Campus Party | Como a tecnologia pode resolver os problemas do mundo

Por Stephanie Kohn | 10 de Julho de 2020 às 17h50
Nouvelobs

Para Fabrice Grinda, empresário francês e blogueiro do Business Insider, apesar do momento em que estamos vivendo, de muitas incertezas e medo, vivemos uma época excepcional.

"A extrema pobreza diminuiu nos últimos 200 anos, passando de 90% da população para 10%. Há 50 anos ninguém vivia numa democracia, hoje 53% das pessoas do mundo vivem em uma. E nos últimos 200 anos a expectativa de vida passou de 29 anos para 79 anos. Hoje a maioria das pessoas tem acesso a água corrente, eletricidade...", comentou o empreendedor em uma transmissão da Campus Party 2020.

Ainda que haja muitos pontos positivos, ele lembra que também enfrentamos muitos problemas. Por conta do COVID-19, o desemprego é o maior já visto desde a grande depressão e a diferença salarial entre raça e gênero se mantém. O homem ganha, em média, 23% a mais que a mulher, e o homem branco ganha 30% mais do que o negro.

Além disso, os problemas climáticos são uma ameaça à humanidade. "A quantidade de calor que liberamos nos oceanos nos últimos 25 anos é o mesmo que 3,6 bilhões de explosões de bombas atômicas em Hiroshima. Estamos falando de cinco bombas por segundo. Imaginem alienígenas chegando na Terra e jogando cinco bombas atômicas por segundo em nossos oceanos. Talvez a gente parasse tudo o que estávamos fazendo para resolver o problema, mas infelizmente não fazemos isso", disse.

Sendo assim, Fabrice acredita que a nossa história recente mostra que nenhum dos dois maiores problemas que a humanidade enfrenta hoje - mudanças climáticas e a desigualdade de oportunidades - serão endereçados ou resolvidos pelos governos, mas pela tecnologia e o empreendedorismo.

"Nas mudanças climáticas o problema base é a emissão de carbono. ¼ vem da produção de energia, ¼ da agricultura, 20% da indústria e 14% vem do lixo. E temos tido muitos progressos em todos os âmbitos", lembrou.

Na produção de energia, por exemplo, a solar diminuiu o seu custo em 99% desde da década de 80 e hoje é a forma de geração de energia mais barata que existe. De acordo com Fabrice, na Arábia Saudita ele pagam cerca de US$ 1,8 por kWh e há sinais de que esse preço irá cair ainda mais nos próximos anos.

A armazenagem da energia solar e eólica, que hoje ainda é caro e o principal motivo pelo qual o mundo ainda não substituiu totalmente as demais produções, também está evoluindo a passos largos, já que o custo das baterias também caíram muito. As baterias de littium diminuíram em 25% seu valor na última década e há tecnologias muito promissoras sendo criadas em laboratórios, como o grafeno.

Segundo o empresário, há ainda empresas usando gravidade para armazenar energia solar por meio de um sistema impressionante. Um guindaste pré-programado em cima de uma torre levanta e empilha tijolos um em cima do outro, usando o excesso de energia das usinas solares e eólicas. Quando a demanda excede a produção, o guindaste reverte o processo, recuperando energia ao desempilhar a torre de tijolos. Segundo o The Wall Street Journal, apenas 20 guindastes desses poderiam fornecer energia o bastante para 40 mil famílias durante um período de 24 horas. Desta forma, o custo do armazenamento seria menor que US$ 0,3 por kWh.

Outra startup citada por Fabrice é a Zero Mass Water, que desenvolveu um painel solar que transforma ar em água potável. Com isso, é possível produzir cinco litros de água por dia, mesmo em condições desérticas. A tecnologia funciona assim: o painel tem uma espécie de ventilador, que suga o ar do ambiente para dentro do dispositivo. Ao mesmo tempo, a energia solar aquece o interior do painel. Lá dentro, há nanomateriais que, ao serem aquecidos pelo calor, transformam o vapor em água por meio da condensação. O líquido, por sua vez, é coletado em um reservatório. O sistema é completo por meio de bombas que transportam a água para a casa dos clientes.

