Amostra de asteroide coletada por missão japonesa tem água e compostos orgânicos

Por Danielle Cassita | 04 de Março de 2021 às 19h20
Reprodução/JAXA

Em 2005, a missão japonesa Hayabusa, da agência espacial japonesa JAXA, chegava ao asteroide Itokawa. Cinco anos depois, ela retornou à Terra com amostras do objeto espacial. Agora, ao estudar o material, uma equipe de cientistas da Royal Holloway, da University of London (RHUL), identificou que existe água e compostos orgânicos nele — trata-se da primeira vez que estes compostos, que podem ter ajudado no surgimento da vida na Terra, são identificados em um asteroide.

Entender as reações que ocorreram com a água líquida é essencial para os cientistas saberem mais sobre o surgimento e evolução da vida a partir de compostos orgânicos. Para isso, é preciso ter amostras de materiais do espaço que tenham preservado o estado de compostos físicos, químicos e orgânicos, sem se contaminarem na Terra. É aqui que a missão Hayabusa entra: a espaçonave conseguiu coletar partículas de diferentes tamanhos do Itokawa, asteroide que os cientistas consideram ter se formado a partir de uma pilha de materiais vindos de um objeto maior, que se aglomeraram em órbita.

A amostra do asteroide sendo coletada por uma agulha de vidro (Imagem: Reprodução/ISAS-JAXA)

O Itokawa é considerado um asteroide do tipo S, um dos mais comuns que existem no cinturão de asteroides interior — que é também de onde vêm a maior parte dos meteoritos que caem na Terra. Assim, a Dra. Queenie Chan, do Departamento de Ciências da Terra da universidade, explica que “após ser estudado detalhadamente por uma equipe internacional de cientistas, nossa análise de um só grão, apelidado de 'Amazon', preservou tanto a matéria orgânica primitiva, não aquecida, quanto a processada, que sofreu aquecimento, a dez mícrons de distância”.

A matéria orgânica aquecida mostrou que o asteroide alcançou temperaturas maiores que os 600 °C no passado. Este material estava próximo de matéria orgânica que não mostrou aquecimento, o que indica que compostos orgânicos caíram na superfície do asteroide depois que ele se resfriou. Além disso, a amostra Amazon revelou que a matéria orgânica e a água originadas do asteroide sofreram evoluções químicas ao longo do estudo. Os autores sugerem que o asteroide também evoluiu ao longo do tempo, porque foi incorporando água e material orgânico em sua estrutura, assim como aconteceu com a Terra em um passado distante.

No caso do Itokawa, ele passou por calor extremo, desidratação e impactos catastróficos. Mesmo assim, conseguiu se reconstruir a partir dos fragmentos que restaram e obteve água a partir de poeira e impactos de meteoritos ricos em carbono. Ainda, o estudo mostrou que os asteroides do tipo S, ricos em sílica, contêm ingredientes de enorme importância para o florescimento da vida. Até então, o foco era direcionado para os asteroides do tipo C, ricos em carbono. Essas descobertas sugerem que a mistura dos materiais é um processo comum no Sistema Solar.

O estudo da amostra trouxe detalhes da história do Itokawa, bem como as semelhanças de seu caminho evolutivo com o da Terra antes do surgimento das primeiras formas de vida. Por fim, o sucesso da missão e a análise da Amazon abrem o caminho também para os estudos dos materiais coletados pelas missões Hayabusa-2, também da JAXA, e OSIRIS-REx, da NASA — que recolheram amostras dos asteroides Ryugu e Bennu, respectivamente.

O artigo com os resultados do estudo foi publicado na revista Nature.

Fonte: Royal Holloway

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