Vício digital

Por Eduardo Guedes | 24 de Junho de 2015 às 11h38
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No intervalo da aula, o menino comemorava o seu recorde para a amiga: “Olha a foto que postei agora no Facebook, mais de 150 likes!". A menina desolada respondeu baixinho: "É... muito bom mesmo. Minha melhor foto não passou de 80 likes". Curioso como o indicador de felicidade ou sucesso se resumiu a uma simples curtida. Tempos modernos.

Todos nós temos algum relato próprio ou sobre outras pessoas de exemplos de uso abusivo das tecnologias.

Selfies a qualquer hora, viciados em games que não saem de casa, escrever ou ler mensagem de texto enquanto dirige, pessoas que não desgrudam do celular nas refeições, excesso de exposição da vida privada nas redes sociais, conferir o WhatsApp a cada minuto, entre outros.

Estudos já apontam os efeitos colaterais dessa realidade: maior nível de ansiedade, síndrome do pensamento acelerado, menor concentração, baixo rendimento no estudo e trabalho, conflitos de relacionamento, isolamento social. Médicos e fisioterapeutas também destacam as consequências do sedentarismo como maior incidência de hérnia de disco e tendinite, resultado do excesso de digitação e postura inadequada frente aos dispositivos.

Afinal, como lidar com tudo isso? Qual limite do uso saudável para o uso abusivo das tecnologias? Como prevenir e como tratar?

Preocupado com estas questões, surgiu o Instituto Delete dentro do núcleo de psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) com o objetivo de realizar pesquisa científica, tratamento e programas de conscientização junto a empresas e sociedade para o uso digital consciente.

Não podemos, nem devemos negar ou proibir a tecnologia. Ela faz parte da nossa realidade e surgiu como forma de otimizar o tempo e nutrir as relações humanas. Entretanto, por vezes, a mesma internet e celular que aproximam pessoas distantes, se mal utilizados também distanciam pessoas próximas.

O impacto de transformação social das redes sociais pode ser comparado aos efeitos da revolução industrial. A possibilidade de comunicação instantânea, bem como o alcance e velocidade de mensagens, vídeos ou imagens transmitidos a partir de redes sociais cria uma arma poderosa com apenas um clique.

Um exemplo bastante comum é o relato de pessoas tímidas que conseguem se expor com mais facilidade através das redes sociais. Até aí tudo bem. O problema começa quando o uso exagerado aumenta o isolamento na vida real, trazendo paradoxalmente maior prejuízo nos relacionamentos. O Facebook, WhatsApp e outras redes sociais ajudam a reencontrar velhos amigos ou manter contato com pessoas distantes. Entretanto, quando mal utilizados, alteram a percepção de tempo e espaço, podendo “gatilhar” transtornos de ansiedade, depressão ou fobia social.

A dependência digital não está associada diretamente ao tempo dedicado aos seus dispositivos eletrônicos, mas sim a perda de controle na vida real, trazendo prejuízos nos campos: pessoal, profissional, familiar, afetiva ou social. Ou seja, usar muito a internet, celular ou games não configura necessariamente dependência. Nem todo uso excessivo pode ser considerado uma dependência, mas toda dependência está associada a um uso abusivo. A dependência ou perda de controle na vida real pode ser avaliada a partir de cinco dimensões: Excitação e Segurança, Relevância, Tolerância, Abstinência e Conflitos na Vida Real.

Curioso também é número de postagens de autopromoção no Facebook que já foi objeto de pesquisa em Harvard. Segundo o estudo, falar de si próprio gera um prazer equivalente a se alimentar, ganhar dinheiro, dormir ou fazer sexo. Numa conversa normal, as pessoas falam de si cerca de 30% do tempo, enquanto nas redes sociais este índice sobe para 90%, com possibilidade de um feedback imediato. Isso gera inconscientemente uma sensação de prazer instantâneo, mas que não é sustentável. Mais da metade dos usuários ativos de Facebook também se consideram mais infelizes do que os seus amigos virtuais, pois enxergam uma vida editada onde só existe casamento perfeito, viagens maravilhosas e o emprego dos sonhos.

Nas redes sociais, não importa quem você é, o que você faz ou o que você tem, mas principalmente o que você representa ao mundo a partir das suas postagens. Como o exemplo do marido que trai e reclama da mulher, mas posta ao mundo um casamento feliz. Ou a menina que reclama da viagem no meio do mato, mas prefere postar #contatocomnaturezamomuito. Perigoso. É quando se deixa de reconhecer o que genuinamente te faz bem com a preocupação essencial de agradar aos outros. Desejo inconsciente de pertencimento para saciar a própria insegurança ou alimentar o narcisismo.

Definitivamente, é preciso educar e usar a tecnologia a nosso favor. O problema não é a tecnologia em si, mas o uso que se faz dela. É preciso promover e ampliar o debate de forma profissional. A família, escolas, empresas e imprensa têm papel fundamental neste contexto.

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