Crítica Resident Evil │ Fã não quer service, mas um filme bom

Crítica Resident Evil │ Fã não quer service, mas um filme bom

Por Durval Ramos | Editado por Jones Oliveira | 03 de Dezembro de 2021 às 18h30
Divulgação/Sony Pictures

O fã de Resident Evil passou anos acreditando que os filmes eram ruins porque não se importavam em ser fiéis à história dos jogos, seguindo por rumos cada vez mais absurdos. Por isso, sonhava com um reboot que apresentasse a história que marcou os videogames de forma respeitosa ao material original. Só que Bem-Vindo a Raccoon City está aí para mostrar que só fidelidade aos videogames também não resolve muita coisa e consegue ser tão ruim quanto.

Só que o novo filme da Sony é ruim de um jeito diferente. Enquanto a série protagonizada por Milla Jovovich era ofensiva por ignorar completamente a mitologia dos games para contar uma história que não era nem de perto interessante, Bem-Vindo a Raccoon City é um tipo de ruindade que só deixa triste. Isso porque você percebe o quanto ele quer que esse recomeço funcione e vê todo o esforço para recriar a experiência do que é um Resident Evil. É algo tão cuidadoso que parece coisa de fã — e é aí que está o grande problema.

Apesar de toda a paixão que o fã tem pela franquia, só esse amor não sustenta um filme e tampouco faz um cinema minimamente bom. O inferno está tão cheio de boas intenções quanto Hollywood está de projetos que falharam ao tentar agradar a um público específico com referências e afagos, mas sem o mínimo necessário para que o filme funcione isoladamente.

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E é nisso que o novo Resident Evil tropeça. A máxima recente de “eu sou fã e quero service” é muito mais uma maldição do que um elogio ao entusiasmo. E, levando em conta o tamanho do mal que essa lógica causou a Bem-Vindo a Raccoon City, é melhor que essa praga seja contida o quanto antes.

Um caminhão desgovernado de referências

Como dito, Resident Evil: Bem-Vindo a Raccoon City é um filme que parece ter sido feito por fãs , tamanho o cuidado com a construção de seu universo de modo que tudo pareça ter sido realmente tirado do videogame. É nesse contexto que vemos a história dos irmãos Chris e Claire Redfield, de Leon Kennedy, Jill Valentine e outros personagens bastante conhecidos dos jogos em sua luta para sobreviver aos problemas causados pela Umbrella.

Nesse sentido, não há do que reclamar do longa, pois ele leva quase que de forma literal a história dos games para as telonas. O problema é que o que deveria ser o seu grande trunfo se torna uma enorme dor de cabeça, porque esse caminhão de referência é jogado a cada minuto sem se importar com a história que está sendo contada.

Bem-Vindo a Raccoon City é tão cheio de referência que tem até o sanduíche da Jill (Imagem: Divulgação/Sony Pictures)

A impressão que fica é que a produção de Bem-Vindo a Raccoon City fez algum tipo de enquete com os fãs para saber que momentos dos jogos eles gostariam de ver em uma adaptação e, com a resposta em mãos, simplesmente colocaram todas no roteiro. Algumas coisas funcionam, é verdade, mas outras estão ali só para cumprir tabela e alimentar conteúdo de YouTubers caçadores de easter eggs posteriormente.

Exemplo disso é a frase “Itchy, Tasty”, que aparece em um dos arquivos encontrados no primeiro jogo e que se tornou quase uma piada interna entre os fãs dos games. É engraçadinha e icônica, mas ela não tem a menor necessidade de estar no filme e muito menos da forma surreal que foi aplicada: com uma pessoa infectada pelo T-Vírus escrevendo em sangue em uma porta antes de partir para cima da protagonista.

Esse é apenas um dos diversos casos de situações retiradas dos jogos que são colocadas em tela sem contexto ou sem se encaixar na história que está sendo contada. E isso fica ainda mais grave quando deixa de ser apenas uma menção para ser parte da trama que não leva a lugar nenhum, como acontece com a personagem Lisa Trevor.

Lisa Trevor é uma boa referência aos jogos, mas que não tinha a menor necessidade de estar no filme (Imagem: Divulgação/Sony Pictures)

Nos jogos, a menina é alvo de vários experimentos da Umbrella e se torna uma pessoa deformada que o jogador encontra em determinado ponto da história. Só que, em Bem-Vindo a Raccoon City, essa trama fica solta e sem propósito. A gente sabe que a empresa fazia experimentos assim, mas não há nada que justifique a existência de Lisa além de ser um deus ex machina no fim e render uma desnecessária rinha de monstro.

O ponto é que a história geral de Resident Evil não deveria ser complicada: um grupo de policiais vai atender uma ocorrência em uma mansão e se depara com zumbis. Assim, à medida que tentam sobreviver, eles descobrem os horrores que a Umbrella cometia não só ali, mas em toda a cidade. No entanto, o filme sofre demais por tentar contar a história de dois jogos ao mesmo tempo, mas sem saber ao certo como fazer isso. No fim, acaba não contando história nenhuma, preferindo apenas jogar referências e nomes para agradar aos fãs.

