Crítica | The Old Guard depende muito da disposição do espectador

Por Sihan Felix | 09 de Julho de 2020 às 12h33
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Ao mesmo tempo, o cinema e a vida podem ter duas dimensões de percepção. Se no cinema existe a objetiva (que se refere à história) e a subjetiva (que está ligada em como essa história é contada), na vida não é muito diferente: existe a linha temporal da vida (aquilo que fazemos quando vivos) e há, também, o que somos em essência. É algo um tanto psicanalítico, mas, em síntese, é como o comentário que mais ecoa de Batman Begins (de Christopher Nolan, 2005): "Não é o que somos por dentro, mas o que fazemos que nos define".

The Old Guard (disponível na Netflix a partir de 10 de julho) tem, por essa perspectiva, duas camadas muito claras e ambas são, na prática, bem diferentes. Em uma primeira, há uma agonia explícita para que a história do filme seja transparente. Para isso, o roteirista Greg Rucka (que é coautor da graphic novel que dá origem) parece querer que seu trabalho seja objetivamente entendido a qualquer custo, tendo uma preocupação que, às vezes, pode soar um tanto quanto desmedida. Nesse sentido, existe uma exposição repetida que pode fazer com que o filme se arraste em alguns momentos: personagens que insistem nas mesmas colocações e a concentração talvez exagerada sobre a idade de Andy (Charlize Theron).

Andy (Theron), a líder. (Imagem: Netflix/Aimee Spinks)

Atenção! Esta crítica pode conter spoilers sobre o filme!

Respiros

E é no limite do suportável o quanto a composição para a trilha sonora da dupla Volker Bertelmann e Dustin O'Halloran (de Meu Amigo Enzo) procura dar validade aos momentos mais banais, quase sempre com uma junção de melodia e harmonia que pende para o melodrama. Por mais que essa abordagem possa, de repente, ser um respiro para as cenas de ação, estas são tão limpas e bem coreografadas – com a montagem de Terilyn A. Shropshire (de Miss Bala) investindo em poucos cortes em relação ao padrão mais comum do gênero – que respiros podem funcionar como cochilos, ainda mais quando o texto é repetitivo.

Ainda assim, The Old Guard consegue ser fluido graças à segunda camada, que é a direção de Gina Prince-Bythewood (de Nos Bastidores da Fama – filme de 2014). Diferente do recente Resgate (de Sam Hargrave, 2020), que mantém o foco na ação por mais que o pano de fundo seja dramático, a diretora prefere construir a sua mise-en-scène (o todo do filme) focada nos personagens por mais que o pano de fundo seja de ação. Dessa forma, há motivos suficientes para que as atitudes do grupo liderado por Andy não sejam carregadas de adrenalina, mas estejam sempre humanizadas.

O paralelo entre esses dois filmes, inclusive, pode ser realizado em como a direção de Prince-Bythewood e Hargrave linda com a cena de abertura: enquanto o filme em questão faz desse início uma flashforward do que aconteceria poucos minutos depois, esse mesmo elemento em Resgate revela um acontecimento na resolução do filme. Assim, a diretora de The Old Guard parece estruturar o filme de modo que ele tenha mais-valia a partir do fim da ação. O valor está em quem são aquelas pessoas que formam o time de imortais-ou-quase-isso, ao passo que Hargrave indica que a maior validade de Resgate está justamente na ação acontecida entre o flashforward e o ponto em que ele acontece na linha temporal de fato.

O foco está nos personagens. (Imagem: Netflix/Aimee Spinks)

A finitude

A longa vida de Andy, por mais que a torne empática para com situações sociopolíticas do mundo e a faça guiar o grupo nas resoluções, parece subtrair um tanto de sua empatia para com uma igual. Ela (Andy) não está, a princípio, exatamente disposta a acolher Nile (KiKi Layne) – talvez porque, intimamente, perceba que a chegada do novo pode significar a partida do velho.

A chegada do novo... (Imagem: Netflix/Aimee Spinks)

A ligação entre as duas pode ser evidente ao paralelizar-se as apresentações de ambas. Nile é anunciada praticamente do mesmo jeito: liderando uma missão, sendo morta e revivendo (pela primeira vez no caso). Na sequência, acaba por ser vista como uma aberração por quem, há pouco tempo, estava ao seu lado – algo muito próximo de Andy, que, em sua época, é tachada de bruxa. Em ambos os casos, não importa a vida, o que vale ali é, de repente, o valor dela: se há a capacidade de retornar dos mortos, a sua entrega (ainda mais em uma instituição como o exército) pode ser vista como menor ou até nula. De herói de guerra, morta em batalha, Nile passa a super-heroina, algo que é naturalmente desumano.

A junção entre o velho mundo e a novidade. (Imagem: Netflix/Aimee Spinks)

O que resta, no final das contas, é se utilizar daquilo que se é por dentro e usar a vida para que as atitudes definam quem somos. É, na prática, o arquétipo da Persona para o psiquiatra Carl Jung. Dessa maneira, The Old Guard pode se arrastar em alguns momentos, pode pender para o melodrama e ser expositivo, mas tem o coração no lugar certo. O eco de Batman Begins, se funcionar aqui, pode fazer o filme de Prince-Bythewood ser percebido como fraco ou até medíocre, mas, havendo disposição para entrar no coração do filme e ver por dentro de tudo, pode ser encontrado um trabalho bem acima da média.

Andy, Nile e os seus podem remeter até mesmo aos últimos versos do Soneto de Fidelidade, de Vinicius de Moraes:

Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Canaltech

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