Crítica | Vovó Saiu do Armário e a naturalidade de um amor que ainda é tabu

Por Laísa Trojaike | 27 de Janeiro de 2021 às 09h37
Filmax

A coprodução entre Portugal e Espanha chega ao Brasil trazendo algo que não temos o costume de ver por aqui: comédia europeia. O primeiro longa-metragem de Ángeles Reiné, Vovó Saiu do Armário é de 2019 e ganhou uma improvável visibilidade ao estrear no catálogo da Netflix, o que provavelmente se deve à temática LGBTQI+ e não ao gênero cinematográfico e à nacionalidade.

Para bem ou para mal, o estranhamento é provável. O filme parece sem graça demais para uma comédia e é possível que os toques de amadorismo sejam entendidos como má qualidade, quando na verdade, mais uma vez, não se trata de uma questão de qualidade fílmica (pelo menos não necessariamente). Ainda assim, é possível dizer que, tecnicamente, Vovó Saiu do Armário é um filme bastante clichê, o que ajuda a potencializar os defeitos, além de ser muito mal-executado, alcançando ares de artesanal por vezes. O coração quentinho, no entanto, está lá e pode valer a pena.

Imagem: Reprodução/Filmax 

Atenção! A partir daqui, a crítica pode conter spoilers.

Juventude

Bom ou ruim, não importa, como disse antes. Isso porque este é um filme com um tremendo papel social. Nada complexo, leve e supostamente divertido, Vovó Saiu do Armário consegue atingir um público amplo e pode ser muito útil e encorajador para muitas pessoas que encontram dificuldades para lidar com algumas situações familiares. Apesar da temática LGBTQI+, o longa-metragem não é um filme apenas sobre um romance lésbico, mas sobre ser quem queremos ser.

Claro que, por ser uma comédia, ele ignora o peso dos traumas e as possibilidades mais terríveis que podem vir do preconceito. Em compensação, entrega uma mensagem belíssima de tolerância e tem a excelente sacada de inverter os papéis em termos de faixa etária. Ainda que seja mais comum a ideia de que pessoas mais idosas tendem a ser mais conservadoras pelos mais diversos motivos, é muito interessante como Vovó Saiu do Armário coloca o conservadorismo nos personagens mais jovens.

Imagem: Reprodução/Filmax

Essa inversão funciona muito bem para mostrar que juventude não é sinônimo de mente aberta. Além disso, estimula qualquer pessoa a sair do armário, mesmo que ela esteja lá dentro há décadas: não há idade para o amor, não há outra vida para ser vivida, não temos tempo a perder e precisamos ser fiéis a nós mesmos. São mensagens simples, mas muito poderosas, o tipo de característica que nos ajuda a entender como um filme ruim pode ser bom (e vice-versa).

Romance

O romance de Celia (Rosa Maria Sardà) e Sofía (Rosa Maria Sardà), infelizmente, acaba ficando em segundo plano, dando abertura para os encontros e flertes de Eva (Ingrid García Jonsson) e Jorge (David Verdaguer), como se o filme fosse uma desculpa para nos mostrar o óbvio romance que pode ser previsto desde a primeira vez que eles se encontram no aeroporto. Assim, nos é negada uma visão mais profunda do romance lésbico na terceira idade, o que poderia ser ainda mais inspirador.

Por outro lado, a ideia de sair do armário (ou do guarda-roupas) contamina os demais personagens ao redor de Celia e Sofia. Ainda que assumir o relacionamento lésbico publicamente seja o mote central de toda a trama, sair do armário é também uma lição para todos que viviam uma vida falsa: não poder viver sua sexualidade é não poder ser real consigo mesmo, da mesma forma como seria falsa a vida de Eva com o escocês. Sair do armário, no entanto, não é igualmente bem-visto em todas as situações.

Imagem: Reprodução/Filmax

Para além dos fatores familiares e sociais, Vovó Saiu do Armário toca em um verdadeiro vespeiro ao incluir a discussão religiosa no roteiro. A repercussão negativa na pequena cidade é quase automática, claro, mas a resolução é inesperada e o mistério sobre a veracidade do contato entre Celia e o Papa é uma das poucas iscas que verdadeiramente seguram o espectador até o final. É preciso reconhecer, inclusive, que o filme tem muita coragem ao incluir o Papa como um personagem, delegando a ele uma tremenda responsabilidade.

A escassez de filmes com essa temática indicam que, mesmo sem ser uma obra-prima, Vovó Saiu do Armário é um filme necessário. A resolução, a mensagem religiosa, a inclusão e a união fazem dele um filme bonito, apesar de todos os tropeços técnicos e, embora possa ser facilmente esquecido, já terá plantado suas sementes nos espectadores.

Vovó Saiu do Armário está disponível no catálogo da Netflix.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Canaltech.

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