A subsuperfície de Marte pode ser o local ideal para a vida ter se abrigado

Por Danielle Cassita | 04 de Dezembro de 2020 às 21h30
NASA/Viking Project

A busca por formas de vida em Marte ganha mais um possível lugar ideal: um novo estudo liderado por cientistas da Rutgers University sugere que, na verdade, a região mais farovárel para a vida no Planeta Vermelho pode estar abaixo da superfície, em função da ação do calor geotérmico, que teria feito com que os lençóis de gelo a alguns quilômetros abaixo da superfície se derretessem e, assim, formassem água líquida. 

Para Lujendra Ojha, principal autor do estudo, mesmo que sejam feitas simulações de gases como dióxido de carbono, que causa o efeito estufa, junto de vapor de água, os modelos climáticos ainda não conseguem representar bem um planeta quente e úmido a longo prazo — como Marte pode ter sido no passado. “Então, eu e meus co-autores propomos que o ‘paradoxo do Sol jovem fraco’ possa ser reconciliado, pelo menos parcialmente, se Marte teve bastante calor geotérmico em seu passado”, explica ele.

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A imagem, colorida artificialmente e exagerada na vertical, mostra Dao Vallis, um canal esculpido pela ação da água (Imagem: Reprodução/ESA/DLR/FU Berlin/3D rendered and colored by Lujendra Ojha)

Isso porque o Sol é um reator nuclear massivo, que produz energia a partir da fusão do hidrogênio em hélio. Apesar de aquecer o nosso planeta e os nossos vizinhos, o Sol já foi bem mais fraco há 4 bilhões de anos do que é hoje, de modo que Marte provavelmente era congelante naquela época. É aqui que o paradoxo surge: apesar disso, a superfície do planeta tem alguns sinais geológicos, como leitos de rios e minerais relacionados à água, que indicam que houve água líquida por lá durante o período Noachiano, ocorrido entre 3,7 e 4,1 bilhões de anos atrás. 

Então, os cientistas examinaram vários conjuntos de dados de Marte para verificar se o aquecimento via calor geotérmico seria possível no período Noachiano. Este é um processo em que o decaimento radioativo causado por elementos presentes em planetas rochosos produz calor; no caso da Terra, existem lagos subglaciais mesmo em áreas congeladas do arquipélago Ártico Canadense e Groenlândia, devido ao calor geotérmico. Este processo pode ser uma parte importante na explicação da ocorrência da água líquida em um mundo tão frio.

Os resultados mostraram que as condições necessárias para o derretimento do gelo abaixo da superfície eram favoráveis em Marte no passado. Então, mesmo que o Planeta Vermelho tenha, de fato, apresentado clima quente e úmido há 4 bilhões de anos, em função da perda do campo magnético, atmosfera mais fina e queda nas temperaturas globais ao longo do tempo, a água poderia ter se mantido estável se estivesse localizada a grande profundidade. 

Por isso, se a vida realmente tiver existido no planeta, ela pode ter seguido a água líquida para profundidades progressivamente maiores: “ali, a vida pode ter se sustentado pela atividade do calor geotérmico e reações entre a água e as rochas, então a subsuperfície pode ser o ambiente habitável mais viável para antigas formas de vida”, conclui o autor. Por fim, é possível também que biomarcadores das formas de vida — se existirem — estejam também mais preservados em maiores profundidades por não estarem expostos à radiação.

O artigo com os resultados do estudo foi publicado na revista Science Advances.

Fonte: Rutgers

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