Crítica | Sem Remorso e meio sem sentido também

Por Felipe Demartini | 28 de Abril de 2021 às 13h00
Divulgação/Amazon

Tom Clancy é um dos escritores mais consagrados da literatura de espionagem e militarismo, com dezenas de obras e um universo recorrente de personagens que saíram das páginas para ganhar as telas do cinema, os seriados de televisão e também os games. Rainbow Six Siege, inclusive, é hoje o legado mais forte do autor falecido em 2013, cuja obra segue ganhando novas versões e mantendo seu nome vivo como um grande expoente das histórias que misturam as Forças Armadas, as operações de inteligência e uma boa toque de espionagem.

Sem Remorso, a segunda empreitada original da Amazon na obra do escritor, tenta fazer um pouco disso tudo. O pôster relaciona o longa a Rainbow Six, mas sem citar se está falando do jogo ou do livro. Quem assiste e conhece um, o outro ou ambos, entretanto, vai ser que o longa estrelado por Michael B. Jordan passa um pouco longe da história das equipes táticas antiterrorismo e, também, da própria obra da Clancy, apesar de aproveitar alguns de seus conceitos e, mais do que tudo, o tom militarista e honrado da obra do autor.

Assim como o livro, o longa também é uma história de origem, mas há pouca relação entre um e outro. Na produção, que estreia neste final de semana no Amazon Prime Video, acompanhamos a vingança violenta do soldado John Kelly, que perde a esposa grávida em um ataque de militares russos que, também, estão agindo em nome da retaliação por uma missão na Síria, meses antes.

Esse jogo de toma lá, dá cá envolvendo tiros precisos, aparato militar e intriga internacional dá o tom da película desde o início, em meio a operações de alto nível de confidencialidade e precisão. Na medida em que Kelly se torna alguém com cada vez menos a perder e obcecado por se vingar, também cresce o nível de violência empregada por um soldado de carreira que viu seu mundo ruir e, agora, só sente sede de sangue.

Ao mesmo tempo, porém, tanto seus supostos aliados na CIA quanto o próprio militar sabem que ele ainda pode ser uma arma importante nos esforços bélicos contra os inimigos russos. Essa é uma das tantas inconstâncias de Sem Remorso, com um personagem que tenta soar tresloucado e que, às vezes, parece usar sua honra e dever para alcançar seus objetivos próprios, enquanto em outros momentos soa disposto a abandonar sua vingança em prol de um bem maior e o ideal americano que, como ele mesmo diz algumas vezes, o deixou na mão.

Guerra fria, requentada a fogo

Tragédia pessoal dá início a uma jornada de vingança para o protagonista de Sem Remorso, baseado livremente no livro de mesmo nome, lançado por Tom Clancy (Imagem: Divulgação/Amazon)

Falar desse vai e vem, aliás, é como definir o próprio roteiro do longa, que contém tantos furos que até parece ter sido alvejado pela metralhadora de Kelly. Alianças e desavenças entre personagens surgem e desaparecem do nada e a confiança do próprio protagonista varia de tempos em tempos, sem motivo aparente, enquanto temas que antes eram de suma importância desaparecem após meras linhas de diálogo. Isso sem contar, claro, o velho e manjado momento de clarividência, em que os personagens descobrem toda uma trama a partir de elementos desconexos — e devem, claro, explicar isso para o espectador, afinal de contas o próprio filme não está amarrando esses aspectos direito.

Temos, também, uma trama baseada em conveniências, que tenta emular a ideia de que o soldado é essencial para os esforços de guerra, mas ao mesmo tempo, mostra uma rede de inteligência que impõe resistência à presença de alguém que não tem nada a perder nem está com a cabeça no devido lugar. Ambos os elementos são lançados a bel prazer, sempre que o roteiro precisa deles, enquanto outros aspectos se aproveitam deles apenas para criar um clima de tensão vazio.

Este é o caso, por exemplo, de uma cena interessante na prisão, na qual Kelly encara sozinho e desarmado um grupo de soldados de choque, ou de um momento suicida e honrado, mais para o final da produção, que não vamos entrar em detalhes para não entregar spoilers. Em ambos, as cenas impressionam por serem inusitadas e mostrarem o preparo e atitude do personagem, mas, ao mesmo tempo, são seguidas por viradas em 180 graus que esvaziam os momentos e os transformam em caricaturas.

Alianças, lealdades e até pontos importantes da história de Sem Remorso vêm e vão, de acordo com o que o roteiro precisa a cada momento (Imagem: Divulgação/Amazon)

Algumas referências e sacadas do argumento chegam a soar cômicas para quem conhece a obra original de Clancy, publicada em 1993. Ali, temos a origem de um dos personagens mais icônicos da literatura do escritor, e no longa também, assim como a intenção de o tornar um personagem recorrente. O momento da gênese, entretanto, provoca risos, e não a sensação de empolgação que um gancho desse tipo deveria gerar em quem conhece o trabalho.

Alterações modernizantes, claro, são realizadas, com a Guerra do Vietnã das páginas sendo substituída pela guerra na Síria, enquanto o retorno das tensões entre Estados Unidos e Rússia permitem que esse continue sendo o pano de fundo. Entretanto, aqui, há quase nada da trama envolvendo drogas, gangsteres e crimes bem urbanos, que acabam se tornando o mote da tragédia sofrida por Kelly e, no final das contas, se transformam no vetor para a intriga internacional.

Temos, sim, uma perda terrível que acontece logo no início do longa, com a boa atuação de Jordan demonstrando de forma clara como uma tristeza profunda pode se transformar em ódio gigantesco para alguém treinado, que estava prestes a largar o serviço para se dedicar à família. O trabalho convence, ainda que o roteiro faça todo o possível para tornar o tecido dessa vingança altamente volátil e frágil.

Sem Remorso mantém o foco no militarismo da obra de Tom Clancy, mas deixa de lado a maioria dos aspectos da obra original em prol de modernização e, principalmente, uma simplificação que não deu muito certo (Imagem: Divulgação/Amazon)

Ao mesmo tempo, outros clichês de fábulas militaristas rasas também aparecem aqui, como o oficial de alto escalão tão escorregadio quanto o gel que usa no cabelo, interpretado por um Guy Pearce que parecia não querer estar ali, ou a mudança de atitude de um oficial que apenas cumpria ordens e também vê sua lealdade questionada. O agente Robert Ritter (Jamie Bell) é uma figura essencial na trama, mas tão inexpressiva que sua influência, muitas vezes, nem parece ser sentida, mas sim, que os eventos do enredo estão simplesmente acontecendo diante dos nossos olhos.

Sem Remorso acaba chamando mais a atenção pelas grandes e intensas cenas de ação, viscerais e realistas como manda o figurino da obra de Clancy, do que pelo seu enredo que tenta ter viradas e plot twists, misturando guerra e espionagem. Jordan carrega o longa nas costas, mas mesmo toda a força e habilidade de seu personagem é pouca para sustentar um argumento que não faz a menor questão de ser coerente e profundo.

Sem Remorso é uma produção original da Amazon que estreia em 30 de abril no Prime Video. O longa é dirigido por Stefano Sollima (Sicário: Dia do Soldado) e, além de Michael B. Jordan (Pantera Negra), tem Jodie Turner-Smith (Jett), Jamie Bell (Rocketman), Guy Pearce (Amnésia) e Lauren London (Eu Te Amo, Beth Cooper) no elenco.

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