Como dirigir 1.218 km no Pantanal mudou minha visão sobre picapes
Por Léo Müller |

A minha primeira vez visitando o Pantanal foi também a minha primeira vez dirigindo uma picape longe da cidade. De repente, me vi no estacionamento do aeroporto de Campo Grande embarcando em uma RAM Dakota imensa. A viagem pela frente seria longa: 1.218 km mesclando estradas de chão e asfalto, com muitas experiências inéditas para mim. Foram quatro dias que mudaram minha visão sobre picapes de um jeito que eu não esperava.
Eu nunca entendi o apelo desses veículos para quem não mora em zonas rurais ou pequenas cidades do interior. Meu contato sempre foi com versões menores, geralmente mais rústicas, feitas basicamente para carregar coisas de um lado para o outro. Sendo 100% sincero, eu tinha preconceito contra elas — mas me vi disposto a desconstruir essas ideias logo nos primeiros quilômetros ao volante da Dakota.
A ficha só caiu de vez quando precisei guiar o carro dentro de uma valeta de lama semi-alagada. Meu colega ao lado comentou que ouviu as rodas patinarem, mas a sensação dentro da cabine era de absoluta tranquilidade. O isolamento acústico é tão bom que quase não se ouve o motor ou o ambiente externo, e tudo parecia normal — como se eu estivesse fazendo uma curva qualquer, e não atravessando lama com meio metro de profundidade.
O único momento real de tensão em toda a expedição foi embarcar numa pequena balsa para cruzar o Rio Paraguai. Precisei manobrar a Dakota de ré, descendo um barranco e encaixando as rodas numa rampa improvisada, sem estrutura de porto. No desembarque, ativei a câmera 540° para enxergar o que havia sob o veículo e sair com mais segurança — e foi aí que percebi o quanto esse tipo de recurso faz diferença fora do asfalto.
O luxo inesperado de uma picape média
A Dakota é a primeira picape média da RAM no Brasil, marca que até então atuava apenas com modelos full-size (as RAM 1500, 2500 e 3500), além da compacta Rampage. Isso explica por que ela chega com um pacote de conforto, tecnologia e segurança claramente acima da média do segmento, que é um dos mais disputados do país. A ideia é chamar atenção.
O relativo luxo da cabine foi a primeira pista de que o universo das picapes era mais amplo do que eu imaginava. Além das duas telas no painel, me chamou atenção o console central bem desenhado, com a manete do câmbio que lembra os controles da Enterprise, em Star Trek, e o seletor de tração simples e extremamente funcional.
Dá para deixar o 4x4 no modo automático e esquecer que ele existe — algo especialmente útil para um novato como eu, que estava preocupado com trilhas remotas e transições constantes entre terra e asfalto.
Tecnologia que realmente faz diferença
No campo da segurança, a Dakota traz controle de cruzeiro adaptativo, frenagem autônoma de emergência com detecção de pedestres e ciclistas, monitoramento de ponto cego, alerta de tráfego cruzado traseiro (na versão Laramie), assistente de permanência em faixa, controle eletrônico de estabilidade, assistente de partida em rampa e monitoramento da pressão dos pneus.
Mas o recurso que mais me impressionou foi a câmera 540°. Além da visão 360° tradicional, a multimídia mostra também o terreno abaixo do veículo, mesmo sem existir uma câmera física ali. Conforme você avança, a câmera frontal mapeia o chão e costura as imagens para exibir possíveis obstáculos. Na prática, isso evita cair em valetas, passar com a roda por cima de pedras pontudas ou desníveis invisíveis do banco do motorista.
Nada disso é exatamente novidade para quem testa esses carros com frequência, mas para alguém que só conhecia picapes compactas mais rústicas, ver esse nível de tecnologia num veículo de “trabalho” foi surpreendente. E melhor ainda: tudo funciona bem. A frenagem automática me salvou de dois sustos no trajeto, e o assistente de faixa ajuda bastante em trechos de asfalto mal sinalizados.
Lama, 4x4 e a sensação de controle
Para quem encara off-road com regularidade, o destaque mesmo é o sistema de tração. Você pode alternar entre 2H, 4x4 automático ou 4x4 com reduzida pelo seletor no console. Eu deixei praticamente todo o tempo no modo automático, o que foi especialmente útil nas transições constantes entre estrada de terra e rodovia — já que não é recomendado andar com o 4x4 engatado em alta velocidade no asfalto.
A parte mais divertida da viagem foram os trechos de lama. E, acredite: um “piá de prédio” como eu dizer isso é realmente um elogio. Eu não tinha qualquer experiência com esse tipo de terreno ou veículo, e mesmo assim consegui transpor todo tipo de situação sem medo, estresse ou receio de algo dar errado.
Foi ali que entendi que não existe estrada ruim, mas sim motorista dirigindo o carro errado para aquele terreno. Claro que participar de uma expedição estruturada como a da RAM, com veículos de apoio, mecânicos e socorristas, reduz bastante a ansiedade. Apesar do apelo lifestyle, que poderia sugerir uma robustez mais visual do que real, a Dakota transmitiu muito mais segurança do que eu esperava de uma picape média.
