Crítica A Guerra do Amanhã | Ação, aliens, tensão... e um roteiro meio ruim

Crítica A Guerra do Amanhã | Ação, aliens, tensão... e um roteiro meio ruim

Por Laísa Trojaike | Editado por Jones Oliveira | 01 de Julho de 2021 às 16h05
Amazon Prime Video

A Guerra do Amanhã é daqueles filmes que ficamos sem saber o que aconteceu com a produção, que deixou passar falhas grosseiras no filme, mas compramos o circo porque queremos nos divertir com a ação e com os aliens, além de ver como Chris Pratt vai salvar o mundo mais uma vez. Como entretenimento, o filme funciona bastante e o lançamento em streaming foi um reconhecimento de que não havia espaço para esta produção nos cinemas, o que acabou prejudicando a ação, sobretudo no que diz respeito à parte gráfica, repleta de elementos que indicavam uma previsão de lançamento em 3D.

Este é um sci-fi menor, que tem um pé no cult e outro no pop, tentando uma reciclagem dos clássicos, ao mesmo tempo em que sofre a pressão de entregar um blockbuster. Ainda assim, A Guerra do Amanhã é um pouco do que queríamos ver: histórias apocalípticas. Infelizmente, esta não é uma obra que consegue elevar o gênero a um novo patamar, como seria esperado em meio a tanto pastiche disfarçado.

Imagem: Reprodução/Amazon Prime Video

Para quem está cansado das mesmas referências aos filmes Alien, podemos adiantar que esta é mais uma produção que arrisca nas "referências" ao clássico sci-fi de horror e, embora a direção de Chris McKay seja bastante boa, ela parece deslocada em um filme que mira no suspense do xenomorfo e acerta numa versão não (tão) trash de Plano 9 do Espaço Sideral (e isso, de certa forma, é um elogio).

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Atenção! A partir daqui, a crítica pode conter spoilers.

Começou bem, mas…

É fofo o início, quando vamos o protagonista Dan Forester (Chris Pratt) e seu envolvimento com a família. A reciclagem de fórmulas, como vimos acontecer diversas vezes em gêneros como terror e ficção científica, serve para mostrar o que permanece e o que muda no pensamento humano de um tempo para outro. A inserção de um ícone pop como Pratt no papel de um pai equilibrado, presente, responsável e afetivo serve como um incentivo muito bem-vindo, ainda que soe piegas muitas vezes.

É incrível como o filme cria a tensão nos momentos iniciais: o surgimento do exército do futuro em meio ao clímax de uma partida de futebol, por exemplo, é uma tremenda amostra das possibilidades criativas do cinema. O filme chega com cara de carne fresca e nos anima fugindo dos clichês com momentos como esse, mas, depois que a ação entra na trama, há poucos elementos que cativem tão bem a nossa atenção.

Imagem: Reprodução/Amazon Prime Video

O clima família permeia todo o filme e isso provavelmente se deve muito à experiência de McKay como diretor de Lego Batman: O Filme e Uma Aventura Lego. É sempre bom termos personagens assim, mas isso acaba sendo levado a níveis constrangedores, com diálogos e tomadas de decisão que sequer fazem sentido e acabam expondo a fragilidade do roteiro. Não é muito lógico, por exemplo, que Dan tenha voltado do futuro querendo salvar a vida da filha que ficou lá, ao invés de focar no futuro da filha que tem no presente — o que acaba acontecendo, obviamente, mas não sem antes inserir um drama sobre a filha adulta morta em outra linha temporal (ou seja lá o que for).

O roteiro de Zach Dean é falho nos detalhes: podemos nos divertir com os alienígenas, as explosões e tudo mais, mas quando a história se volta para as pequenas sensibilidades, é onde vemos a estrutura toda azedar. O desastre dos diálogos é tão grande que temos pelo menos dois atores de comédia e as piadas arrancam de nós poucas risadas. Existe a possibilidade de que Pratt esteja tentando se afastar de papéis tragicômicos como os que desempenha em Jurassic World e Guardiões da Galáxia, mas, em A Guerra do Amanhã, ele simplesmente parecia estar desconfortável e fora do personagem recorrentes vezes.

Imagem: Reprodução/Amazon Prime Video

Além da referência à franquia Alien, A Guerra do Amanhã também parece ser profundamente influenciado por obras como Gantz, No Limite do Amanhã e as ficções científicas de Christopher Nolan, sobretudo Interestelar e A Origem. Infelizmente, o patchwork não funciona muito bem, porque as referências não vão muito além do seu uso enquanto reprodução da técnica e acabamos apenas com aquela incômoda sensação de déjà vu.

Moral da história

Embora não seja um quesito obrigatório, é comum que filmes de terror e de ficção científica escondam mensagens e conselhos em suas entrelinhas. Não a toa, Além da Imaginação conseguiu unir muito bem esses e outros elementos, porque a fantasia é uma ferramenta muito especial para refletirmos sobre nós mesmos. A Guerra do Amanhã invoca o drama dos dilemas pessoais e certamente ensina um bocado sobre os problemas paternais que mudam, mas não acabam de uma geração para outra.

Escondido no meio de tudo, o alerta de que os aliens só nos dizimaram por causa do aquecimento global, caso contrário teriam permanecido congelados por muitas eras. Daí o momento Ed Wood: um sci-fi meio capenga, mas com uma mensagem muito séria e que merece (deve!) ser ouvida. A Guerra do Amanhã mostra que, se o apocalipse está no futuro, é no presente que precisamos travar as batalhas que evitarão a catástrofe que está por vir. O personagem de Pratt é o mais emblemático nesse sentido.

Imagem: Reprodução/Amazon Prime Video

A sensação é de que A Guerra do Amanhã foi pensado como um filme mais pertinente filosoficamente, mas que acabou remodelado para ficar mais comercial e, infelizmente, acabou perdendo em qualidade justamente por não explorar o conteúdo que nos toca mais diretamente. Ainda assim, é possível encontrar muitos outros pontos interessantes, como a apatia dos adolescentes do ensino médio diante do fim ou as reflexões sobre o caos que se instauraria diante de uma “invasão” alienígena.

Bom ou não, A Guerra do Amanhã é um produto do nosso tempo e uma obra da cultura pop, o que significa que também é um reflexo do público contemporâneo, funcionando para nós como um espelho — questionamentos sérios que mesmo os piores sci-fis conseguem promover. Não é coincidência que, quando o exército dos últimos humanos convoca os do passado para a batalha, sejamos confrontados através de uma quebra da quarta parede, com uma enviada do futuro que olha nos olhos e diz que somos a última esperança. Como poderemos discordar?

A Guerra do Amanhã estreia no dia 2 de julho para os assinantes do Amazon Prime Video.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Canaltech.

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