Crítica | Documentário Console Wars é reprodução rasa de livro de 2014

Por Wagner Wakka | 19 de Outubro de 2020 às 22h00
Reprodução/CBS

No início da década de 1990, o mercado de videogame tinha um nome só: Nintendo. Com o sucesso de Mario, o declínio da Atari e o lançamento do NES, a companhia japonesa dominava 95% da fatia de videogames do mundo.

Foi só com a chegada de um executivo chamado Tom Kalinske, como CEO da SEGA of America, que a balança começou a pender contra a Nintendo. O surgimento de Sonic e um marketing agressivo da companhia foram responsáveis por uma verdadeira batalha entre as companhias japonesas.

Tudo isso é muito bem descrito e retratado com pesquisas e entrevistas no livro A Guerra de Consoles, publicado em 2014 pela Harper Colllins. Escrito por Blake J. Harris, traz entrevistas com os principais nomes responsáveis pela batalha de mercado entre Sega e Nintendo no início de 1990.

O livro é quase que obrigatório para quem pretende entrar no mundo dos videogames, seja desenvolvendo, analisando ou com trabalho em marketing. Agora, seis anos depois de seu lançamento, a mesma história se transformou em um documentário.

Console Wars é uma produção da CBS All Access, serviço de streaming da CBS. O documentário é encabeçado por Harris e remonta a mesma história com entrevista aos principais personagens já pertencentes ao livro.

Por conta disso, tão fiel ao seu produto original, o filme de 1h30 é um interessante e até um profundo mergulho, mas com um ar altamente corporativo. Principalmente, colocado ao lado de programas mais palatáveis como GDLK, da Netflix.

Qual a história? 

Embora A guerra dos Consoles pretenda ser um livro sobre a disputa das duas companhias, no fundo, ele é mesmo sobre a ascensão e queda da Sega of America, da qual Kalinske foi responsável.

A trama principalmente mostra como o executivo e seu time conseguiram criar Sonic e colocar a Sega como uma concorrente quase que do zero contra a Nintendo e depois ser boicotada pela sua própria companhia lá no Japão. A história é já bem conhecida e muito bem descrita por Harris em seu livro de 2014.

Kalinske, um dos principais nomes da Sega (Foto: Reprodução/CBS)

Então, qual a novidade do documentário? Muito poucas. Assim como no livro, ele é um compilado de entrevistas. Contudo, diferente do que Harris faz na versão escrita, na qual intercala com explicações e contextualizações, Console Wars quer ser tão rápido quanto as propagandas de Sonic na época.

O documentário peca pelo ritmo. Ele basicamente não apresenta nenhum de seus personagens, nem mesmo aqueles mais principais. Joga Kalinske, Howard Lincoln (vice-presidente da Nintendo of America) e Steve Race (ex-Sega e que lançou o PlayStation ao mundo) de pronto para contar suas histórias sem apresentá-los ao ambiente.

Isso faz com que Console Wars seja um documentário muito corporativo, interessante para quem estuda marketing ou vendas, mas pouco atrativo para os amantes da indústria. Por exemplo, oferece uma série de segmentos de fala de quatro ou cinco diferentes executivos, sem dar ao expectador o tempo de assimilar quem eles são logo nos primeiros minutos.

Veja bem, a técnica narrativa do documentário de usar somente as falas dos entrevistados como fio condutor do longa é bem-vinda quando o tema principal foge à pessoalidade das fontes.

Contudo, Console Wars é bastante sobre a história, principalmente de Kalinske, junto a Howard e Race. Caberia ao título tirar um tempo para dar mais força a eles, retirando um pouco o ritmo das entrevistas e oferecendo ao expectador um olhar mais atento a cada um.

Um traço que GDLK se utiliza para isso, por exemplo, é rechear o documentário com encenações com as próprias fontes, além de apenas utilizá-los para as entrevistas. Em GDLK, há Kalinske hoje em dia do lado de um Genesis, foleando fotos daquela época ou até jogando Sonic.

Console Wars quer trazer uma pegada mais histórica e, novamente, mercadológica para a conversa. Assim, se utiliza de comerciais da época, além de gravações de eventos e trechos de passagens de jornal para ilustrar a narrativa.

Em 1990, Nintendo dominava 95% do mercado (Foto: Reprodução/CBS)

Claro que esta recuperação de imagem faz muito bem a um documentário que se propõe ter uma seriedade histórica. Contudo, há uma continuidade das falas engarrafadas umas nas outras, atreladas a comerciais de TV e matérias de jornais. Como a linguagem entre eles tende a ser muito corporativa, o resultado é um clima de mercado, longe do sentimento nostálgico que a produção pode ter.

E o conteúdo? 

Console Wars traz uma profundidade semelhante ao que Harris apresentou no livro. Claro, sem mais o caráter interessante de novidade que o lançamento teve em 2014, quando botou no papel esta importante história ainda não contada com tantos detalhes.

Assim, espere do documentário uma boa fatia do que há no livro. O longa, claramente, abraça todo período do surgimento da Nintendo até o final da Sega of America. Ou seja, depois do lançamento do primeiro PlayStation.

Aqui, fica outro pecado que o documentário comete. Ele coloca novamente o microfone na boca de grandes nomes da indústria para refazer as mesmas perguntas que Harris já responde em seu livro de 2014.

É preciso ter em mente que, desde 2014 (quando o livro foi publicado, mas Harris começou sua entrevista muito antes), muita coisa mudou no universo dos games. A Microsoft se consolidou acima da Nintendo. Os smartphones dominaram o rendimento do setor. Realidade virtual, aumentada e os jogos por streaming são algumas das tecnologias inseridas na indústria.

Tudo bem que isso não se insere na história de 1990 entre as duas empresas, mas seria uma boa oportunidade de Harris atualizar o pensamento de seus entrevistados. Será que eles olham para o mercado de games em 2020 como olharam para ele em 2014?

Longa usa livros e trechos de jornais e revistas para ilustrar a conversa (Foto: Reprodução/CBS)

Como o livro, Console Wars termina em aberto, como um recorte de seu tempo. A mesma crítica, portanto, que se pode fazer ao livro cabe ao documentário: ele parece acreditar que a batalha de consoles terminou com o fim da Sega of America como forte competidora em hardware. Traz um certo ar de que Console Wars vive em uma bolha no espaço.

Diante de uma discussão atual sobre como marcas conseguem ainda hoje criar um sentimento passional em seus clientes, além de como comunidades de games podem ser nocivas, Console Wars parece redimir da Sega e Nintendo essa parcela de culpa em fomentar uma cultura de guerra entre os jogadores que perdura até hoje. Uma autocrítica que falta ao livro, cuja oportunidade também foi perdida no documentário.

Assim, Console Wars da CBS é uma transposição visual do livro de Harris. Como tal, oferece um mergulho um pouco mais raso no complexo de entrevistas que encabeça o bom livro de 2014.

A quem já leu a versão impressa, não há muito o que aproveitar. Aos novatos de plantão, ainda, o traço corporativo e o ritmo podem afastar entusiastas dos jogos de darem uma chance para esta história importante da indústria.

Assim, Console Wars é uma réplica do livro que pouco adiciona para a conversa, além de dar rosto aos entrevistados de Harris.

O documentário foi lançado em 23 de setembro pela CBS no seu serviço de streaming, ainda sem previsão de chegar ao Brasil.

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