empurrava esta outra lua, provavelmente muito maior que Deimos, em direção oposta à Marte, influenciando diretamente a órbita de Deimos. "Apenas uma lua que se move para fora poderia ter afetado fortemente [a órbita de] Deimos, o que significa que Marte teria antes um anel empurrando a lua interna para fora".

Outro dado interessante é a idade das luas: Deimos possui bilhões de anos e Fobos formou-se há aproximadamente 200 milhões de anos. Isso pode indicar que Fobos é fruto deste ciclo de formação e destruição de luas, enquanto Deimos teve apenas sua órbita afetada pelo processo.

No entanto, mais dados, principalmente geológicos, são necessários para que maiores respostas sejam alcançadas. A Agência Japonesa de Exploração Aeroespacial (JAXA) planeja uma missão chamada Martian Moons Exploration, que deve ser lançada em 2024, com o intuito de coletar amostras do solo de Fobos e trazê-las à Terra. Cuk afirma que fazer cálculos teóricos é ótimo, além de ser seu ganha-pão – mas poder testar as hipóteses é ainda melhor.

Fonte: SETI

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