A importância do Observatório Astronômico Sul-Africano em 200 anos de história

Por Daniele Cavalcante | 26 de Janeiro de 2021 às 18h45
SAAO

Astronomia se faz com muita observação e matemática, mas não se resume apenas a montes de dados e teorias. Também é uma ciência documental. A memória é extremamente importante, pois é com os registros históricos que sabemos quem, onde e quando cada descoberta ocorreu. Às vezes, nomes famosos — como Isaac Newton, Albert Einstein ou Stephen Hawking — nos vêm facilmente à mente, mas também é importante reconhecer e enaltecer os locais que proporcionam as condições adequadas para a ciência acontecer. E um desses locais é o Observatório Astronômico Sul-Africano.

No final de 2020, o país celebrou o aniversário de 200 anos do observatório (ou SAAO, da sigla em inglês). Ele é uma prova das inestimáveis contribuições da África do Sul às ciências espaciais. A instalação foi inaugurada em outubro de 1820 e, desde então, astrônomos de vários lugares recorreram ao local para fazer algumas das mais importantes descobertas da astronomia. Foi lá onde a estrela mais próxima da Terra, Proxima Centauri, foi encontrada, por sinal. Também ali foi descoberto o oxigênio nas estrelas, e foi onde se deu o início do primeiro atlas fotográfico do céu.

Southern African Large Telescope, peça fundamental das contribuições da África do Sul para a astronomia (Imagem: Reprodução/SAAO)

Com o SAAO, a África do Sul esteve na vanguarda da astronomia, mas ele nem sempre teve este nome. Na verdade, em 1820 foi primeiro inaugurado o Observatório Real Cabo da Boa Esperança, a instituição científica mais antiga do país. Ele era controlado pelo Almirantado Britânico, e sua principal missão era mapear os céus do hemisfério sul para o aprimoramento da navegação. Contudo, em 1971, o país decidiu unir as principais instalações para a pesquisa astronômica de observação, e assim o local passou a ser conhecido como Observatório Astronômico Sul-Africano.

O SAAO tem muitas histórias para contar, algumas delas muito interessantes. Afinal, desde sua fundação em 1820, ele estava equipado com os instrumentos de medição da posição das estrelas mais precisos disponíveis no planeta. Onze anos depois, Thomas Henderson usou esses dispositivos para fazer as primeiras medições de um efeito que ficou conhecido como “paralaxe”, que é nada mais que o movimento aparente das estrelas causado pela rotação da Terra. O paralaxe passou a ser usado para medir a distância das estrelas.

Construção do telescópio McClean (Imagem: Reprodução/SAAO)

Outro episódio marcante do observatório foi o início das fotografias celestes. Tudo começou em 1882, quando o chefe do Observatório Real, David Gill, recebeu uma carta de um tal Sr. Simpson, um fotógrafo amador de uma cidade chamada Aberdeen. Simpson havia conseguido fotografar um cometa que acabara passar pela Terra, mas suas chapas fotográficas tinham algo mais: elas eram sensíveis o suficiente para registras estrelas ao fundo.

Então, Gill percebeu que, com as fotografias (que viriam a se popularizar apenas em 1888), as posições das estrelas podiam ser registradas permanentemente, de forma altamente confiável. Gill montou um telescópio fotográfico especial e começou a fazer o primeiro catálogo fotográfico de estrelas do hemisfério sul. Em 1903, John Franklin-Adams começou sua própria pesquisa do sul celeste no Observatório Real. Mais tarde, esse trabalho se tornaria o primeiro atlas fotográfico de todo o céu.

Prédio principal do observatório (Imagem: Reprodução/SAAO)

Uma série de outras pesquisas e descobertas importantes ocorreram ali, no SAAO. Trabalhos como o de Joseph Halm, que foi um pioneiro da dinâmica estelar e descobriu a relação entre massa e luminosidade nas estrelas. Ou de Alan Cousins, que no final dos anos 1950 ​​desenvolveu um sistema para medir o brilho das estrelas e obteve medições precisas de um conjunto de estrelas no hemisfério sul.

O Observatório Astronômico Sul-Africano também é um dos mais importantes nos tempos atuais. Por exemplo, ele proporcionou em 1987 a observação de uma supernova (SN1987A) na Grande Nuvem de Magalhães, uma galáxia próxima de nós. Os dados do telescópio do SAAO também já foram combinados com dados de várias sondas espaciais para investigar a estrutura de nossa galáxia.

Hoje, o SAAO, é gerido pela Fundação Nacional de Pesquisa da África do Sul, e possui outras instalações, sendo a sede localizada na Cidade do Cabo. A função do observatório atualmente é a de realizar pesquisas em astronomia e astrofísica, e seus principais telescópios — incluindo o Southern African Large Telescope (SALT), maior telescópio óptico do hemisfério sul — estão localizados em Sutherland, a 370 km da sede.

São diversos telescópios instalados no SAAO (Imagem: Reprodução/SAAO)

A astronomia sul-africana continua à frente de muitas iniciativas, descobertas e pesquisas, tais como o rastreamento de elementos naturais presentes em estrelas de outras galáxias — elementos ligados à formação de vida. O SAAO também é líder no campo da radioastronomia, com o telescópio MeerKAT, perto de Carnarvon, e daqui a uns dez anos será guardião de um projeto internacional, o Square Kilometer Array.

Fonte: The Conversation, Nacional Research Foundation

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