A estrada boa também conta
Nessa expedição, percebi que esse tipo de picape tem mais a ver com deslocamento sem ansiedade por áreas de difícil acesso do que apenas com trabalho pesado. Se eu estivesse num SUV comum ou num carro de passeio, meu smartwatch certamente teria mandado alertas de batimentos acelerados o tempo todo.
Nosso grupo percorreu os 1.218 km saindo de Campo Grande rumo a Corumbá-MS, na fronteira com a Bolívia. Cruzamos o Rio Paraguai de balsa, seguimos até Bonito-MS e depois retornamos à capital sul-mato-grossense. Alternamos inúmeras vezes entre terra e asfalto, o que criou um campo de teste bem diverso.
Na estrada boa, a Dakota responde muito bem quando você pisa no acelerador. São 200 cv entregues a 3.500 rpm, com torque cheio já em baixa rotação, o que garante retomadas rápidas e seguras para ultrapassagens, mesmo com o porte da picape.
Não é a pancada instantânea de um elétrico, mas o desempenho impressiona pelo conjunto. O câmbio automático de oito marchas trabalha tão bem que, em nenhum momento, senti vontade de usar trocas manuais. Segundo a RAM, a velocidade máxima da Dakota é de 180 km/h.
Conforto de carro grande — com ressalvas
Em conforto, não há do que reclamar para quem vai na frente. Bancos e volante têm acabamento em couro legítimo tanto na versão off-road Warlock quanto na Laramie. São assentos largos, que acomodam bem pessoas maiores sem problemas.
Passei praticamente quatro dias inteiros sentado neles e não me senti cansado em momento algum. Dividi o carro com outro colega jornalista, que ficou metade do tempo ao volante e também elogiou o conforto.
Quem vai atrás não tem a mesma experiência, entretanto. O espaço para as pernas é mais limitado: se você tem 1,80 m e viaja atrás de um motorista do mesmo tamanho, vai ficar apertado. Com ocupantes um pouco menores, entretanto, a situação melhora bastante.
O que a RAM Dakota oferece por dentro
- Duas telas digitais (instrumentos de 7” e multimídia de 12,3”);
- Android Auto e Apple CarPlay sem fio;
- Câmera 360° com visão 540° do terreno sob o veículo;
- Carregador de celular por indução com refrigeração;
- Ar-condicionado digital dual-zone com saídas traseiras;
- Bancos dianteiros com ajustes elétricos (Laramie);
- Bancos e volante com revestimento em couro;
- Chave presencial com partida por botão;
- Freio de estacionamento eletrônico;
- Retrovisor interno eletrocrômico;
- Sensor de chuva e faróis automáticos;
- Duas portas USB dianteiras e uma traseira (tipo C);
- Sistema de som premium;
- Capota marítima;
- Iluminação interna da caçamba.
Concorrentes da RAM Dakota?
Tudo isso para dizer que minha primeira experiência prolongada com uma picape foi surpreendente, especialmente vindo de alguém sem qualquer contato com esse universo rural onde esses carros são praticamente ferramentas essenciais.
Depois desses quatro dias no volante da Dakota, consigo entender o apelo — e acredito que a RAM tem chance real de roubar mercado da Toyota Hilux e da Mitsubishi Triton (antiga L200).
Essas concorrentes estavam por todo lado nas estradas de terra do Pantanal, com uma base de usuários extremamente fiel às marcas. A RAM, por outro lado, aposta num apelo mais premium e num ar “diferentão” herdado das suas picapes full-size, que respinga na irmã menor Dakota. Talvez isso seja suficiente para fazer fãs da Toyota e da Mitsubishi ao menos considerarem um test-drive.
Mas ela é pra mim?
Apesar disso, picapes ainda não são exatamente para mim. Moro em Curitiba e preciso dirigir pelo menos 200 km para encontrar cenários minimamente parecidos como os do Pantanal, onde a Dakota realmente brilha. O pouco tempo que passei com ela nas avenidas de Campo Grande deixou claro que não é o carro mais prático do mundo na cidade — embora também não seja inviável.
Mas, se um dia eu realizar meu sonho de morar numa chácara na Serra do Mar com vista para as montanhas, é bem possível que eu dê uma chance para a Dakota.
Comparativo rápido: RAM Dakota × Toyota Hilux × Mitsubishi Triton
| Atributo | RAM Dakota | Toyota Hilux | Mitsubishi Triton |
| Motor | 2.2 turbodiesel | 2.8 turbodiesel | 2.4 turbodiesel |
| Potência | 200 cv | 204 cv | 190 cv |
| Torque | 45,9 kgfm | 50,9 kgfm | 43,9 kgfm |
| Câmbio | Automático, 8 marchas | Automático, 6 marchas | Automático, 6 marchas |
| Tração | 4x4 Auto com reduzida | 4x4 com reduzida | 4x4 com reduzida |
| 0–100 km/h | 9,9 s | ~10,0 s | ~10,8 s |
| Velocidade máxima | 180 km/h | ~175 km/h | ~175 km/h |
| Capacidade de carga | 1.020 kg | ~1.000 kg | ~1.000 kg |
| Reboque com freio | 3.500 kg | 3.500 kg | 3.100 kg |
| Preço inicial (2026) | ~R$ 290 mil | ~R$ 280 mil | ~R$ 265 mil |


