Ficaremos 2 semanas sem contato com Marte por "culpa" do Sol; entenda

Ficaremos 2 semanas sem contato com Marte por "culpa" do Sol; entenda

Por Daniele Cavalcante | Editado por Patrícia Gnipper | 04 de Outubro de 2021 às 14h20
Kevin Gill/Flickr

A cada dois anos, todas as espaçonaves, sondas e rovers em Marte ficam incomunicáveis com a Terra por duas semanas. Isso ocorre porque, nesses períodos, o Planeta Vermelho e a Terra entram em conjunção com o Sol — ou seja, nossa estrela fica exatamente entre os dois mundos. Com isso, a comunicação entre ambos é prejudicada, então as missões entram em “modo automático”, sem contato com os controles em nosso planeta.

Marte já pode ser considerado um planeta familiar para nós, já que há mais de 60 anos as agências espaciais de vários países enviam missões para investigá-lo, com uma presença permanente de rovers e sondas há mais de duas décadas. Com isso, as equipes de cientistas e engenheiros já se habituaram a programar os períodos em que os equipamentos não poderão receber ou enviar comandos críticos.

Missões da NASA atualmente ativas em Marte (Imagem: Reprodução/NASA/JPL-Caltech)

Durante o tempo de conjunção — isto é, quando Terra e Marte ficam alinhados tendo o Sol entre ambos —, as naves ficam virtualmente incomunicáveis. Isso inclui tanto landers e rovers na superfície quanto sondas na órbita marciana. O motivo são as partículas solares que interferem na transmissão de dados; em alguns casos, as missões até continuam a enviar algumas informações, mas apenas aquelas que não forem críticas para o funcionamento dos equipamentos.

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Em outras palavras, a comunicação até pode acontecer, mas os dados transmitidos podem ser corrompidos durante a viagem dos sinais de rádio através da radiação solar. Ao atravessar as “nuvens” carregadas de partículas nas proximidades da nossa estrela, os sinais podem sofrer interferências. Caso sejam comandos vitais para orientar rovers ou naves, os equipamentos podem ser danificados. Do mesmo modo, a transmissão de dados científicos importantes coletados pelas sondas podem se perder para sempre.

Então, os equipamentos das missões da NASA recebem comandos para desligar alguns de seus instrumentos científicos, para coletar dados e os armazenam em seus espaços internos, e alguns até continuam enviando dados não sensíveis para a Terra. Neste último caso, os controladores aqui em nosso planeta estão cientes de que esses dados poderão ser perdidos, então selecionam para receber apenas o suficiente para informar que está tudo bem com os rovers, sondas e satélites.

O que é uma conjunção solar e o que acontece nesse período

Durante a aproximação mais próxima entre Marte e o Sol (do ponto de vista da Terra), o Planeta Vermelho estará separado apenas a 0° 39' do Sol. Isso significa que ele estaria totalmente inobservável mesmo que pudéssemos olhar diretamente em direção à nossa estrela. Ao mesmo tempo, Marte também estará no seu ponto mais distante da Terra, a 2,63 UA (ou seja, 2,6 vezes a distância entre o Sol e nosso planeta).

Durante a conjunção, Marte e a Terra ficam em lados opostos (Imagem: Reprodução/NASA)

Se pudesse ser observado agora, o planeta vizinho pareceria bem menor que nas observações de um ano atrás. Em 4 de outubro de 2020, Marte estava em seu ponto mais próximo possível da Terra, parecendo mais brilhante e maior. Agora, exatamente um ano depois, ocorre o oposto — ele pareceria menor, com apenas 3,6 segundos de diâmetro, e menos brilhante, caso pudéssemos observá-lo.

Mas por que exatamente o Sol interfere na comunicação? É que a estrela está sempre expelindo gás quente e energizado de sua atmosfera externa para o espaço, algo que não podemos enxergar, mas é extremamente perigoso para equipamentos eletrônicos e até mesmo para a saúde humana. A coroa solar, por exemplo — nome da camada mais larga e externa da atmosfera solar, que mede extraordinários 13.000.000 km a partir da fotosfera, sendo a parte visível do Sol —, é constituída de plasma com temperatura de mais de um milhão de graus Celsius.

A elevada temperatura provoca uma reação constante dos átomos que compõem a coroa solar, e provavelmente esses são os principais mecanismos que produzem o temidos ventos solares — fluxos contínuos de partículas carregadas ionicamente. As partículas da coroa solar são basicamente elétrons e prótons, além de sub-partículas, e todo esse ambiente é tão extremo que superam em intensidade as partículas dos sinais de transmissão das missões espaciais.

Após duas semanas, Marte estará novamente em uma posição mais favorável e ressurgirá a oeste do Sol, ficando gradualmente mais visível por períodos cada vez mais longos antes do amanhecer. Em algum momento deste mês de outubro, ele voltará a ficar visível a noite toda, repetindo o ciclo. Até que tudo volte ao normal, as equipes da NASA e da chinesa CNSA (as duas únicas com rovers operando em Marte no momento) poderão tirar alguns dias de "folga".

Fonte: NASAIn-the-sky

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