Alguns desafios que empresas como SpaceX e Blue Origin devem superar no espaço

Por Patrícia Gnipper | 19 de Agosto de 2019 às 23h00

Em meio a uma nova Corrida Espacial, não apenas envolvendo agências estatais de diferentes países como também com empresas privadas na jogada, nomes como SpaceX e Blue Origin se destacam por estarem em fases adiantadas do desenvolvimento de foguetes e naves que, em um futuro não muito distante, levarão astronautas e também civis ao espaço, incluindo passeios na Lua e até mesmo em Marte, incluindo visitas puramente turísticas. Só que o ambiente espacial oferece uma série de desafios a serem superados, e as empresas de Elon Musk e Jeff Bezos precisarão superá-los muito em breve para que seus planos deem certo no longo prazo.

Afinal, Musk não conseguirá criar a tão sonhada base colonizadora em Marte, e Bezos não conseguirá construir habitats lunares se não souberem como lidar com as consequências da radiação espacial, da microgravidade, entre outros perigos do tipo que abordaremos nas próximas linhas. Quais são, então, alguns dos grandes desafios que essas empresas deverão superar para que seus ambiciosos planos espaciais se concretizem?

Consequências da baixa gravidade

Nós, humanos, fomos criados para habitar a Terra, que exerce uma força específica de gravidade nos puxando para baixo a todo instante. E os efeitos da falta de gravidade, ou de uma gravidade menos intensa, em nosso organismo, vão muito além da simples (e divertida) sensação de ausência de peso. A baixa gravidade afina nossos ossos, enfraquece nossos músculos e faz até mesmo nossos corações mudarem de forma.

Então, longos períodos fora do nosso planeta representam um impacto relevante na saúde dos exploradores espaciais. "Marte tem mais gravidade do que a Estação Espacial Internacional, mas não muito, ainda é cerca de um sexto da Terra. Então você tem um problema sério sobre se as pessoas podem viver lá por qualquer período de tempo sério. Isso dobra se você quiser criar filhos e qualquer coisa que se aproxime de uma colônia real", explica David Armstrong, professor de astrofísica da Universidade de Warwick.

Um estudo de 2013 mostrou que, entre os 35 astronautas analisados, eles perderam em média mais de 10% da densidade óssea depois de missões espaciais que duraram entre 120 e 180 dias. E "se astronautas treinados estão perdendo quantidades significativas de densidade óssea — o suficiente você normalmente perderia quando tiver 50 e 60 anos —, como alguém poderia viver permanentemente naquele ambiente?" ele questiona.

Agora quanto à queda na massa muscular: de acordo com o professor Kevin Moffat, especialista em fisiologia humana em ambientes extremos, ainda não há maneira comprovada de neutralizar esta condição. Ele explica que "há todo tipo de debate sobre o que acontece com o condicionamento muscular [no espaço]". E quanto ao uso de aparelhos de exercícios para reforçar o condicionamento físico dos astronautas no ambiente espacial, ele ressalta que "as evidências ainda são bastante equivocadas se isso realmente ajuda, mas suspeito que se eu estivesse lá, eu faria isso também apenas no caso de funcionar".

Outra consequência de se passar longos períodos fora da gravidade terrestre está na mudança do formato do coração humano. "No espaço, seu coração se torna mais redondo, porque não há gravidade para ajudar a bombear [o sangue]", disse o especialista. E acredita-se, ainda, que essa mudança de formato possa acarretar outros riscos à saúde, incluindo formação de cálculos renais.

O espaço muda o sistema imunológico e o microbioma

Moffat também falou sobre como o ambiente espacial altera o sistema imunológico dos astronautas — em especial um tipo de célula chamada de "assassina natural", que ajuda a proteger o corpo contra coisas como o câncer. No espaço, "sabemos que seus níveis caem maciçamente em astronautas; se você estiver lá por seis meses, provavelmente não fará muita diferença, mas se você estiver lá por dois anos, cinco anos, dez anos, uma vida inteira, então há um conjunto de preocupações que eu sugeriria que o seu sistema imunológico pode não estar funcionando para monitorar seu corpo em busca de células nocivas", disse.

O especialista aposta que isso se deve à mudança na densidade óssea, algo que pode ter a ver com a medula óssea, especificamente, que é justamente onde as células do sangue são geradas.

Já quanto ao microbioma: "Há tantas células dentro de você, e em você, como você. Você é feito de tantos micróbios e fungos e bactérias quanto você é feito de células", e um estudo realizado com gêmeos (um que foi ao espaço e outro que ficou na Terra) mostrou que "parece haver mudanças na comunidade bacteriana em seu intestino, e isso também é uma preocupação, porque isso vai alterar o que você pode comer".

Os perigos da radiação espacial

Além de tudo, há o perigo envolvendo a radiação espacial. Aqui na Terra, nossa magnetosfera e a camada de ozônio nos protegem deste mal emitido pelo Sol, mas no ambiente espacial a coisa é diferente: quem vive na ISS ou quem estiver visitando a Lua recebe doses mais altas de radiação, ainda que não em quantidades fatais. Mas e o que vai acontecer quando as viagens espaciais de longa duração, como as para Marte, começarem a sair do papel?

Há estudos diversos sendo conduzidos no momento sobre este assunto, mas por enquanto ainda não se sabe se a radiação espacial é mesmo problemática e somente após quanto tempo no espaço ela começa a oferecer perigos reais à saúde. De qualquer maneira, será preciso investir em camadas de proteção adicionais para mitigar riscos.

Alimentação no espaço

Cena do filme Perdido em Marte

E quanto à alimentação dos futuros exploradores espaciais que farão longas jornadas? Será possível plantar batatas em Marte como vimos no cinema? Para David Armstrong, "o solo da Terra é uma coisa muito complexa que foi construída a partir de milhões de anos de material orgânico crescendo e morrendo, e o solo marciano não tem isso; existem vários experimentos cultivando coisas em solo marciano simulado e eles realmente tendem a ir para frente, mas o problema é que esses estimulantes não são necessariamente precisos".

É que "alguns dos materiais mais prejudiciais no solo marciano são algo chamado perclorato, que achamos realmente muito ruim; é provável que qualquer planta marciana consuma esses minerais pesados, o que poderia matar pessoas, dependendo do nível de exposição", acrescenta.

Os pontos levantados acima representam apenas alguns dos grandes desafios que empresas como a SpaceX e a Blue Origin devem superar antes que enviem pessoas ao espaço para ficarem por lá por bastante tempo. E são desafios iguais que vêm sendo enfrentados por agências espaciais como a NASA e a ESA, por exemplo, que já têm um longo histórico no envio de astronautas para viver no espaço por vários meses a fio.

Mas, de qualquer maneira, levantar estes perigos não deve ser interpretado como "não devemos viver no espaço, pois fomos feitos para viver na Terra": tudo isso deve ser encarado como desafios a serem vencidos para que a humanidade consiga realizar o tão antigo sonho de, enfim, se espalhar pelo espaço e garantir nossa prosperidade enquanto espécie não apenas em nosso planeta natal, como em várias partes do Sistema Solar — e, por que não, além?

Fonte: Business Insider

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