Crítica | Coisa Mais Linda busca a emancipação das mulheres em 2ª temporada

Por Natalie Rosa | 26 de Junho de 2020 às 08h08
Divulgação: Netflix
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A série Coisa Mais Linda, produção brasileira original da Netflix, retornou à plataforma de streaming no último fim de semana, trazendo muito mais bossa nova aos nossos ouvidos. A trama, que se passa no fim da década de 1950 e início de 1960, tem como cenário o Rio de Janeiro. Porém, não são apenas as belas praias e a música nativa que compõem os episódios, que agora são menos numerosos e trazem uma questão bastante delicada de feminicídio.

Coisa Mais Linda é focada na personagem Maria Luiza, ou Malu, interpretada por Maria Casadevall, uma paulistana casada, de família rica e com um filho, que se muda para o Rio de Janeiro para abrir um restaurante ao lado do marido. Porém, ao chegar lá, descobre que o rapaz pegou todo o seu dinheiro e fugiu.

Atenção: esta crítica contém spoilers!

Imagem: Divulgação/Netflix

É quando a série começa a mostrar o quanto era difícil ser uma mulher naquela época. A mulher não só era culpada pelos erros do marido como também não podia abrir uma empresa sem a assinatura de um homem, por exemplo. Isso sem contar os maus tratos verbais e físicos, seja de forma explícita ou abusiva de maneira sutil.

No caso de Malu, já que o marido fugiu sem deixar ela com nada, a paulistana começa a trabalhar duro para que o local em que seria o restaurante se transforme em um clube de música. Na primeira temporada, vimos todos os esforços da personagem para conseguir um empréstimo e pessoas que vão ajudá-la no negócio. O último episódio, porém, acaba em tragédia e com um gancho para a segunda temporada.

A trama aborda o machismo e a misoginia do começo ao fim, mas os últimos episódios acabam se tornando os mais revoltantes devido ao feminicídio da personagem Lígia Soares, interpretada por Fernanda Vasconcellos. Quando a temporada começa, não demora muito para descobrirmos que Lígia acabou falecendo depois de ser atacada pelo ex-marido Augusto Soares, papel de Augusto Vaz. Malu também foi atacada, mas sobreviveu.

Imagem: Divulgação/Netflix

É impossível não sentir revolta com os acontecimentos, uma vez que o assassinato aconteceu por Augusto não aceitar a ex-esposa ser mais livre e poder viver o sonho de ser cantora. Para piorar, ela foi socialmente condenada mesmo sendo violentada fisicamente e psicologicamente durante todo o casamento. No julgamento do assassino, fatores como suposta imoralidade da personagem e a execução de um aborto foram usados a favor do acusado, praticamente justificando o assassinato e dando a ele uma condenação em regime aberto.

Outro crime de ódio bastante presente em Coisa Mais Linda é o racismo, que a série escancara de forma repugnante. Grande parte dos ataques de ódio acontecem com a personagem Adélia Araújo, interpretada por Pathy Dejesus, que precisa ouvir ofensas de sua patroa e vizinhos. Coisas comuns do dia a dia, na época, eram consideradas imorais quando feitas por negros, como simplesmente pegar um elevador comum ou ir à praia. Antigamente, ninguém escondia o racismo, nem mesmo com crianças, pois a questão só passou a ser crime em 1989.

Imagem: Divulgação/Netflix

Em meio aos acontecimentos, o racismo e a misoginia vão sendo encaixados em forma de crítica, fazendo o espectador que não conhece muito sobre o assunto se questionar como as coisas funcionavam 70 anos atrás e o quanto de resquício sobrou nos tempos atuais. Com a personagem Adélia, a série mostra que existem diferenças de luta de uma mulher branca e de uma mulher negra, e que por mais que elas estejam unidas por uma mesma causa, a luta da classe que sofre mais preconceito será muito mais difícil.

Até mesmo a liberdade sexual é abordada com o casal Thereza Soares (Mel Lisboa) e Nelson Soares (Alexandre Cioletti), que têm um relacionamento aberto e não se abalam por ciúmes. Thereza, inclusive, é a personagem feminina com a mente mais aberta, muito por trabalhar como escritora e jornalista, e acaba influenciando as colegas, encorajando-as a seguirem com a vida e os negócios de cabeça erguida, mesmo com todos os empecilhos sociais da época. É ela quem sempre toma o lado das mulheres, mesmo em questões que envolvem ela mesma, como quando o marido a deixa para seguir com quem ele sempre foi apaixonado e teve uma filha, Adélia.

A segunda temporada também traz o retorno do marido de Malu, Pedro Furtado (Kiko Bertholini), que volta ao clube e usa os seus privilégios para impedir que o desejo da esposa seja realizado naquele empreendimento, transformando-o em um restaurante. O poder que Pedro exerce sobre Malu, uma vez que ela tenta dar uma chance ao rapaz por causa do filho que têm juntos, dura pouco tempo, mostrando que uma vez que o gosto da liberdade é conhecido, é impossível parar de lutar.

Imagem: Divulgação/Netflix

Coisa Mais Linda traz muitos aspectos dos anos 1950 e 1960, e não somente sociais. Na música, por exemplo, vemos a ascensão da Bossa Nova, que dialogava bastante com o jazz norte-americano. A trama também acaba mostrando essa relação entre os estilos musicais com a visita de músicos estrangeiros ao Rio de Janeiro e ao clube de música Coisa Mais Linda.

A época também é visualmente nítida na estética do vestuário, penteados e na decoração e móveis, num belo museu visual de um Brasil que, mais felizmente do que infelizmente, não volta mais. O desfecho da segunda temporada da série dá corda para uma próxima, que deve chegar com um novo drama e mais conhecimento sobre o Rio de Janeiro de 1960.

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