Clima noturno de Vênus é registrado pela primeira vez por sonda espacial

Por Daniele Cavalcante | Editado por Patrícia Gnipper | 21 de Julho de 2021 às 19h10
Paul Byrne; NASA/JPL

Existem muitas hipóteses plausíveis sobre o passado de Vênus, mas ainda não há dados o suficiente para chegar a um consenso. É que o planeta vizinho ainda não foi muito bem analisado — todas as sondas científicas que pousaram por lá deixaram de funcionar instantes após tocar o solo. Para ajudar a decifrar o “mundo infernal”, uma sonda orbital lançada em 2010 coletou boas informações sobre o clima noturno de lá.

A sonda em questão é a Venus Climate Orbiter Akatsuki, da agência espacial japonesa JAXA. Ela está equipada com sensores de infravermelho especiais, que não dependem da iluminação do Sol para obter dados. Assim, a Akatsuki consegue analisar a noite venusiana com mais detalhes que os satélites anteriores, embora isso não seja o suficiente para nos fornecer imagens nítidas.

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Um dos obstáculos que Vênus reservou aos japoneses foi o intenso ruído de fundo — mais ou menos parecido com uma imagem de televisão com interferência criando linhas sobre a imagem do seu programa favorito (embora isso seja coisa da distante época das TVs analógicas, felizmente já superada pelos aparelhos digitais). Em astronomia, é normal aparecer ruídos nas imagens, e isso pode ser resolvido com alguns truques como sobrepor diferentes imagem do mesmo alvo.

Mas quando se trata de Vênus, as coisas nunca são tão simples. O sistema meteorológico venusiano também gira muito rápido, por isso, além do ruído, os cientistas tiveram que “compensar esse movimento”, conforme explicou o professor Takeshi Imamura, da Graduate School of Frontier Sciences at the University of Tokyo. A circulação meteorológica, conhecida como “super-rotação”, vai de leste-oeste e engloba todo o sistema climático do planeta na faixa do equador (seria algo devastador, caso ocorresse aqui na Terra, mas em Vênus não há muito o que devastar).

(Imagem: Reprodução/JAXA/Imamura)

Imamura e sua equipe tentaram compreender os mecanismos que mantém a super-rotação, e apostaram no clima noturno para explicar o fenômeno. Eles conseguiram observar outros ventos durante a noite, que vão de norte-sul. “O que é surpreendente é que eles correm na direção oposta de suas contrapartes diurnas", disse Imamura. Para ele, essa mudança “tão dramática não pode ocorrer sem consequências significativas”.

A equipe espera que os dados da Akatsuki ajudem a construir modelos mais precisos do sistema climático de Vênus, o que seria muito bem-vindo para qualquer cientista que se dedica ao estudo do planeta. Muitos dos modelos atuais consideram que Vênus já foi um muito bem semelhante ao nosso, em um passado bem distante, cheio de oceanos de água líquida. Mas, por algum motivo, o planeta recebeu tanto calor que toda a sua água evaporou e criou nuvens densas, que enclausuraram ainda mais toda essa temperatura.

Hoje, nuvens feitas de ácido sulfúrico cobrem toda a superfície venusiana e leva o clima a atingir temperaturas e pressão extremas. O que exatamente transformou o planeta de modo tão drástico ainda é um mistério, mas o novo estudo, publicado na Nature, pode trazer mais uma peça para este quebra-cabeças.

Fonte: Universidade de Tóquio

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