Crítica | After Life traz humor sombrio com mais sentimento em nova temporada

Crítica | After Life traz humor sombrio com mais sentimento em nova temporada

Por Natalie Rosa | 05 de Maio de 2020 às 07h33
Divulgação: Netflix

Como superar um luto? Essa indagação é o tema principal da série After Life, criada e dirigida por Ricky Gervais, que também interpreta o protagonista Tony Johnson. A trama britânica, produzida originalmente pela Netflix, aborda uma perda com humor sombrio, aquele que nos faz rir, mas com culpa, afinal são situações extremamente tristes e difíceis de encontrar uma coisa boa nelas. Mais de um ano depois, a segunda temporada acaba desembarcou na plataforma de streaming.

Atenção: o texto a seguir pode conter spoilers da primeira e segunda temporada de After Life!

Tony é um jornalista que trabalha na redação de um jornal local da cidade fictícia de Tambury, na Inglaterra, e que perdeu a esposa após uma batalha contra o câncer de mama. A história é contada relatando todo o sofrimento do viúvo e as suas tentativas de suicídio por não ver mais sentido na vida, intercalada com vídeos que a esposa deixou gravados antes de morrer.

Imagem: Divulgação/Netflix

Esses vídeos, junto com a sua cachorrinha que havia sido um presente para a esposa, vêm sendo essenciais para a sobrevivência do protagonista. O fato de se preocupar com o animal e precisar alimentá-lo foi um fator crucial para evitar várias de suas tentativas de partir dessa para uma melhor. O objetivo da série é mostrar, com naturalidade, que a perda de alguém é difícil, principalmente quando se começa a refletir que várias coisas poderiam ter sido diferentes.

Na segunda temporada, After Life mergulha ainda mais nos sentimentos de seus personagens, não só de Tony. Enquanto ele sente o seu luto com mais intensidade, as pessoas ao seu redor também começam a enfrentar problemas na vida, sendo mais sérios ou menos graves, fazendo com que o protagonista passe a enxergar que a vida é uma batalha para todo mundo, não só para ele. Se nos episódios iniciais o espectador já refletiu sobre o sentido da vida, os mais recentes os fazem conformar de que a jornada da existência é uma longa e dolorosa trajetória.

Mas o humor da trama não está só nas conclusões formuladas na cabeça de Tony, como também nas peculiaridades de todos que estão em sua volta. Desde seus entrevistados para reportagens no jornal, que trazem características tão interessantes e tristes quanto são engraçadas, como de um homem de meia-idade que se identifica como uma garotinha de oito anos, ou ainda como o enteado de um de suas colegas de trabalho, que é constantemente provocado pelo seu peso e que foi abandonado de forma triste pelo pai.

O luto de Tony o torna uma pessoa fria e sem sentimentos — além daquele que nutre pela esposa —, mas os acontecimentos o faz ter mais empatia, junto ao entendimento das dificuldades da vida. Infelizmente, quando a situação parece começar a melhorar, ele também acaba perdendo o seu pai, a quem ele ia visitar em uma casa de repouso para idosos todos os dias. Essas visitas também fizeram com que uma das cuidadoras despertasse bons sentimentos de companheirismo, mesmo que não esteja preparado para um novo relacionamento.

Imagem: Divulgação/Netflix

A participação de Emma, interpretada por Ashley Jensen, foi crucial do desenvolvimento e melhora de Tony. Empática, ela sempre se mostra entender pelo que o viúvo estava passando, conseguindo enxergar o seu melhor lado, que nem ele via. Ela contou que, em anos de trabalho na casa de repouso, essa foi a primeira vez que ela viu um filho visitar o pai todos os dias, sem pular um. Outra personagem que também compartilhava da mesma dor de Tony era Anne, papel de Penelope Wilton, e com quem dividia um banco no cemitério em suas visitas aos companheiros que já se foram. Anne, inclusive, foi quem mais deu lições de vida a Tony, mesmo que tudo o que ela precisava fazer era ouvir.

After Life também humaniza, sem deixar faltar o humor sombrio, trabalhadores que costumam ser invisíveis à população mais privilegiada. Tony ganha duas amizades que não pediu, mas que de uma forma inesperada se infiltraram em sua vida. A garota de programa Daphne (Roisin Conaty) e o carteiro e morador de rua Pat (Joe Wilkinson) tiveram suas histórias melhor contadas na segunda temporada, com Tony finalmente aceitando essa amizade e juntando os dois para que se apoiem em suas dificuldades e para fazer com que esses encontros inesperados resultem em algo bom para alguém.

A segunda temporada de After Life não trouxe nenhuma transição de histórias, parecendo mais que houve uma pausa entre duas levas de episódios. A mudança entre as temporadas foi sutil, apresentando apenas uma pequena evolução do protagonista e outros personagens, mas os novos episódios acabaram mostrando mais intensidade nas emoções e menos preocupação com as tendências suicidas de Tony. Sua última tentativa acontece no final da temporada, quando ele é interrompido pela sua nova amizade e, finalmente, parece cair a ficha de que precisa seguir a vida. O personagem também passa a entender que é muito adorado por quem está ao seu redor, o que pode o motivar a buscar ajuda para continuar vivendo e ter vontade de continuar.

Imagem: Divulgação/Netflix

As duas temporadas de After Life estão disponíveis na Netflix, cada uma com seis episódios com menos de meia hora.

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