O que o Pacificador do Esquadrão Suicida tem em comum com Watchmen?

O que o Pacificador do Esquadrão Suicida tem em comum com Watchmen?

Por Durval Ramos | Editado por Jones Oliveira | 31 de Julho de 2021 às 12h30
Warner Bros

O novo O Esquadrão Suicida estreia no começo de agosto rodeado de muito otimismo. Ao se distanciar do tom sério do filme de 2016 e abraçar de uma vez por todas a galhofa, o longa parece ter acertado o tom e vem recebendo elogios da crítica especializada que já teve acesso ao longa. E entre os pontos destacados, está o carisma dos novos personagens, sobretudo do Pacificador — que deu tão certo que vai ganhar até mesmo uma série própria no HBO Max.

O que pouca gente sabe é que o personagem vivido por John Cena tem uma relação direta com outro anti-herói bastante conhecido das HQs e também dos cinemas — tudo por causa de um dos maiores gênios dos quadrinhos, Alan Moore. Estamos falando do Comediante, de Watchmen, que chegou a ganhar uma versão em live action nas mãos do diretor Zack Snyder.

O Pacificador vai chegar aos cinemas, mas seu derivado estreou muito antes (Imagem: Reprodução/Warner Bros)

Só que, para entender essa história e saber como esses dois personagens se conectam, precisamos primeiro deixar os gibis e os filmes um pouco de lado e dar uma olhada no que estava acontecendo no mercado editorial em meados dos anos 1980.

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O nascimento de Watchmen

Não há dúvidas de que Watchmen é uma obra-prima dos quadrinhos. Lançada originalmente pela DC Comics em 1986 com roteiros de Alan Moore e arte de Dave Gibbons, a história trazia uma visão bem menos idealista do que é super-herói e discutia, principalmente, quais seriam as implicações de termos vigilantes e seres super-poderosos existindo em um mundo muito próximo do nosso. E isso revolucionou o mercado na época e abriu as portas para uma série de outras HQs que também queriam desconstruir o gênero. Se você gosta de The Boys e Injustice, saiba que tudo começa aqui.

Só que, antes de termos Rorschach, Dr. Manhattan e Coruja questionando o papel dos mascarados na sociedade, a proposta de Moore e Gibbons para Watchmen era um pouco diferente e o que foi de fato publicado foi uma adaptação, de certo modo, forçada pela DC Comics na época.

Os personagens de Watchmen foram criados após a DC negar o uso dos heróis da Charlton Comics — incluindo o Pacificador (Imagem: Reprodução/DC Comics)

Em 1984, Moore já trabalhava para a editora, escrevendo a premiada saga do Monstro do Pântano, e a DC queria que ele produzisse novas histórias. Foi quando o autor propôs partir para o universo dos super-heróis, mas em uma trama longe da continuidade que amarrava Superman e Batman e que lhe desse a liberdade de adotar um tom bem mais realista quanto ao modo como as pessoas viam esses vigilantes.

Para isso, Moore concebeu um projeto que utilizaria personagens que já eram conhecidos do público, mas que estavam há tempos fora dos holofotes. Na proposta original, o autor queria usar heróis que pertenciam à Charlton Comics, uma editora que fez bastante sucesso nas décadas de 1940 e 1950, mas que estava à beira da falência e que vendeu os direitos de seus personagens à DC. Eram nomes que estavam esquecidos em alguma gaveta da empresa, sem uso já há algum tempo. E, entre eles, estava o Pacificador.

O problema foi que a DC não autorizou que o quadrinista usasse aqueles personagens para a história que estava sendo contada. Como o próprio Moore explica em uma carta publicada no ano seguinte ao lançamento de Watchmen, o roteiro que ele concebeu tinha uma visão muito mais cínica do que poderia ser a Liga da Justiça, o que significava algo bem mais violento e pesado em todos os sentidos da palavra. E mesmo sendo com personagens fora da cronologia, a editora vetou o uso e o autor precisou fazer adaptações, criando análogos a cada um dos heróis.

A DC fez uma bela referência aos bastidores de Watchmen ao colocar os heróis da Charlton Comics todos juntos na história Doomsday Clock (Imagem:Reprodução/DC Comics)

Foi dessa forma que o Questão se transformou no Rorschach e o Capitão Átomo virou o Doutor Manhattan que a gente conhece. Mais importante ainda, foi a criação do anti-herói Comediante para substituir o Pacificador. Mas o que esses dois personagens têm em comum?

Pacificador X Comediante

Criado em 1966, o Pacificador da Charlton Comics era um diplomata ativista da paz que lutava para defendê-la com armas de fogo e uma armadura. E apesar de hoje a gente estranhar essa contradição, havia um romantismo em torno de suas intenções na época que normalizavam toda essa questão. Foi somente depois da saga Crise nas Infinitas Terras, em 1987 — ou seja, alguns meses após Watchmen — é que o Pacificar foi incorporado à DC, desta vez como alguém bem mais extremista e capaz de matar para alcançar sua tão amada paz, ou seja, da mesma forma que James Gunn vai levar para o seu O Esquadrão Suicida

De acordo com o próprio Alan Moore, a escolha do personagem para a história que ele tinha concebido originalmente foi por causa do seu nome. “Em uma versão mais agressiva e militarista dos EUA que é mostrada em nossa história, a ideia de um ‘Pacificador’ tem um tom um pouco irônico”, explica Moore nos textos que acompanham a edição definitiva de Watchmen. “O Comediante, por outro lado, é uma coisa inteiramente diferente”.

Não há como negar a semelhança entre os dois personagens (Imagem: DC Comics/Reprodução)

Assim, quando ele fez as adaptações necessárias e criou o novo anti-herói, a tal ironia deixou de existir e o Comediante ganhou uma personalidade e origem diferentes do herói da Charlton. Assim, aquele idealismo contraditório saía de cena para a entrada de alguém muito mais pragmático e que, de certo modo, gostava da violência na qual estava inserido ao seguir as ordens do governo em plena Guerra Fria. Nas palavras do próprio Moore, ele era uma mistura de Dirty Harry, como Nick Fury e Hannibal de Esquadrão Classe A.

O curioso disso tudo é que a versão final que vimos em Watchmen é muito próxima daquela que a DC trouxe para o Pacificador pós-Crise. Dessa forma, apesar de ter negado o uso do personagem por Alan Moore, a editora acabou trazendo-o à sua cronologia de maneira muito próxima daquilo que o autor tinha proposto pouco tempo antes. A diferença era que o Comediante realmente era muito sádico, enquanto o Pacificador tinha a desculpa de problemas mentais para justificar seus atos.

E o que veremos no filme?

De tudo o que foi mostrado sobre O Esquadrão Suicida até agora, espere algo muito mais próximo da versão pós-Crise do que a amenizada na era da Charlton. Isso significa, portanto, que veremos nas telas a versão do personagem que foi claramente influenciada pela visão de Alan Moore, ainda que na forma do Comediante.

Os trailers já deixaram claro que ele será esse soldado pacifista que não mede as consequências dos seus atos que faz dele, como o próprio ator John Cena resumiu, “o Capitão América babaca”. A diferença é que, pelo menos no filme, ele também deve ser um tanto quanto burro e bastante aficcionado em imagens fálicas — ou seja, o tipo de bizarrice que James Gunn adora.

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