Crítica | Condenados pela Mídia é bom entretenimento, e isso é um problema

Crítica | Condenados pela Mídia é bom entretenimento, e isso é um problema

Por Wagner Wakka | 19 de Maio de 2020 às 09h19
Netflix

O ano de 1995 foi um divisor de águas para o sistema judiciário norte-americano. Naquela época, as cortes foram apresentadas às câmeras de TV, que atuaram quase como um décimo terceiro jurado nos grandes julgamentos do país. Foi naquele ano, por exemplo, que o pai da família Kardashian ganhou projeção ao defender o ex-jogador de futebol americano O.J. Simpson num julgamento altamente coberto pela mídia na época.

Condenados pela Mídia (disponível na Netflix) não fala especificamente sobre o caso de Simpson, mas outros que ganharam projeção na cultura norte-americana. A série documental traz entrevistas com pessoas envolvidas em seis diferentes casos dos quais a cobertura jornalística participou, não somente como um informante, mas como um irresponsável juiz de fora do campo.

Trial by the Media (nome original da série) é uma expressão cunhada exatamente na década de 1990 por conta do boom de casos do tipo nos Estados Unidos. O sensacionalismo em volta dos julgamentos foi tamanho que críticos criaram um termo específico para a prática.

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A série é encabeçada por figurões do meio. A começar por George Clonney, que aparece como produtor executivo para dar peso à produção. Junto dele está Ryan Murphy, criador de American Crime Story, que romantiza o caso de O.J. Simpson. Com a dupla também está Steven Brill, uma peça-chave para entender sobre o que é Condenados pela Mídia. Brill foi o criador da Court TV, emissora voltada a cobrir julgamentos nos Estados Unidos, pioneira em transformar os casos em grandes episódios de entretenimento.

Assim, é possível ver que o documentário traz a mão de três grandes nomes da ficção e, talvez por isso, derrape exatamente naquilo que critica: a romatização de casos sérios, muito sérios, transformados em mero entretenimento sem qualquer crítica.

Interesse (do) público

Também em 1995, existia um programa nos Estados Unidos chamado The Jenny Jones Show, precursor de formatos de programas que também ficariam populares nas tardes do Brasil, como o Casos de Família. Nele, um convidado é levado diante de um auditório para fazer uma revelação socialmente polêmica. Caso isso gerasse conflito, ao vivo, entre os participantes, melhor ainda.

Foi o aconteceu em março daquele ano. Jenny Jones, a apresentadora do programa, levaria ao palco um rapaz chamado Scott Amadure, o qual revelaria a seu então amigo, Jonathan Schmitz, que tinha uma paixão platônica por ele. Schmitz foi convidado ao show sob pretexto de que uma pessoa revelaria a paixão por ele, sem saber que se tratava de outro homem. Somente durante a gravação ele descobriu que o admirador secreto era seu amigo. Três dias depois, Schmitz se entrega à polícia após assassinar Amadure.

Esse foi um dos casos iniciais que tornaram a cobertura de julgamentos famosa nos Estados Unidos. A história surgiu na TV antes mesmo de virar um caso de polícia e não sairia das emissoras tão cedo.

À direita, Janny Jones, em seu programa de auditório (Foto: Reprodução/Netflix)

Condenados pela Mídia conta como Schmitz ficou famoso em sua defesa, sob o argumento de que matou o colega por ter sido envergonhado em rede nacional (detalhe, o programa não foi ao ar).

O irmão de Amadure chegou a processar a Time Warner, emissora do The Jenny Jones Show, pela morte do rapaz. O resultado é que a própria Time Warner lançou um canal de TV chamado American Trial Network, o qual cobriria o caso em que estava envolvida. Ou seja, a emissora estava transformando um processo em entretenimento por ter ido longe demais na produção de outro entretenimento. A série coloca na voz do irmão de Amadure a crítica sobre esse posicionamento, no mínimo, curioso da emissora.

