Crítica | The Rain chega ao fim como ficção científica modesta esperançosa

Por Natalie Rosa | 11 de Agosto de 2020 às 08h43
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A série original da Netflix The Rain acaba de ganhar a sua terceira e última temporada, colocando um ponto final na história da chuva venenosa que exterminou grande parte da população.

A trama se passa na Dinamarca e tem foco nos irmãos Simone Anderson (Alba August) e Rasmus Andersen (Lucas Lynggaard Tønnesen), filhos de ninguém menos do que um dos criadores dessa chuva mortal, Frederik Andersen, bioquímico que trabalhava para a empresa Apollon.

Atenção: esta crítica contém spoilers de The Rain

Com o passar das duas temporadas anteriores, descobrimos que a chuva foi criada artificialmente pela empresa com objetivos de poder, espalhando pelo mundo uma chuva que carrega um poderoso vírus que somente eles terão a cura. No caso, a cura está em Rasmus que, desde criança, se tornou cobaia dos testes da empresa e basicamente se tornou o paciente zero.

Imagem: Divulgação/Netflix

Esse esclarecimento, no entanto, fica muito vago. É difícil entender a fundo os objetivos com essa chuva, assim como quais foram as regiões nas quais elas foram afetadas, se foi em toda a Escandinávia, Europa ou o mundo todo. The Rain opta por centralizar a história na relação entre os irmãos e na busca pela cura, enquanto as conversas na Apollon são cheias de mistérios e se torna difícil entender quais são as intenções de casa um.

Depois de passarem seis anos no bunker criado pelo próprio pai, Rasmus, agora quase um adulto, e Simone Anderson precisaram sair pelo mundo atrás de Frederik para que ele tentasse curar o filho. Porém, como ninguém daquela empresa vale alguma coisa, o jovem teria que morrer para que o antídoto fosse retirado do seu corpo, o que no fim trouxe o arrependimento para o pai. Mas na terceira temporada, o que se tratava da busca por uma solução sadia de curar Rasmus e o resto do mundo, acabou com o vírus controlando o seu corpo e sua mente, o que já era de se esperar.

O vírus consegue se manifestar fora do corpo de Rasmus, em forma de uma fumaça tão densa e preta que parece ser possível tocar, sendo um incrível trabalho de computação gráfica. O garoto e a Apollon acabam descobrindo que o vírus não mata quem tem o sistema imunológico enfraquecido, pois não tem nada ali que lute contra ele. Então, o resultado é também ser controlado pelo vírus e sobreviver. O problema é que parece que o vírus escolhe quem vai morrer ou não. Enquanto alguns podem encostar em uma pessoa contaminada e não acontecer nada, para outros pode ser mortal, como foi com a personagem Beatrice (Angela Bundalovic).

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Conforme os experimentos são feitos, a questão moral começa a ser debatida, principalmente pelos questionamentos de Simone, que sempre teve a intenção de proteger o irmão a todo custo. Porém, quando ela percebe que ele está se tornando um vilão, precisa agir de maneira mais drástica. Como se o vírus por si só não fosse uma coisa bizarra, logo a sua cura também é. Quem diria que esse vírus mortal seria curado por uma planta, não é mesmo? A partir da descoberta dessa flor que seria a cura do vírus, é preciso levar essa solução para Apollon e curar Rasmus, mesmo que não seja isso o que ele queira.

A tentativa de tornar Rasmus em um grande vilão não foi muito intensificada. Ao descobrir que Simone está planejando matá-lo, ele convoca um exército de pessoas para quem já passou o vírus e ir atrás dela para evitar que isso aconteça. Isso acontece com essa maravilhosa tecnologia que ainda funciona mais de seis anos depois do fim do mundo, com o rastreamento da irmã. A pose séria e certa de seus objetivos falha quando o encontro acontece, tanto Rasmus quanto com Simone amolecem, afinal eles têm somente um ao outro e foram vítimas dos pais. Tudo isso acaba com o rapaz sendo muito mais o herói da história toda em vez de vilão.

Imagem: Divulgação/Netflix

A série chega ao sem fim apelando ainda mais para a questão moral, que provavelmente sempre foi o intuito inicial da história, afinal são inimagináveis as coisas que um ser humano pode fazer com um poder nas mãos, até mesmo criar um mundo com pessoas como Rasmus. A flor, de fato, é a cura de tudo. É ela quem se alimenta do vírus e, quanto mais ela absorve, mais poderosa fica e enfraquece a pessoa a ponto de ela morrer, e isso infelizmente precisou ser o acontecimento que iria consertar tudo. A morte de Rasmus acabou sendo inevitável, pois foram vários episódios tentando descobrir uma maneira de curá-lo sem que sua vida fosse perdida.

Simone, sendo a verdadeira heroína da história, finalizou a série com um discurso que, surpreendentemente, é bem bonito e tocante, encerrando a trama com chave de ouro. Ela diz que Rasmus nunca quis ser o que era e que tudo o que queria era um propósito na vida e tinha muita vontade de sobreviver. Mas, infelizmente, graças ao seu sacrifício e a incapacidade de proteger o irmão mais novo para sempre, o que estava a cada vez mais claro que era impossível, ela pode começar a criar um mundo novo e cheio de esperança.

Imagem: Divulgação/Netflix

The Rain acaba sendo muito mais que uma série de ficção científica que aborda as aventuras de sobreviventes por um fim do mundo, mas sim uma trama que traz questionamentos morais em relação às ações provocadas pelo ser humano quando se deixam dominar pelo poder, e até em qual ponto temos controle sobre essas consequências, sendo preciso fazer sacrifícios para combater e começar de novo. A série teve a quantidade de temporadas necessárias para contar a sua história e moral, com episódios suficientes para que não tivessem que se perder no roteiro ou criar a famosa "enrolação". Vale a pena assistir para quem procura por uma série intensa, ao mesmo tempo em que é delicada ao abordar o assunto tão assustador.

As três temporadas de The Rain estão disponíveis na Netflix.

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