Cientista levanta preocupações éticas sobre viagem da SpaceX a Marte

Por Daniele Cavalcante | 09 de Outubro de 2019 às 23h00
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Recentemente, Elon Musk revelou sua nave Starship, a promessa da SpaceX para levar até 100 tripulantes a outros mundos, como a Lua e Marte. O empresário afirmou durante uma apresentação que sua visão é tornar a humanidade “multiplanetária”, e fará o possível para “estender a consciência além da Terra”. É um anúncio que desperta a emoção de possivelmente testemunharmos uma aventura espacial nova e inédita, mas há muitas preocupações em assuntos que Musk parece evitar comentários.

Samantha Rolfe, professora de astrobiologia na Universidade de Hertfordshire e diretora técnica principal no Observatório de Bayfordbury, levantou uma série de questões com as quais a SpaceX deveria mostrar mais preocupação, caso prossiga seriamente com seus planos de enviar humanos para Marte na próxima década.

Independente se a empresa conseguirá ou não cumprir seu prazo ambicioso de voar para o Planeta Vermelho até 2024, Rolfe listou uma série de questões, começando com o risco de contaminarmos (e de repente aniquilarmos) alguma possível forma de vida em Marte. Claro, há obviamente muito a ganhar com o sucesso nas missões por lá, mas os riscos de contaminar o planeta, ferir astronautas, e danificar o meio ambiente são reais. “Eu argumentaria que é nossa obrigação moral impedir tais danos”, afirma Rolfe.

Risco aos astronautas

Conceito artístico de astronautas em Marte

Uma das questões abordadas pela astrobióloga é a saúde dos humanos que serão enviados para lá. Nas missões tripuladas atuais, os trabalhos são realizados na órbita baixa da Terra, na Lua e na Estação Espacial Internacional, onde o campo magnético da Terra oferece alguma proteção contra a radiação espacial prejudicial. Mas Marte não tem esse campo magnético e sua atmosfera oferece pouca proteção.

Claro, há muito trabalho em andamento para desenvolver meios de nos proteger adequadamente no Planeta Vermelho, mas a tecnologia de proteção contra radiação está muito aquém em comparação com o avanço tecnológico de outros aspectos do novo foguete da SpaceX. Rolfe questiona se é justo ou ético esperar que os astronautas sejam expostos a níveis perigosos de radiação, o que poderia deixá-los com consideráveis problemas de saúde - ou pior, morte iminente - para então testar as eventuais soluções de proteção.

Risco à vida em Marte

Rover da missão ExoMars, da ESA, que será enviado a Marte em 2020

Apesar de não termos encontrado ainda vestígios de vida em Marte através das sondas e robôs já enviados ao planeta, ainda não foram descartadas as possibilidades de que existam seres microscópicos por lá. Inclusive, a NASA enviará o rover Mars 2020 para tentar encontrar bioassinaturas na superfície marciana, especialmente em uma área onde acredita-se que um dia existiu o delta de um rio.

O diretor da Divisão de Ciência Planetária da NASA, Jim Green, afirmou recentemente ao Telegraph que a agência está perto de trazer ao mundo “revelações” sobre encontrar vida em Marte, algo que pode acontecer em em apenas alguns anos. No entanto, esses anúncios, de acordo com ele, seriam tão revolucionários que “não estamos prontos para isso”, no sentido filosófico, ao nos depararmos com o fato de que não estamos sozinhos no universo.

Bem, se houver mesmo algum tipo de vida marciana, há grandes possibilidades de que a destruamos, ou a prejudiquemos irremediavelmente. É que seres humanos carregam algumas formas de vida microscópica em seus próprios corpos, o que poderia contaminar outros seres nativos do Planeta Vermelho, se existirem. Também pode tornar impossível descobrir mais tarde se algum micróbio encontrado em Marte é de origem marciana ou terrestre.

Espera-se que a missão Mars 2020 traga à Terra amostras de Marte no início da década de 2030, com todo o trabalho de coleta feito por robôs esterilizados. Embora essas missões também apresentem certo risco de contaminação, existem protocolos rigorosos para ajudar a minimizar as chances. Esses protocolos foram apresentados pelo Tratado do Espaço Exterior em 1967 e devem ser seguidos por qualquer entidade da indústria espacial, seja governamental ou não governamental. Será que podemos ter certeza de que, se forçarmos a exploração em um período tão curto de tempo, as arestas não deixarão de ser aparadas - ou seja, os padrões não serão deixados de lado?

De acordo com Rolfe, a SpaceX deveria ter uma política clara em seu site sobre suas preocupações com a proteção planetária. Mas não é esse o caso. Portanto, embora seja possível que a empresa tenha nos bastidores um plano rigoroso nesse sentido, o conteúdo voltado para o público parece sugerir que ultrapassar os limites da exploração humana é mais importante do que as consequências dessa exploração. “Espero que a SpaceX esteja pensando tanto nisso quanto em seus veículos de lançamento, e gostaria que isso se tornasse uma prioridade para a empresa”, diz a pesquisadora.

Musk, no entanto, não demonstra essa preocupação — ao menos publicamente. Ele afirmou durante a última apresentação do Starship que não acredita que "algumas bactérias da Terra possam migrar a Marte" e "se houver alguma vida [em Marte], será muito subterrânea". Mas, ao mesmo tempo, diz que podemos escavar o solo marciano para que humanos possam se abrigar nos subterrâneos e se proteger da radiação.

Carl Sagan nos alertou na série Cosmos, de 1980, contra a nossa tendência para o antropocentrismo - a ideia de que a humanidade é o centro do universo e que as demais espécies e tudo mais existem para servi-nos. No capítulo Os Segredos de Marte, Sagan disse: “Se existe vida em Marte, eu acho que não deveríamos fazer nada com este planeta, mesmo que os marcianos sejam apenas micróbios”. Bom, fica a reflexão!

Fonte: The Conversation

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