Crítica | Em O Chamado da Floresta, é o cachorro quem adestra o dono
Por Laísa Trojaike |

Como fazer um filme sobre uma história de humanidade e respeito que evoca o que há de melhor na natureza selvagem sem contradizer a si próprio no processo de produção? O Chamado da Floresta pode não ser um grande filme, longe de absolutamente memorável como merece o livro de Jack London, mas é um passo digno de nota na história do uso de animais em produções cinematográficas.
Para além da técnica, O Chamado da Floresta chega em um tempo no qual um discurso sobre si mesmo, o outro e a relação eu-outro é absolutamente necessário, apesar dos clichês (que não eram tão clichês em 1903, quando o livro foi publicado). É interessante notar também como o filme teria sido uma animação incrível nas mãos de Chris Sanders, diretor de Lilo & Stitch (2002), Como Treinar o Seu Dragão (2010) e Os Croods (2013). Infelizmente para a animação, felizmente para os filmes de cachorro, Sanders entrega uma obra sincera como o próprio cão Buck.
Atenção! A partir daqui, a crítica pode conter spoilers.
O não-anacronismo de Jack London
O livro O Chamado da Floresta, embora seja fruto do seu tempo, não está restrito a ele. São obras como as de London que nos permitem ver o que mudou ao longo das décadas e, quando uma adaptação como essa cai nas mãos de um roteirista como Michael Green, de Blade Runner 2049 (2017) e Logan (2017), é inocência pensar que se trata de mais um filme de cachorro, em que o pet vive uma aventura em prol do “dono”.
Com o intuito de não sobrecarregar cães e evitar toda sorte de crueldades que pode envolver o trabalho de um cão ator, a decisão por fazer um filme híbrido (live-action e animação) deve estar acima do reconhecimento de que claramente os cachorros não enganam como animais reais em O Chamado da Floresta. Existem trabalhos melhores de animação, como Mogli: O Menino Lobo (2016) ou o imensamente comentado tigre de As Aventuras de Pi (2012), mas aqui temos uma produção menor, portanto com menos recursos.
O que vem ao caso, no entanto, é o trabalho de atores como Terry Notary, que interpreta Buck. Serkis mostrou, com personagens como Gollum e Caesar, que mesmo a animação ficando obsoleta com o tempo, há algo de atemporal ali: a atuação por trás da captura de movimentos. É notável como o CGI evoluiu desde Planeta dos Macacos: A Origem (2011), mas a atuação de Serkis continua tão boa quanto era na data de lançamento do filme.
A atuação de Notary como Buck é significativa em muitos níveis: não somente o ator ocupa no set o lugar onde vemos o cachorro no filme finalizado, como interage com os demais atores, colaborando para que a sequência como um todo funcione de forma mais orgânica. Além disso, vale a pena buscar pelas imagens de bastidores para ver como um homem adulto foi capaz de interpretar um cachorro... e não somente facialmente.
O Chamado da Floresta é um excelente filme família, que traz de forma leve discussões que vemos em histórias que, em sua maioria, as crianças ainda não estão prontas para ver. Social e tecnicamente, O Caminho da Floresta consegue deixar uma marca histórica que pode não ser duradoura, mas com certeza é necessária.
*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Canaltech