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A maneira como tratamos robôs diz muito sobre nós mesmos

Por| Editado por Luciana Zaramela | 18 de Julho de 2023 às 18h14

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anaiskayeva/Envato
anaiskayeva/Envato

Imagine que você vê um amigo ou colega de trabalho conversando com um chatbot, inteligência artificial feita para responder perguntas de maneira semelhante a um humano (como o ChatGPT), e ele maltrata o robô verbalmente. Isso é ruim? Neutro? Se você tem dificuldade para responder a essa pergunta, não se preocupe — os cientistas também têm. Questões sociais e de comportamento humano são complexas, e ficam ainda mais quando se adicionam elementos como respondentes sem corpo e consciência.

O que significa ser violento contra um ser artificial? Essa pergunta surgiu ainda com a popularização de assistentes de voz, como a Alexa e a Siri, inclusive com preocupações por parte de pais de que seus filhos aprenderiam a ser mal-educados dessa maneira. Amazon e Google prontamente adicionaram ferramentas que encorajavam os usuários a usar “por favor” e “obrigado” para evitar comandos rudes. Mas isso, como já se pode imaginar, nem sempre é suficiente.

Maltratar robôs nos torna violentos?

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Ter atitudes ruins com IAs não machuca as máquinas em si, mas pode ser uma má notícia para o usuário que a maltrata. Cientistas já investigaram a conexão entre a preocupação empática das pessoas e como estavam dispostas a tratar robôs, mostrando que os bastante empáticos evitam bater neles. Além disso, estudos mostram que quem testemunha comportamentos violentos contra robôs sentem aflição.

Isso, no entanto, não encerra a questão do maltrato a IAs nos deixar violentos ou não. Videogames e pornografia receberam questionamentos semelhantes, mas em relação a eles, a ciência não tem respostas muito conclusivas — na maioria dos casos, as pessoas conseguem compartimentalizar, isto é, entender que a violência virtual não se transporta à vida real. Porque um robô seria diferente?

Ter um corpo muda bastante a situação. Como criaturas físicas, nós, humanos já mostramos tratar robôs corpóreos de maneira diferente de chatbots meramente virtuais, como se estivessem de fato vivos. Somos programados biologicamente para reagir a movimentos físicos — até mesmo um graveto balançando aleatoriamente é tratado como algo vivo por nós, como mostram pesquisas. À medida que os robôs ganham formas mais humanizadas, a linha entre o vivo e o que parece vivo vai ficando menos nítida.

Maltratar um robô talvez possa ser uma forma de escape, então? Afinal, não se está machucando um ser vivo. Por outro lado, há quem argumente que isso dessensibiliza os seres humanos para outros tipos de violência. Quem machuca um robô talvez ache mais fácil fazer mal a um animal de estimação, por exemplo. O problema é que dessensibilização é um tema difícil de se estudar — conectar comportamentos a longo prazo a causas exatas, no geral, é bastante difícil.

Filosofia e violência

Algumas questões e filosóficas e autores da área podem ajudar a pensar melhor sobre a questão. Immanuel Kant dizia que indivíduos que não se sentem mal ao maltratar animais são mais insensíveis com pessoas também, e talvez isso se aplique aos robôs, embora evidências ainda não confirmem isso. Isso também não quer dizer que pessoas que fazem mal a IAs sejam ou se tornem sociopatas, mas mesmo assim, isso pode ser visto como um mau sinal.

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A filósofa Shannon Vallor também falou sobre a questão, afirmando que, da perspectiva da ética da virtude, alguém que passa a maior parte do tempo livre torturando robôs não está exatamente “florescendo” — isso porque não está cultivando nenhum traço, habilidade ou motivação que constitua a excelência e o florescimento humano. Segundo ela, deveríamos ser encorajados a realizar atividades percebidas como boas e admiráveis.

Se estamos preocupados que nossas crianças presenciam maus tratos a robôs, talvez devêssemos aplicar o mesmo a nós, adultos — mesmo que, em última instância, ninguém esteja sendo maltratado. Praticar a bondade, no final das contas, não custa nada, e, segundo Vallor, pode valer a pena.

Fonte: ACM 12, ResearchGate, Scientific Reports, International Journal of Human-Computer Studies, IEEE Explore, Oxford University Press