"Orgasmos mentais": por que é tão bom assistir a vídeos satisfatórios?

"Orgasmos mentais": por que é tão bom assistir a vídeos satisfatórios?

Por Nathan Vieira | 07 de Julho de 2020 às 15h15
Reprodução/YouTube/Sandtagious

Sabe quando você está assistindo alguns vídeos aleatórios no YouTube (ou mesmo no feed de alguma rede social) e aparecem aquelas cenas com areia cinética ou slime, e seja pela simetria dos cortes, seja pelo som produzido pelo contato entre a mão e a massa, seja por toda a lentidão da coisa, aquele conteúdo acaba te prendendo por incontáveis minutos, deixando aquela sensação de satisfação? Então. É justamente daí que vem um apelido famoso para esse tipo de material: vídeos satisfatórios.

Mas de onde é que vem essa sensação de satisfação? Quais são os efeitos que tais vídeos têm em nosso cérebro? Com essas questões em mente, a equipe do Canaltech conversou com especialistas da área. De acordo com Marcelo Daudt von der Heyde, psiquiatra e professor da Escola de Medicina da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), a representação de um ato pode ativar as mesmas áreas cerebrais do que o ato em si. Não entendeu exatamente? Tudo bem, ele explica:

"Quando estamos vendo um filme de terror, podemos ativar áreas do medo como se estivéssemos realmente vivenciando aquela situação. Isso também acontece com os 'vídeos satisfatórios'. A representação do que está sendo feito no vídeo ativa áreas do cérebro como se a pessoa estivesse fazendo a ação. Fora isso, nos vídeos existe um certo padrão de velocidade, jogos de cores, close e som que o cinema também sabe como utilizar para criar momentos amenos. Esse padrão é explicado pela neurociência".

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Questionado sobre qual área do nosso cérebro está ligada ao prazer e à satisfação, Marcelo afirma que não existe apenas uma área, mas a principal área que é ativada é o mecanismo de recompensa, que vai da base do cérebro até o córtex frontal e é mediada pela dopamina e pelos opioides endógenos. O professor acrescenta que sempre que fazemos algo prazeroso (válido para alimentação, carinho, sexo, etc.), a via de recompensa é ativada.

Para o profissional, é importante fazer atividades/acessar esses estímulos que sejam prazerosos para a nossa mente. "Apesar da inexistência de uma evidência sobre esses 'vídeos satisfatórios', podemos inclui-los nas técnicas que podem ser utilizadas para a redução de estresse e ansiedade. Controle de respiração, meditação, atividade física, hobbies, alimentação, entre outras atividades também ajudam a reduzir o nível de estresse".

Prazer ou alívio?

Profissional entrevistado pelo Canaltech traz à tona a diferença entre alívio e prazer

Em contrapartida, o Dr. Wimer Bottura, psicoteraeuta e presidente da Associação Brasileira de Medicina Psicossomática-ABMP, traz à tona uma questão que ainda gera divergências entre profissionais de sua área: a diferença entre prazer e alívio. "Muitas coisas que dão sensação de prazer na verdade são alívio. O que a gente tem mais é dedução e interpretação do resultado que esses vídeos apresentam na prática. Então se eles relaxam, a gente pode prever que há um motivo de tensão nas pessoas, já que você só relaxa se houver tensão. Mas, possivelmente, são tensões moderadas, e esse procedimento com barulhos rítmicos, repetitivos e familiares proporciona esse relaxamento", aponta.

O psicoterapeuta conta que os estudos sobre esse fenômeno do slime e da areia cinética, que a gente pode chamar de ASMR (Resposta Sensorial Autônoma do Meridiano), ainda não são muito consistentes e extensos. "Há pouca pesquisa sobre isso. A área que pode estar envolvida com isso no cérebro (e é possível que seja), chama-se núcleo accumbens, que é a área de gratificação do cérebro. Mas isso já é uma interpretação. Ainda não há uma comprovação concreta sobre isso. É uma suposição a partir das evidências que temos", explica. O especialista ressalta que o nosso hipotálamo funciona como uma agência de correio: ele recebe a informação e a distribui, chegando assim nesse núcleo e desencadeando a sensação.

"É importante fazer essas atividades, afinal de contas, todos nós temos um nível de tensão todo dia. Eu entendo que se a pessoa conseguir dormir ao fazer um pouco dessa atividade, é melhor que tomar um remédio, por exemplo. No entanto, não sei se geram estímulos de prazer. Acredito que geram mais estímulos de alívio, e as pessoas confundem", opina o profissional.

