Crítica | Gente Grande diverte se muito puder ser relevado

Por Sihan Felix | 18 de Junho de 2020 às 09h39
Sony Pictures

Adam Sandler é quase sempre um nome que, em se falando da crítica, acaba por não ser exatamente aclamado. Por outro lado, há bastante tempo vejo o tipo de comédia de Sandler como positivamente ingênua – no que diz respeito ao conteúdo – e isso, normalmente, pode me fazer rir e relevar grosserias, estas que não parecem propositais e são frutos justamente da boa ingenuidade cômica do ator. Seu stand-up comedy Adam Sandler: 100% Fresh (disponível na Netflix), por exemplo, é dos trabalhos mais espontâneos de sua carreira, sendo ao mesmo tempo sincero, divertido e infantil.

Gente Grande (que, recentemente, estava entre os mais vistos no catálogo da Netflix) carrega exatamente esses traços do ator – elementos que parecem construir o seu carisma – especialmente por ter seu dedo no roteiro. Nesse sentido, o trabalho dele enquanto roteirista é sempre bem formulaico: o personagem central geralmente tem um pano de fundo do passado que guia a sua personalidade e lhe mostra, por mais que tenha crescido e aparentemente amadurecido, o quanto a vida adulta é supervalorizada.

Atenção! Esta crítica contém spoilers sobre o filme!

Arrependimentos

No caso do filme em questão, as informações do passado são tratadas da maneira mais direta possível, com a abertura mostrando Lenny (Michael Cavaleri quando criança e Sandler na idade adulta) e seus amigos na final de um campeonato de basquete escolar – ao mesmo tempo em que as crianças aparecem individualmente, os nomes dos atores adultos vão sendo mostrados, já ligando-os em definitivo. A turma, que sai campeã do torneio, ainda tem todo o carinho do treinador (Blake Clark), que lhes dá o conselho de viver como jogaram aquela partida para que, ao soar a campainha final, não tenham arrependimentos.

O pequeno Chris Rock. (Imagem: Captura de tela/Sihan Felix)

Em pouco mais de três minutos, a base de Gente Grande está feita e, pulando para 30 anos depois, inicia-se o processo de antagonismo: da comemoração da equipe sorridente e seus familiares ouvindo as palavras do técnico para a mansão onde os filhos de Lenny (interpretados por Jake Goldberg e Cameron Boyce) jogam sozinhos um game no qual o objetivo é “serrar a cabeça das pessoas” e “afogá-las” – de acordo com os próprios. Esse salto temporal, inclusive, dá-se com uma transição cruzada do montador Tom Costain (de Mistério no Mediterrâneo), que liga ambas as realidades e acentua as diferenças entre elas.

A boa transição cruzada de Costain. (Imagem: Captura de tela/Sihan Felix)

Limites

Pouco a pouco, porém, a direção de Dennis Dugan (de Zohan: O Agente Bom de Corte – de 2008) começa a abraçar algumas facilidades típicas de uma comédia sem pretensões narrativas e com muita pretensão pública. Por essa perspectiva, cada piada é exposta como se fosse a mais engraçada até o momento e prolongada até começar a perder a graça, algo que pode começar a ficar sem força muito rápido e parte do efeito ser o contrário, com uma porcentagem dos espectadores podendo desviar o interesse em alguns momentos. Vez ou outra, ainda, o diretor parece não compreender o poder das imagens, compondo piadas como se tirasse um T-rex da cartola – como quando Kurt (Chris Rock) prontamente (e forçadamente) tira cinco dólares do paletó para pagar uma aposta feita com Lenny durante o funeral do treinador.

A risada forçada de Rock pode ser perceptível. (Imagem: Captura de tela/Sihan Felix)

A boa criancice de Sandler, pouco a pouco, pode ser abafada por Dugan. Assim sendo, é possível que os textos do ator precisem de uma direção que procure construir algo, que tenha uma visão sobre o material escrito e que não se deixe levar com tanta facilidade. Ou melhor: que compreenda que, às vezes, o poder de uma piada está na sutileza dela e não na exposição descontrolada.

Esse descontrole, aliás, demonstra uma falta de pulso que chega a ser grosseira em algumas cenas. Em uma delas, se o plano dos amigos era ficar, em uma espécie de revezamento de cabeça, observando uma das filhas de Rob (Rob Schneider) enquanto ela tenta consertar seu carro – algo bobo que, de algum modo, poderia construir alguma ponte com a infantilidade deles –, Dugan parece ir contra qualquer ingenuidade e quase transformar (ou transformando de fato) a brincadeira em algo vulgar. E é sintomático que algo parecido aconteça entre suas mulheres e um salva-vidas de parque aquático e o resultado não ultrapasse limites.

O revezamento de cabeça. (Imagem: Captura de tela/Sihan Felix)

Lições

Gente Grande pode ser engraçado e pode divertir. O problema é que, ao separar as duas ambições (a narrativa e a pública), o diretor parece menosprezar o material que tem em mãos e a inteligência do público, além de reduzir a capacidade do próprio trabalho. Esse tipo de direção, inclusive, que não propõe qualquer olhar sobre o texto, parece ter medo de se expor, sendo, aqui, incapaz de fazer um filme protagonizado por Adam Sandler ter uma abrangência maior do que tem. Por esse lado, talvez fique fácil perceber o motivo de as mais bem avaliadas comédias protagonizadas pelo ator não serem dirigidas por Dugan.

Mesmo assim, existem lições que, como em todas essas comédias, são bem-vindas. Seja em como as crianças crescem, seja na importância da amizade daqueles que estiveram presentes durante o nosso período de formação, ou na tentativa de expor o quanto pode ser saudável uma vida mais próxima à natureza em detrimento de uma vida estritamente urbana e solitária, existe, na base de Gente Grande, uma leitura de boa ingenuidade que pode ser sincera, divertida e infantil. Mas, talvez, somente se as pretensões enviesadas e a incompetência da direção puderem ser relevadas.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Canaltech

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