Crítica | First Cow é um road movie estático e dolorido

Por Sihan Felix | 28 de Julho de 2020 às 10h16
A24

Um road movie é caracterizado, normalmente, por personagens que saem em viagem e, durante esse deslocamento, modificam a perspectiva dos seus cotidianos. As novidades do mundo agem sobre eles enquanto vão sendo descobertas. First Cow, nesse sentido, não é um filme de estrada (trazendo para o português), mas parece carregar, em sua essência, essa identidade.

De algum modo, não é uma escolha velada. Desde a primeira cena, com um enorme navio passando ao seu ritmo, existe a repetição de idas e vindas. Este movimento é potencializado pela ideia estética da direção, que diminui a distância entre as bordas laterais ao utilizar a proporção de tela 4:3, como também pensou Robert Eggers para o recente O Farol (de 2019 e igualmente produzido pela A25). Encurtando a distância a ser percorrida de um lado ao outro, a diretora Kelly Reichardt (de Certas Mulheres – filme de 2016) cria um simbolismo que sintetiza o filme de forma absoluta.

Cuidado! A partir daqui o texto pode conter spoilers.

Os caminhos

Ao mesmo tempo em que os protagonistas Cookie (John Magaro) e King-Lu (Orion Lee) têm um passado e falam deste entre si e, vez ou outra, para quem passa pelos seus caminhos, eles demonstram estar em uma intensa busca por futuro: planejam, animam-se com as possibilidades… Mas o roteiro da própria diretora e de Jonathan Raymond (autor do livro no qual First Cow é baseado) parece segurar as personagens de Magaro e Lee, impedindo-as de uma evolução significativa.

Cookie e King-Lu. (Imagem: A24)

Em meio a essa estagnação, existe o sonho acordado de que tudo parece estar se encaminhando. Por esse ponto de vista, a química de amizade desenvolvida entre os dois é tão forte que acaba por ser a própria evolução. A partir disso, alcançar os objetivos desejados parece ser questão de tempo.

O tempo, então, é fulminante a partir da visão de Reichardt. Se, por meio do aspect ratio 4:3, ela encurta as distâncias a serem percorridas tanto por Cookie e King-Lu quanto pelos coadjuvantes e figurantes que cruzam a tela, simultaneamente a diretora cria uma metáfora estética que é socialmente devastadora: somente os mais favorecidos como o Chefe Factor (Toby Jones) não caminham de um lado ao outro da imagem; eles surgem já em suas marcações por meio da montagem da própria Reichardt ou se movem em outras duas direções: à profundidade de campo ou da profundidade para o primeiro plano.

Esse deslocamento, que ganha força pela imagem menos horizontal do que de costume, cria uma metáfora visual que, mesmo pessimista, pode ser bem real: a de que, por mais que os mais pobres tentem uma ascensão social, eles vão passar a maior parte do tempo indo de um lado para o outro, sem sair exatamente do lugar – mas, pelo menos, podem estar munidos da amizade. É um companheirismo que parece lapidado pela necessidade.

Flertes

Ao contrário, os poderosos, movidos por interesses mais supérfluos, podem transitar em muitos níveis, mas dificilmente possuem uma amizade como a desenvolvida pelos protagonistas – algo que é exposto com a tentativa do solitário Chefe Factor de impressionar o Capitão (Scott Shepherd) com um cafloutis de mirtilo. Nessa investida, além de optar por não mostrar o Capitão experimentando a receita de Cookie (ele somente vê – a vida das aparências), a diretora demonstra o interesse da personagem de Jones em impressionar futilmente, servindo, inclusive, creme no chá do suposto amigo e, rapidamente, largando tudo ali – sem um único gole – para mostrar a vaca que adquiriu.

Chefe Factor e o Capitão. (Imagem: A24)

Além disso, Reichardt parece ter sempre controle total sobre os seus planos, demonstrando um formalismo pensado para flertar tanto com o drama da dupla quanto com o terror de buscar o que se quer sem que existam oportunidades verdadeiras (ou legais) para isso. Nesse caso, Cookie e King-Lu são expostos, finalmente, caminhando em direção à profundidade de campo e não lateralmente. Um exemplo desse processo é quando, para ordenhar a simpática vaca, a personagem de Magaro precisa ir em direção à casa do Chefe Factor, que é mostrada em último plano e no topo da imagem.

Enquanto a ordenha feita por Cookie não é uma intromissão lateral, pode ser entendida a sua verticalidade com relação à proporção da tela, visto que, caso decidisse subir, o talentoso cozinheiro chegaria ao rico aposento de Factor. O flerte da diretora com o terror, porém, vai além das questões sociais. Sua montagem cria tensão ao investir em um tempo de corte mais longo, fazendo com que, ao deixar que o espectador permaneça assistindo a algo aparentemente banal, surja a sensação de que algo muito grave está para acontecer.

Algo muito grave aconteceu... (Imagem: A24)

Regra ou exceção?

Em meio a tudo, Reichardt não deixa de inserir elementos de referência – e uma de suas incursões mais significativas é a adaptação de planos do clássico Cidadão Kane (de Orson Welles, 1941). Em um destes, por exemplo, Cookie trabalha em primeiro plano enquanto King-Lu é mostrado em último plano através da janela de sua casa. Felizmente, a homenagem ao filme de Welles vai muito além do visual, visto que King-Lu é uma espécie de empresário de Cookie, o que o liga a Charles Foster Kane ao mesmo tempo que os separa duramente no que diz respeito, novamente, a oportunidades.

Ainda criança, o futuro empresário Charles Foster Kane através da janela em Cidadão Kane. (Imagem: Mercury Productions)

No final das contas, First Cow é um road movie que não sai do lugar. Mas isso é, para além das questões técnicas, a realidade mais dolorosa de quem busca uma ascensão social contra um mundo que prioriza o respeito à riqueza material e à futilidade em detrimento das relações mais sinceras – sendo a amizade a mais expressiva. Essa dualidade, ainda, está presente até mesmo na trilha sonora de William Tyler (seu primeiro trabalho para o cinema), que brinca com uma sonoridade inocente e delicada, mesclando elementos ocidentais com instrumentos orientais, e que pode parecer, às vezes, nem fazer parte do universo do filme.

O que é, novamente, doloroso, visto que, construindo a sensação de que a inocência e a delicadeza estão presentes, Tyler cria a noção de que tudo ficará bem – exatamente o que faz os amigos descansarem e, assim, descortinarem o início de tudo. Se, a esse ponto, o princípio de First Cow surge como um flashfoward, Reichardt, dirigindo e montando, é de um pessimismo que precisa ser encarado: ela revela o quanto a luta da maioria é em vão dentro de um sistema econômico doente que vê os vencedores que vêm de baixo como regra e não como exceção.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Canaltech

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