Ele ainda diz que a areia cinética e o slime podem servir para uso terapêutico, principalmente com crianças, favorecendo a catarse (se a pessoa pode fazer com a massa mesmo, pode colocar raiva fora, apertar com raiva, acariciar, mudar o formato). Os vídeos também ajudam porque eles inclusive podem gerar interação entre a pessoas, socialização. "Alguns autores falam que ele gera ocitocina, que é o hormônio do afeto. Não há nada que comprove, são só suposições, mas de qualquer forma, tudo que traz um alívio na tensão é muito útil para a pessoa se abrir a aquilo que tem que ser trabalhado. A tensão é o medo, esperar algo desagradável num futuro próximo, imediato", conclui.

Vídeos satisfatórios

Conversamos também com o criador do Sandtagious, um canal de YouTube norte-americano dedicado exclusivamente a vídeos satisfatórios, mais precisamente os que envolvem areia cinética. Com 2,75 milhões de inscritos, o canal conta com nada menos que 679 milhões de visualizações espalhadas por seus 207 vídeos.

A ideia de criar conteúdo inteiramente dedicado à areia cinética surgiu em 1 de fevereiro de 2017, mas primeiro, por meio da página do Instagram, que hoje em dia ostenta 1,1 milhão de seguidores. "Vi um vídeo de corte de areia cinética bem simples no Instagram e quis adicionar minha própria criatividade a isso. Então publiquei, e deu certo! Tive 30 mil seguidores em 8 dias, então eu disse: 'Bem, acho que vou continuar' e aqui estamos", conta.

Questionado a respeito da proposta do canal, o criador conta: "Criei o canal para fazer as pessoas se sentirem relaxadas. Muitas assistem aos vídeos para ajudar a dormir ou se acalmar. Uma coisa que eu ouço muito é que algumas pessoas não gostam dos vídeos tradicionais de ASMR, mas adoram o que faço. Também ouvi de pais que meus vídeos ajudaram seus filhos autistas a se acalmarem e se concentrarem". O YouTuber ainda acrescenta: "Ver uma forma legal sendo cortada é muito gratificante e relaxante. Você pode continuar usando a areia várias vezes para criar outras formas e objetos e fazer coisas diferentes".

Simetria

Além de todo o estímulo visual e auditivo, um dos aspectos mais apreciados desse tipo de vídeo é a simetria. Questionado sobre o efeito que os conteúdos com simetria, o o Dr. Wimer Bottura diz que uma das fontes de ansiedade chama-se 'coisas abertas': palavras mal ditas, questões não respondidas. A assimetria traz uma sensação de coisa aberta, e gera um tipo de sofrimento. Não um sofrimento catastrófico, mas um pequeno sofrimento. "Quando se depara com a simetria, dá mais uma vez a sensação de alívio que as pessoas tomam como prazer".

O psicoteraeuta ainda aponta que pessoas que têm uma estrutura de personalidade frágil, que podem perder o equilíbrio com facilidade, precisam de tudo muito simétrico, o que se pode enxergar como o perfeccionismo exagerado e a obsessão.

Marcelo Daudt traz um ponto de vista semelhante: "Existem pessoas que têm um traço de personalidade mais ligado a um padrão obsessivo que lidam bem com questões de simetria e muito mal com assimetria. Algumas delas enxergam defeitos que outras pessoas não vêm porque já têm um radar natural mais atento para essas coisas", disserta. O profissional enfatiza que poucas pessoas não se sentem bem em um ambiente organizado, mesmo no caso de pessoas que têm um padrão menos organizado. É a mesma sensação que se tem quando se entra em um quarto de hotel recém-arrumado, a mesma pessoa que não liga tanto para arrumação, quando entra em um quarto organizado, tem uma sensação de bem-estar.

"Quem tem um padrão mais obsessivo não consegue lidar com formas diferentes. Algumas coisas geram estranheza e uma angústia. Quando isso deixa de ser um traço de personalidade, é possível pensar em um diagnóstico de Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC), seria o excesso da busca de padrões", acrescenta o professor da Escola de Medicina da PUCPR. "Especificamente sobre os vídeos, não há terapia, apesar de poderem ser utilizados como uma forma de relaxamento", conclui.

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