Leon não só é muito ruim como está completamente perdido no roteiro (Imagem: Divulgação/Sony Pictures)

Bem-Vindo a Raccoon City é um filme inchado e o caso de Lisa Trevor exemplifica isso tão bem quanto o próprio Leon Kennedy. O personagem é o protagonista do segundo jogo e um dos mais queridos do público nos videogames, mas ele está completamente perdido no roteiro. Ele não é o centro da trama e tampouco os olhos do público nessa cidade, se limitando a ser, no máximo, um alívio cômico bem fuleiro.

Um grande filme B

Resident Evil: Bem-Vindo a Raccoon City parece um filme feito por fãs não apenas trazer todas as referências possíveis e inimagináveis aos jogos, mas por carregar o mesmo nível de qualidade amadora de muitos desses projetos caseiros. Como dito, uma boa adaptação não precisa apenas saber lidar com o material original, mas fazer um bom cinema para começo de conversa.

Nesse sentido, o longa é ruim de dar pena. Como se não bastasse o roteiro não colaborar em nada, as atuações são de medianas para baixo. O Chris vivido pelo ator Robbie Amell — primo de Stephen Amell, de Arrow — até lembra a versão dos games, mas ele não consegue entregar nada muito além do dramalhão barato com sua irmã, Claire.

A caracterização do Chris está muito boa, mas o ator é bem fraquinho e não vai muito além disso (Imagem: Divulgação/Sony Pictures)

Aliás, a personagem vivida por Kaya Scodelario (Maze Runner) é a grande protagonista do filme, mas é sofrível acompanhar suas caras e bocas. Ela tenta trazer essa carga dramática para a trama, ligando o seu passado com as atividades ilícitas da Umbrella, mas ela não consegue ir muito além da canastrice e das frases de efeito. Dá até saudade de quando os personagens não falavam nos videogames.

E falando em personagem canastrão, o William Birkin de Neal McDonough lembra muito os vilões clássicos de filmes de jogos dos anos 1990, com direito a discurso de bandido no final, mesmo que isso não faça o menor sentido para a história. Ele aparece pouco no roteiro, muito mais como o cientista que quer fugir com a família. Contudo, ao ser encurralado e se contaminar para sobreviver, ele decide entrar no modo vilão infantil e discursar sem propósito só para demarcar como ele é alguém ruim — como se o fato de ele ter virado um monstro gigante não fosse o suficiente.

O grande momento de revelação não revela nada (Imagem: Divulgação/Sony Pictures)

A melhor coisa do filme é a dinâmica entre Albert Wesker (Tom Hopper) e Jill Valentine (Hannah John-Kamen), que conseguem entregar diálogos divertidos e ter um mínimo de carisma para que você se importe com eles. Não é nada excepcional, mas o suficiente para você não ficar torcendo pelos zumbis.

E todas essas atuações mequetrefes dão a Bem-Vindo a Raccoon City um clima de filme B enorme, que se torna ainda mais aparente na própria cinematografia. São imagens granuladas que parecem ter sido feitas em um celular ou cenas em que vai sendo dado um zoom sem propósito nos personagens e que só deixa as coisas ainda mais canastronas. E, levando em conta que o diretor Johannes Roberts tem duas décadas de experiência com esse tipo de cinema mais trash, não dá para dizer que isso não era esperado.

Vergonha alheia

Para quem achava que os filmes de Paul W. S. Anderson eram ruins porque não eram fiéis aos videogames, Bem-Vindo a Raccoon City vem para mostrar que o problema nas adaptações da Sony é bem mais complexo do que isso. Você pode inundar a tela de referências, menções e visuais que remetam aos jogos, mas nada disso vai adiantar se não houver um comprometimento básico de fazer um filme bom.

Filme vai do "que referência legal' ao "por favor, parem com isso e só contem uma história" (Imagem: Divulgação/Sony Pictures)

E, sinceramente, isso não é difícil. Mais do que “Itchy, tasty”, “sanduíche da Jill” ou cosplayers correndo por cenários idênticos aos games, uma adaptação precisa pegar a história dos jogos e fazer aquilo funcionar em duas horas. Um roteiro de cinema é um quebra cabeça em que todas as peças têm que estar conectadas e que conduzam o espectador por uma trama que faça sentido e que tenha começo, meio e fim.

O novo Resident Evil, porém, se preocupa tanto em ser fiel àquilo que ele acha que o público quer ver que se esquece do básico. Ele parece aquele fã mais entusiasmado que começa a falar sobre todos os nuances, detalhes e reviravoltas da série, mas que se esquece de dizer qual o cerne central da coisa toda. Ao tentar inserir todas essas menções aos games, ele se esquece de que, acima de tudo, foi a história e o desenvolvimento de seus personagens que conquistaram o público durante todo esse tempo — e não tem easter egg que consiga substituir isso.

Resident Evil: Bem-Vindo a Raccoon City está em cartaz nos cinemas de todo o Brasil; os ingressos já estão à venda — garanta o seu na Ingresso.com.

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