Geleiras misteriosas indicam que Marte pode ter passado por várias eras glaciais

Geleiras misteriosas indicam que Marte pode ter passado por várias eras glaciais

Por Danielle Cassita | 20 de Janeiro de 2021 às 13h30
ESA/DLR/FU Berlin/Bill Dunford

Em um novo estudo, o geólogo planetário Joe Levy, da Colgate University, trabalhou em uma análise das geleiras que cobrem a superfície de Marte por meio de imagens feitas pela sonda Mars Reconnaissance Orbiter (MRO), da NASA. Assim, o estudo deverá ajudar os cientistas a entender se esses blocos congelados se formaram durante uma longa era glacial ou se, na verdade, foram necessários vários eventos para isso.

No caso da Terra, o pico da última Era Glacial ocorreu há 20 mil anos e, ao seu fim, as geleiras voltaram para os polos do planeta. Já em Marte, elas estão congeladas na superfície do planeta há 300 milhões de anos e cobertas por detritos, e o que mais intriga os geólogos é o mistério da formação delas: ainda não está claro se as geleiras se formaram durante uma era glacial ou se foi algo gradual, ocorrido durante vários eventos. Entender o processo é importante para que os cientistas saibam mais sobre as mudanças que a órbita e o clima marciano sofreram, porque é preciso haver uma mudança no eixo de inclinação do planeta para que ocorra uma era glacial.

Levy explica que existem modelos muito bons de 20 milhões de anos de Marte; “depois disso, eles tendem a ficar caóticos”, diz. Então, ele criou um plano para examinar as rochas da superfície marciana considerando que, como provavelmente sofreram erosão ao longo do tempo, uma progressão estável das rochas maiores para as menores seria um indicativo de uma única e longa era glacial. Ele selecionou 45 geleiras para o estudo e coletou imagens produzidas pela MRO para contar as rochas e medi-las — as imagens, com resolução de 25 centímetros por pixel, permitiram excelente visualização das formações.

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Essa imagem de uma geleira em Marte mostra a presença de formações geológicas no gelo (Imagem: Reprodução/Joe Levy/Colgate University)

O problema é que, mesmo com a ampliação, o algoritmo de inteligência artificial utilizado não conseguia diferenciar com precisão as rochas presentes nas superfícies glaciais, de modo que estudantes da Colgate University e colegas de outras instituições precisaram entrar em ação. Durante meses, Levy trabalhou em uma espécie de “trabalho de campo virtual” com os estudantes para contar e medir 60 mil rochas, e ficou surpreso quando percebeu que o tamanho das delas não parecia seguir uma ordem, mas sim uma distribuição aleatória. “Não era o tamanho que importava, mas sim como estavam organizadas”, comenta. Como as rochas se deslocaram dentro das geleiras, elas não sofreram erosão e acabaram distribuídas em grandes grupos de detritos.

Esses grupos, localizados nas superfícies das geleiras, indicam a separação dos diferentes fluxos de gelo que se formaram conforme o planeta se movia em seu eixo. Com os dados, ele concluiu, então, que o planeta passou por algo entre seis e 20 eras glaciais nos últimos 300 a 800 milhões de anos. Trata-se da primeira evidência geológica dos efeitos da órbita marciana e das mudanças na inclinação do planeta ao longo de milhões de anos e, além disso, a descoberta traz implicações para a geologia planetária e exploração espacial: “essas geleiras são pequenas cápsulas do tempo, que guardam registros do que havia na atmosfera marciana”, comenta ele.

Isso porque essas formações indicam o que houve durante centenas de milhões de anos da história do planeta sem a necessidade de perfurar o solo. Com esse longo histórico, os cientistas poderão descobrir mais sobre a possibilidade de formas de vida no passado do planeta. “Se houve qualquer biomarcador ali, eles também devem ter ficado presos no gelo”, disse. Agora, Levy e seus colegas estão mapeando o restante das geleiras para treinar a inteligência artificial com os dados que já possuem; assim, o algoritmo deve realizar o trabalho de contar e identificar as rochas. O estudo nos deixa um passo mais perto de ter um histórico completo do nosso vizinho espacial.

O artigo com os resultados do estudo foi publicado na revista Proceedings of the National Academies of Science (PNAS).

Fonte: Colgate.edu

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