Selfies e tecnologia em excesso estão destruindo nossa memória, diz pesquisador

Por Redação | 20 de Agosto de 2014 às 09h15
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Você já deve estar cansado de ler notícias aqui do Canaltech sobre os perigos causados pelo vício em dispositivos móveis. Mas até que ponto essa dependência dos nossos tablets e smartphones pode ser prejudicial não apenas para nós mesmos, mas também para nossas relações sociais com outras pessoas?

Esse é um dos temas discutidos por Andrew Hoskins, pesquisador da Universidade de Glasgow, na Escócia, que está em São Paulo para participar da 8ª edição do Fórum Permanente de Gestão do Conhecimento, Comunicação e Memória, que aconteceu nesta terça-feira (19). Hoskins questiona como as tecnologias digitais estão mudando a maneira como os acontecimentos atuais se tornam memória e como essas ferramentas conectadas estão ultrapassando os limites.

Um exemplo são as selfies, autorretratos tirados pelo próprio usuário usando a câmera de um celular. O termo já existe há algum tempo, mas virou mania mundial depois da festa do Oscar 2014, quando a apresentadora Ellen Degeneres registrou uma selfie com outros artistas. Foi o suficiente para que milhões de pessoas em todo o mundo adotassem a prática quase como uma atividade diária e cada vez mais comum.

Só que os limites citados por Hoskins estão começando a aparecer. Na semana passada, durante o funeral do ex-governador de Pernambuco e ex-candidato à presidência da República, Eduardo Campos (PSB), inúmeras pessoas que passaram pelo local postaram selfies nas redes sociais ao lado da viúva do político, Renata Campos, e até mesmo ao lado do caixão onde estava o corpo de Campos. Para Hoskins, tal atitude mostra que manter-se conectado a todo momento - e o principal, tornar-se parte integrante da experiência de estar em qualquer lugar - virou uma espécie de compulsão.

"A noção do que é público se transformou com a tecnologia. E há agora o que eu chamo de compulsão pela conectividade. Então a pergunta a se fazer é por que as pessoas estão tirando selfies? Por que elas estão constantemente registrando tudo? É em parte a ideia do que é estar em um espaço público hoje, o que é entender uma certa experiência ou evento", disse Hoskins em entrevista à BBC Brasil. "A tecnologia sempre esteve presente nesse sentido, mas para mim há um ponto em que chegamos longe demais. É quando registrar o evento se torna mais importante do que ver o que está sendo registrado. Acho que esse momento estamos vivendo agora".

O pesquisador escocês afirma que entende que a geração atual é diferente de épocas passadas, especialmente a questão da midiatização dos eventos que mudou muito nos últimos cinco anos. Nesse caso, Hoskins acredita que os usuários desta geração acham normal o registro constante dos lugares e pessoas, e sua publicação no mundo online. "Eles acham que isso é parte rotineira do que significa estar em um evento ao vivo. (...) Quando eu vou para um show, eu quero ver uma banda, eu vou para ver a performance. Eu não quero alguém diante de mim balançando o telefone, a câmera ou um iPad. Mas eu sou de outra geração, eu acho isso estranho", explica.

A tecnologia em excesso está destruindo nossa memória

Andrew Hoskins

O pesquisador Andrew Hoskins diz que a tecnologia está mudando a forma como fatos se tornam memórias. (Foto: Divulgação/BBC)

Embora critique os usuários compulsivos, Hoskins admite que os smartphones fazem parte da sociabilidade do dia a dia - inclusive com ele mesmo -, e que, dada a penetração desses aparelhos nas nossas vidas, é impossível escapar deles. Contudo, esses dispositivos estão criando um efeito nomeado por Hoskins como esvaziamento de memória. Em seu livro iMemory, ele cita que a memória hoje é menos uma questão de lembrar e mais uma questão de saber para onde olhar. Isso porque há uma diminuição da memória humana por causa da nossa crescente confiança na tecnologia. "Agora, se eu não me lembro, posso digitar e aparece para mim", disse.

Em novembro do ano passado, um grupo de pesquisadores dos Estados Unidos comprovou essa constatação. Eles descobriram que o uso excessivo da internet, especialmente os sites de buscas, como o Google, está aumentando os níveis de esquecimento da população. Assim como os computadores e celulares, esses buscadores se tornaram "extensões da nossa inteligência", em vez de ferramentas separadas. Como consequência, estamos cada vez mais propensos a esquecer dos acontecimentos que não pesquisamos na internet.

Segundo os cientistas, as pessoas agora confiam mais nos meios digitais do que na própria memória para armazenar informações. Na visão desses usuários, guardar dados eletronicamente, como na nuvem ou em outros mecanismos, é mais seguro, confiável e à prova de falhas do que guardar tudo na própria mente ou na de outra pessoa. Os pesquisadores concluíram que a internet está tomando o lugar não só de outras pessoas como fontes externas de memória, mas também das nossas faculdades cognitivas.

"A grande mudança é que a confiança nas tecnologias da comunicação e da informação para criar memórias, para se sociabilizar e para se informar está passando a ser um dependência. E esse é o ponto crítico. Contar com essas tecnologias é bom, na minha opinião. Mas depender delas é outra coisa. A noção de compulsão pela conectividade sugere para mim que estamos dependentes. É essa coisa de não poder ficar sem checar mensagens no telefone, sem tirar fotos. De não poder ficar desconectado por algum tempo, porque nos sentimos sozinhos e alienados", disse Hoskins.

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