Crítica | Em O Chamado da Floresta, é o cachorro quem adestra o dono

Por Laísa Trojaike | 23 de Maio de 2020 às 15h00
Walt Disney Studios Motion Pictures

Como fazer um filme sobre uma história de humanidade e respeito que evoca o que há de melhor na natureza selvagem sem contradizer a si próprio no processo de produção? O Chamado da Floresta pode não ser um grande filme, longe de absolutamente memorável como merece o livro de Jack London, mas é um passo digno de nota na história do uso de animais em produções cinematográficas.

Para além da técnica, O Chamado da Floresta chega em um tempo no qual um discurso sobre si mesmo, o outro e a relação eu-outro é absolutamente necessário, apesar dos clichês (que não eram tão clichês em 1903, quando o livro foi publicado). É interessante notar também como o filme teria sido uma animação incrível nas mãos de Chris Sanders, diretor de Lilo & Stitch (2002), Como Treinar o Seu Dragão (2010) e Os Croods (2013). Infelizmente para a animação, felizmente para os filmes de cachorro, Sanders entrega uma obra sincera como o próprio cão Buck.

Atenção! A partir daqui, a crítica pode conter spoilers.

O não-anacronismo de Jack London

O livro O Chamado da Floresta, embora seja fruto do seu tempo, não está restrito a ele. São obras como as de London que nos permitem ver o que mudou ao longo das décadas e, quando uma adaptação como essa cai nas mãos de um roteirista como Michael Green, de Blade Runner 2049 (2017) e Logan (2017), é inocência pensar que se trata de mais um filme de cachorro, em que o pet vive uma aventura em prol do “dono”.

Green garante a’O Chamado da Floresta uma essência questionadora. Ainda que haja uma narração capaz de nos ajudar a compreender o que Buck está sentindo, a falta de respostas por parte do cachorro deixa os questionamentos humanos abertos para reflexão, sobretudo durante o período de convívio dele com John Thornton (Harrison Ford). Os personagens cães são humanamente expressivos, mas mesmo isso não é suficiente para preencher as lacunas filosóficas, o que é uma excelente demonstração de que diretor e roteirista não subestimam o senso crítico de seus espectadores.

Imagem: Walt Disney Studios Motion Pictures

Há o tema mais óbvio, de que empatia e solidariedade são mais importantes que poder e dinheiro, mas é ainda mais frutífero o discurso sobre quem somos. Se os cães são algo como lobos domesticados, isso nos serve de espelho para pensarmos em nós mesmos como primatas domesticados. O título original (The Call of the Wild), que evoca os vários sentidos de Wild (Selvagem), nos convida a pensar não somente no dualismo dos cães, entendidos ao mesmo tempo como domésticos e selvagens, mas em refletir sobre o chamado que habita em nós humanos.

Com isso em mente, o retorno de Buck à floresta, liderando uma matilha que, como diz a narração, é mais inteligente que lobos e homens, só me fez pensar nessa fantasia como o princípio de uma distopia canina aos moldes de Planeta dos Macacos, que, não a toa, traz a mesma reflexão, sobre civilização e selvageria, de uma forma muito menos família. Buck é Caesar para crianças… e não há nada de errado nisso.

Imagem: Walt Disney Studios Motion Pictures

Um grande passo

A captura de movimentos tem elevado o cinema a outro patamar. Filmes como O Chamado da Floresta são tecnicamente datados, mas, assim como o trabalho do animador Ray Harryhausen, são necessários e um passo na evolução dos efeitos visuais. Assim como Harryhausen é pouco conhecido pelo grande público, também são os atores que acabam transformados em animações, como Andy Serkis, que possui uma lista extensa de personagens icônicos, sem ter concorrido ao Oscar de atuação uma vez sequer (não que o Oscar determine alguma coisa, mas cito apenas como um exemplo da falta de reconhecimento).

Com o intuito de não sobrecarregar cães e evitar toda sorte de crueldades que pode envolver o trabalho de um cão ator, a decisão por fazer um filme híbrido (live-action e animação) deve estar acima do reconhecimento de que claramente os cachorros não enganam como animais reais em O Chamado da Floresta. Existem trabalhos melhores de animação, como Mogli: O Menino Lobo (2016) ou o imensamente comentado tigre de As Aventuras de Pi (2012), mas aqui temos uma produção menor, portanto com menos recursos.

Imagem: Walt Disney Studios Motion Pictures

O que vem ao caso, no entanto, é o trabalho de atores como Terry Notary, que interpreta Buck. Serkis mostrou, com personagens como Gollum e Caesar, que mesmo a animação ficando obsoleta com o tempo, há algo de atemporal ali: a atuação por trás da captura de movimentos. É notável como o CGI evoluiu desde Planeta dos Macacos: A Origem (2011), mas a atuação de Serkis continua tão boa quanto era na data de lançamento do filme.

A atuação de Notary como Buck é significativa em muitos níveis: não somente o ator ocupa no set o lugar onde vemos o cachorro no filme finalizado, como interage com os demais atores, colaborando para que a sequência como um todo funcione de forma mais orgânica. Além disso, vale a pena buscar pelas imagens de bastidores para ver como um homem adulto foi capaz de interpretar um cachorro... e não somente facialmente.

O Chamado da Floresta é um excelente filme família, que traz de forma leve discussões que vemos em histórias que, em sua maioria, as crianças ainda não estão prontas para ver. Social e tecnicamente, O Caminho da Floresta consegue deixar uma marca histórica que pode não ser duradoura, mas com certeza é necessária.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Canaltech

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