Na área da alimentação, Fabrice acredita que as carnes de laboratórios ganharão os pratos da maioria da população em poucos anos. De acordo com estudos, a maior parte da carne que as pessoas comerão em 2040 não virá de animais abatidos. 60% das "carnes" serão cultivadas em laboratórios ou substituídas por produtos à base de vegetais, que têm aparência e sabor de carne.

No transporte, Fabrice cita a eletrificação de carros e até caminhões, como os produzidos pela Tesla. Ele ainda ressalta a ascensão dos aviões elétricos. Um exemplo é o criado pela Rolls-Royce. O avião é 100% elétrico e todas as baterias, motores e geradores do avião funcionam de forma sustentável. A velocidade da aeronave é 20% menor que a média dos aviões convencionais. O trajeto de um voo de duas horas é completado em, aproximadamente, 24 minutos a mais. A compensação viria na forma de sustentabilidade já que ele pode ser recarregado com energia solar ou uma turbina de energia eólica.

Outro protótipo de avião elétrico comercial, criado em junho de 2019 pela Eviation, poderá transportar nove passageiros em uma viagem de até 1.040 km de distância e a 440 km/ h.

"Além das substituições de energias e combustíveis, também temos que tirar o CO2 da atmosfera e já há iniciativas para isso, como a de plantação de árvores. Há empresas que têm projetos de plantar 60 bilhões de árvores por ano a US$ 4 bilhões, o que resultaria a 1 trilhão de árvores a mais em 20 anos a US$ 80 bilhões. Até pode ser viável mas há outras possibilidades", disse.

Uma tecnologia que retira dióxido de carbono do ar está recebendo investimento de algumas das maiores empresas de combustível fóssil do mundo. A Carbon Engineering, de British Columbia, no Canadá, afirma que consegue "capturar" CO2 da atmosfera de maneira eficiente e econômica, por menos de US$ 100 a tonelada. A empresa recebeu US$ 68 milhões em investimentos da Chevron, da Occidental e da gigante de extração mineral BHP. Também existe a suíça Climeworks que atua capturando CO2 do ar para usar na produção de vegetais.

"Com tudo isso dá para entender que, mesmo sem ajuda do governo, talvez possamos nos tornar uma economia completamente livre de emissão de carbono em 30 anos. Ainda vamos dessalinizar água do oceano e cultivar comida no deserto", ressalta. "Além de soluções para o clima, a tecnologia pode ajudar em questões sociais e de desigualdade, pois o empreendedorismo cria modelos de capazes de diminuir preços e oferecer melhores oportunidades de negócios", completa.

Na área social, Fabrice também ressalta algumas boas iniciativas em diversas áreas. Em moradias, empresas têm criado construções menores e mais práticas, que diminuem espaço e preço de aluguéis. As fintechs têm promovido a desbancarização e, na educação, especialmente com a pandemia, vemos novas formas de ensino online e até de financiamento de cursos. Na medicina, a telemedicina já corresponde a 17% das consultas nos Estados Unidos e na alimentação, o empresário a acredita estar havendo a maior revolução.

"Entrega de comidas cada vez mais saudáveis, baratas e rápidas vão acontecer. No futuro, acredito que 50% a 90% das comidas serão pedidas online, pois o custo e o tempo de fazer supermercado e cozinhar não valerá mais a pena. Podemos imaginar até casas sem cozinhas, especialmente em cidades grandes. Isso pode acontecer em 10 anos ou até antes", finalizou.

Para quem quer conferir a palestra de Fabrice na íntegra, basta clicar aqui. E para acompanhar os painéis e encontrar mais informações, confira o site oficial.

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