Contudo, este é o maior questionamento que Condenados pela Mídia consegue fazer, pois derrapa nos mesmos erros de seus entrevistados nos episódios seguintes. Além de uma crítica rasa da atração da mídia diante dos casos, a série faz exatamente aquilo que critica no primeiro episódio: transforma os julgamentos em uma simples peça de entretenimento.

Juiz de fora 

Qualquer estudante de jornalismo, provavelmente no primeiro ano de faculdade, já teve de lidar com a dialética do que é o interesse público contra o que é interesse do público. Ou seja, nem sempre aquilo que demanda audiência deve ou pode ser publicado. É isso que os produtores, com viés da ficção, parecem não ter identificado.

Essa questão, inclusive, é um ponto levantado em Condenados pela Mídia. Em um dos episódios, a série trata de um estupro coletivo em um bar. A imprensa começa a dar voz para setores da população que vocalizavam a “opinião” de que “foi ela que pediu”. Todo julgamento foi gravado de dentro da corte, na íntegra, menos uma parte: o nome e rosto da vítima.

Contudo, quando ela vai se pronunciar no próprio caso, precisa dizer seu nome e endereços, soletrados, ao vivo. A informação foi publicada sem trato, nem questionamento das consequências e, depois, replicada pelos jornais da região.

A única crítica em relação a isso vem do próprio juiz entrevistado. “Eu deveria ter pensado que isso poderia acontecer”, diz em sua fala na série. Com isso, o seriado coloca na conta do juiz a divulgação da informação da qual a mídia deveria ter sido responsabilizada.

Esse exemplo mostra bem como a atração da Netflix reforça a ideia de que a imprensa é um fator externo, que nem sempre tem a culpa pelos fatos informados. Tais quais todas as emissoras que cobriram os casos, os produtores da série jogam o corpo fora ao não se posicionarem claramente sobre que coberturas desse tipo são um erro para o jornalismo.

Tal falha fica clara em dois episódios dicotômicos. Um deles conta a história de um rapaz branco, chamado de "vigilante" pela imprensa na época, que atirou em quatro negros no metrô de Nova Iorque. Em outro episódio, fala sobre um rapaz negro que foi morto pela polícia com 41 tiros, o que virou um crime racial quando a mídia passou a ligar o caso a protestos contra a violência da Polícia de Nova Iorque.

Os dois episódios mostram como a mídia teve um papel importante em transformar um racista em um “vigilante” e em elevar um crime como estopim para protestos contra violência policial contra negros. Ao colocar os dois casos no mesmo patamar, desqualifica o importante papel da mídia em dar voz a protestantes de direitos civis no segundo caso.

Bernhard Goetz, transformado em vigilante ao matar quatro rapazes negros no metrô de NY (Foto: Reprodução/Netflix)

A série faz isso para se manter isenta. Não há erro em não querer se posicionar, levantando a carta da imparcialidade e distanciamento do objeto. Contudo, isso faz de Condenados pela Mídia um produto muito aquém do que poderia ser. A série se torna exatamente aquilo que critica no primeiro episódio: um entretenimento barato com base em casos reais de morte e consequência popular.

Para quem? 

Mesmo com esses deslizes, o seriado de seis episódios da Netflix ainda é uma boa apresentação dos casos conhecidos nos Estados Unidos. Ela segue um modelo de narrativa semelhante ao de A Máfia dos Tigres, que vai entregando pontos aos poucos e segura o espectador na ponta da cadeira.

Condenador pela Mídia pode ser um prato cheio para quem se interessa por processo judicial e como o sistema de júri pode resultar em grandes casos com reviravoltas. Traz a “emoção” das sentenças e oferece um cenário de como estava o ambiente na época em que os julgamentos aconteceram.

Mesmo com a questão isenta, a série também pode ter sua função para quem estuda ou se interessa sobre o papel da mídia no debate público. A produção é boa em mostrar como os veículos participaram em cada um dos processos. Contudo, novamente, sem dar a devida crítica a isso.

Assim, funciona como um bom entretenimento e nada além disso.

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