Designer do novo traje espacial da SpaceX para a NASA também fez traje do Batman

Por Rafael Arbulu | 03 de Junho de 2020 às 14h58
(Imagem: Divulgação/NASA)
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Jose Fernandez parece estar em um ótimo lugar da carreira nesse momento: o designer de trajes que já havia trabalhado nos filmes mais recentes da DC Comics (especificamente, ele é o responsável pela roupa do Batman vivido por Ben Affleck) acabou tomando conta das manchetes devido às suas mais recentes criações — os trajes usados pelos astronautas da NASA em sua missão mais recente, que os lançou à Estação Espacial Internacional (ISS) a partir de um foguete Falcon 9, da SpaceX, e a bordo da nave Crew Dragon, também criada pela empresa de Elon Musk.

O evento em si já foi algo histórico, haja vista que essa foi a primeira viagem espacial tripulada da SpaceX, a primeira vez que a NASA lançou seus astronautas com uma empresa privada, e a primeira viagem espacial que marca o fim do contrato dos EUA com os russos para esse transporte à ISS. E foi durante a transmissão ao vivo do lançamento que o mundo notou como os novos trajes espaciais usados pelos astronautas em questão eram para lá de modernos, com ares futuristas e dignos de produções de cinema.

E não era para menos: os trajes destoam consideravelmente dos modelos usados até então, sendo melhor ajustados ao corpo dos usuários ao mesmo tempo em que permitem funcionalidades avançadas. As peças possuem alta capacidade insulante, protegendo os astronautas das variações extremas de temperatura, além de trazerem controles internos de climatização e de comunicação via rádio.

“Uma das coisas mais importantes no desenvolvimento do traje era a de que ele fosse fácil de usar; algo que a tripulação precisasse somente se plugar quando se sentasse, e a roupa meio que tomasse conta a partir daí”, disse um funcionário da SpaceX em um vídeo divulgado pela NASA. “[A roupa] É de fato uma parte da nave, então pensamos nela como um ‘sistema de assento vestível’”.

Outro detalhe importante foi a atenção dada às luvas: os astronautas, apesar de todas as camadas de roupa que vestem, precisaram operar telas sensíveis ao toque da novíssima espaçonave Crew Dragon; então, junto das capacidades de proteção que elas trazem naturalmente, também deveriam ser altamente condutivas, para que os astronautas tocassem nas telas sem precisar tirar as luvas. “Nós trabalhamos para que elas definissem a forma como você interage [com os aparelhos] — a forma como você toca em algo é registrada no display, a fim de que você possa pilotar [a nave] de forma simples e sem cometer erros ao tocá-lo, potencialmente inserindo um comando errado”, disse a NASA em uma coletiva de imprensa.

(Imagem: Divulgação/NASA)

Mas a participação de Jose Hernandez na indústria espacial vem desde bem antes disso: segundo a Forbes, ele foi procurado pela SpaceX em meados de 2016 para participar de uma competição de design de trajes onde, de acordo com ele próprio (apesar do briefing inicial), sequer sabia que seria algo voltado a uma tripulação de viagem ao espaço. "Eu nem sabia o que era ‘SpaceX’, eu pensei que era um filme”, ele comentou.

O design criado por ele agradou o próprio Elon Musk, CEO da Space X, que ressaltou as qualidades específicas do capacete do traje. Hernandez, que desenhou o manto do Batman, bem como as peças de cabeceira de Thor e Loki no universo cinematográfico da Marvel, tem um bom currículo nessa parte: um dos destaques de seu trabalho foi justamente o de criar um capuz para o Batman que permitisse ao ator Ben Affleck virar o seu pescoço sem impedimentos — atores que viveram o personagem antes tinham dificuldades, pasme, em olhar para os lados, sendo obrigados a virar o corpo todo quando uma cena demandava esse tipo de interação.

Outro ponto alto de Hernandez vem na franquia X-Men, já que os trajes do primeiro filme da série, em julho de 2000, eram tão apertados que Hugh “Wolverine” Jackman já comentou publicamente como ele precisava de ajuda para subir degraus. Do segundo filme em diante é que os trajes dos heróis tornaram-se mais confortáveis e, seus movimentos, mais naturais. E outra comissão recorrente do trabalho de Hernandez vem da dupla da música eletrônica Daft Punk, que usa os dotes do artista para criar seus estranhos trajes baseados em discoteca.

(Imagem: Divulgação/NASA)

Trajes de astronautas seguem essa mesma premissa: eles devem ser bastante funcionais, mas, ao mesmo tempo, bem justos, a ponto de não permitirem a entrada de ar por aberturas externas. Antigamente, os capacetes de astronautas tinham inspiração nas carapaças craniais vestidas por mergulhadores de profundeza marítima, um adereço que era, literalmente, parafusado no restante da roupa. Na peça criada por Hernandez, porém, os astronautas contam com uma parte bastante maleável do pescoço, o que se traduz em um campo de visão aprimorado e menos obstruído.

Além disso, as novas roupas são mais otimizadas no que tange aos recursos: isso porque, ao contrário dos modelos originais desenvolvidos internamente pela própria NASA, Hernandez criou seus trajes pensando na comodidade de integrar todo o aparato tecnológico dentro deles. Então módulos de suporte de vida e comunicadores estão todos internalizados nas costuras e bolsos extras da vestimenta espacial.

Vale ressaltar, porém, que esses trajes servem especificamente para resguardar os astronautas dos extremos variáveis de um lançamento, e também para serem usados dentro de uma nave espacial. Contudo, caso precisem fazer uma caminhada espacial do lado de fora da ISS, terão que utilizar os trajes antigos da NASA, desenvolvidos para protegê-los no ambiente espacial propriamente dito, sem estarem dentro de nenhum habitat artificial. A NASA, porém, já confirmou que estes também vão passar por um redesign em breve, como parte de seus preparativos para enviar novos astronautas à superfície da Lua — algo que acontecerá em 2024 com o Programa Artemis.

Fonte: Forbes; IGN; Techcrunch; BBC

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