Compostos fundamentais para a vida podem se formar antes mesmo das estrelas

Por Danielle Cassita | 24 de Novembro de 2020 às 11h45
Reprodução/Jacub Gomez/Pixabay

A glicina, um aminoácido simples e bloco essencial para a construção da vida, pode se formar em nuvens interestelares densas antes de elas se transformarem em novas estrelas e planetas — é o que aponta um novo estudo realizado por uma equipe internacional de cientistas liderados por especialistas da Queen Mary University of London. Além disso, o aminoácido pode até se formar no espaço sem a necessidade de energia.

A ideia de que aminoácidos poderiam se formar antes das estrelas não é nova e veio da análise de cometas, objetos que podem indicar a composição existente no momento em que os planetas e o Sol estavam para se formar. Assim, quando foi identificada a presença da glicina no coma do cometa 67P/Churyumov-Gerasimenko, alvo da missão Rosetta, foi possível considerar este cenário surpreendente, porque se pensava que a glicina exigia radiação ultravioleta para se formar. Sergio Ioppolo, autor líder do estudo, explica que este processo é chamado de “química escura”: “isso se refere à química sem a necessidade de radiação energética”, diz.

O cometa 67P, que foi observado pela missão Rosetta, tinha metilamina em seu coma (Imagem: Reprodução/ESA)

Então, para testar este cenário, os pesquisadores simularam as condições das nuvens interestelares escuras com partículas de poeira frias cobertas por gelo que, depois, foram bombardeadas por átomos. Este processo fez com que as espécies precursoras se fragmentassem, enquanto intermediários reativos se recombinaram. Primeiro, o experimento resultou na formação da metilamina, um composto precursor da glicina. Depois, eles confirmaram que a glicina também se formava mesmo com configurações únicas do vácuo e que a água congelada era uma peça essencial para isso. Em outras investigações, foi possível confirmar estes resultados experimentais, e os pesquisadores extrapolaram os dados obtidos para as condições interestelares. “Descobrimos que quantidades substanciais de glicina podem se formar no espaço com o tempo”, diz Herma Cuppen, professor responsável por algumas das modelagens do estudo.

Harold Linnartz, diretor do Laboratory for Astrophysics at Leiden Observatory, observa que a conclusão mais importante deste estudo é a descoberta de que essas moléculas consideradas os blocos fundamentais para formação da vida se formam em uma etapa bem anterior àquela do início da formação das estrelas e planetas. "Uma formação tão precoce da glicina na evolução das regiões formadores de estrelas implica que esse aminoácido pode ser formado com mais frequência no espaço, e pode até estar preservado em blocos de gelo”, comenta ele. Para Ioppolo, depois que se forma, a glicina pode ser o primeiro passo para a formação diversas moléculas orgânicas complexas, que resultam na formação de outros aminoácidos: “no fim, esse inventário molecular orgânico rico é incorportado a corpos celestiais, como cometas, e levado a planetas jovens, como aconteceu com a Terra e tantos outros”.

Os resultados do estudo foram publicados na revista Nature Astronomy.

Fonte: Phys.org

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