Crítica | Emily em Paris não economiza no estereótipo e acerta apenas no visual

Por Natalie Rosa | 06 de Outubro de 2020 às 19h00
Divulgação: Netflix
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Não precisa ser uma pessoa viajada para saber que Paris, na França, possui um dos cenários mais bonitos da Europa. Suas belas construções, monumentos, parques, restaurantes com mesas nas calçadas e delicadas confeitarias são apenas alguns dos pontos visualmente fortes da cidade, sendo um ambiente ideal para a gravação de séries e filmes.

Foi o que aconteceu com a série da Netflix Emily em Paris que, como o próprio nome diz, conta a história de uma pessoa chamada Emily que viaja para a capital da França. A produção, que conta com Lily Collins no protagonismo, não economiza na fotografia perfeita e na escolha dos melhores cenários da cidade, sendo um grande atrativo visual. Porém, os pontos positivos da série param por aí.

Atenção: esta crítica contém spoilers de Emily em Paris

Imagem: Divulgação/Netflix

Criada por Darren Star, a mesma pessoa que criou Sex and the City, clássico dos anos 1990/2000, as expectativas para Emily em Paris foram altas desde a divulgação do trailer. Então, fãs do quarteto Carrie, Miranda, Charlotte e Samantha logo começaram a comparar as duas produções, esperando ver uma protagonista de muita atitude, sem tabus quanto à sexualidade, focada na carreira e que é uma amante da moda. Bom, Emily é tudo isso, mas a inclusão desses elementos em sua personalidade a transformou em uma pessoa que beira o insuportável.

Emily é norte-americana, da cidade de Chicago, algo que ela adora mencionar a todo momento, e recebe a oportunidade de trabalhar em Paris para substituir a sua chefe, que precisou cancelar a viagem de um ano por estar grávida. Logo, a jovem não hesitou em aceitar o convite e embarca de mala e cuia para a França com tanta ambição que nem se preocupa em saber o idioma, já que vai trabalhar em um escritório cheio de... franceses. Ela também abandona o namorado, que inicialmente parece a apoiar na decisão e pretende visitá-la frequentemente, mas esse detalhe acaba se tornando irrelevante até o momento do término e o seu completo sumiço.

Ao desembarcar em Paris, a série dá início a uma tempestade de estereótipos, desde costumes e personalidades estadunidenses quanto franceses. Assim como muitos norte-americanos, que são criados como o centro do mundo, Emily está sempre julgando a cultura francesa, falando que "na 'América' não é assim", enquanto os próprios franceses são ainda mais estereotipados, mas de forma muito mais negativa. Inclusive, a sua missão por lá é levar uma perspectiva "americana" à empresa em que vai trabalhar.

Imagem: Divulgação/Netflix

Frequentemente os franceses são motivo de piada na trama, seja pela sua língua, quanto pela sua forma de trabalhar ou pela sua personalidade, basicamente generalizando toda uma população. Basta ter um pouco de bom senso para questionar se o que está sendo mostrado ali não é ofensivo. Fazendo uma simples busca no Google, alterando o idioma para francês, aparecem algumas matérias no topo de pessoas nativas do país criticando a série.

"Ignorância cultura", "irreal" e "vergonhosa" são apenas algumas das críticas feitas por franceses sobre Emily em Paris. Todos os estereótipos possíveis do país são mostrados: Emily comendo croissant, pessoas "blasé", arrogantes e preguiçosas, uso de boinas e cigarros sendo consumidos a todo momento. Para contrabalancear essa caricatura do estereótipo francês, talvez para "tentar" não deixar muito escancarado, estadunidenses também são levemente ridicularizados por acreditarem que o mundo é quem precisa se adaptar a eles.

Essa construção de estereótipo, infelizmente, não é de hoje. Hollywood e produções norte-americanas usam e abusam do estereótipo latino, uma vez que o país recebe milhões de imigrantes de diversos países da América Central e do Sul. Isso pode ser visto desde as vestimentas, até o sotaque forçado, costumes familiares e religiosos, entre vários outros aspectos. Agora que isso chegou na Europa, talvez mais pessoas comecem a flagrar essas questões que já existem há anos em séries e filmes do país.

Outra falha da série foi mirar em uma personagem ambiciosa e repleta de sabedoria, e acertar em uma pessoa arrogante e inconveniente. De fato, Emily tem seus méritos na carreira e tem muito conhecimento na área de marketing, mas suas atitudes são iguais a de adolescentes que acreditam sempre estar certos e que o mundo não a compreende. Mas a sua arrogância chega a níveis estratosféricos quando ela quer, até mesmo, ensinar um chef como se prepara uma carne. Porque, como sempre, "nos Estados Unidos" é assim. Aliás, o fato de uma parte considerável da série ser no idioma francês não chega a ser um mérito, visto que é o mínimo que uma produção pode fazer em respeito a um país e um idioma.

Imagem: Divulgação/Netflix

Emily é aquela pessoa que todo mundo finge gostar, mas que torce o nariz cada vez que ela sai de perto. Não que uma protagonista precise ser a melhor pessoa do mundo, mas seria muito mais interessante se a sua personalidade horrível fosse mostrada como algo ruim e não grandioso. O ego de Emily é tão grande que ela consegue manter uma amizade com uma mulher incrivelmente adorável, mesmo tendo sentimentos pelo seu namorado e, inclusive, ser correspondida.

A trama força em a transformar em uma pessoa agradável, com cenas absurdas de ela se tornando uma influencer, por exemplo, apenas por postar uma selfie com o cenário parisiense ao fundo, ou a foto um hambúrguer que está no prato de outra pessoa. Incrivelmente, parece que há um fetiche em franceses por norte-americanas, uma vez que todos os homens que passam pela vida de Emily na França sentem atração por ela, trazendo mais uma vez o clichê do homem francês que só sabe flertar e seduzir.

Imagem: Divulgação/Netflix

A série não se inspira somente em Sex and the City, como também se assemelha ao filme O Diabo Veste Prada, em que a glamourização do trabalho ser difícil e sofrido entram em pauta. A produção de Darren Star também tem uma pitada de Gossip Girl, trama que chegou ao fim há quase 10 anos, mas que, em um dos episódios de Emily em Paris, um grande spoiler que só é mostrado no final da sexta e última temporada é simplesmente jogado por um dos personagens.

Emily em Paris não é uma série ruim, longe disso. Com fotografia, figurino e cenário impecáveis, a trama também traz diálogos divertidos e, em um geral, é leve de assistir. Porém, quem está buscando por algo para distrair a cabeça, talvez não seja a pedida já que os estereótipos forçados, assim como a construção de uma personagem perfeita, podem incomodar quem tem um mínimo de senso crítico. Para uma série que leva o nome de uma capital no título, o mínimo que se esperava era uma homenagem decente e não um deboche do começo ao fim.

A série Emily em Paris está disponível na Netflix em 10 episódios.

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