Morre Eduardo Campos – até onde vai a falta de respeito na web?

Por Luciana Zaramela | 13.08.2014 às 18:50

Quarta-feira, 13 de agosto de 2014. Eduardo Campos, candidato à presidência da República, estava a bordo de um avião que caiu em Santos, São Paulo, e causou sua morte e de mais outras 6 pessoas. Em pleno ano de eleição, o Brasil assistiu ao sonho de um de seus candidatos a presidente sucumbir diante de uma tragédia que marcou a história do país.

Enquanto isso, o público atônito das redes sociais se dividia entre revoltosos, incrédulos, políticos oportunistas, estupefatos, conspiradores e piadistas. Tudo o que se via no Twitter e no Facebook eram comentários de todos os teores a respeito da queda do avião. Enquanto a notícia corria o mundo pela televisão e pela internet, vários internautas se aproveitaram da situação para lançar mão de piadas e comentários fora de hora. Era a parte podre da web enfiando o dedo na ferida alheia.

A sede por informação é tão descompensada que atropela as barreiras do bom-senso e do respeito. Uma corrida desorientada em busca de compartilhamento de desgraça assola o mundo virtual e abre espaço para oportunistas radicalizarem nossas linhas do tempo. A dor e o sentimento perante uma tragédia perdem o sentido quando a velocidade da informação está em pauta: em era de Twitter e Facebook, quem compartilhar o infortúnio e fizer a piada mais rápida sobre a catástrofe alheia ganha mais créditos.

De memes incitando a teoria da conspiração a postagens infames, o que se via era um emaranhado de informações desconexas acerca de um fato que, por si só, exigiria consideração, deferência. Ora, se a morte, que ainda é tida como um mito para a humanidade, não for respeitada, o que será digno de respeito em pleno século XXI?

Para clarear, um exemplo, que veio do humorista Maurício Meirelles, do CQC: ele brincou com a situação e logo em seguida foi criticado por uma leva de seguidores dotados de bom-senso. "O aeroporto era do Aécio?", perguntou Meirelles no Twitter. Não, Maurício. O Aeroporto não era do Aécio e sua piada ignóbil não teve a menor graça.

Mauricio Meirelles

Imagem: Reprodução/Twitter

Outro exemplo partiu do pastor evangélico Daniel Vieira, que disparou: "Morre Eduardo Campos, candidato a presidente. Hoje são 13, número do PT. A morte bateu na porta errada, deveria ter levado a DILMA!!". Um religioso que diz pregar a fé acaba se aproveitando da desgraça de um candidato à presidência para expressar seu desejo de morte a outro. Brilhante, homem de Deus.

Tanto o humorista quanto o pastor apagaram seus comentários e se dizem arrependidos de os terem feito.

Enquanto isso, no Facebook, uma enxurrada de memes e comentários desrespeitosos se misturava à comoção de outras pessoas que usavam a rede social para expressar seus pêsames à família do presidenciável. Houve teoria da conspiração, acusações sem provas, piadas políticas e muito descaso. Inclusive, o nome de outros presidenciáveis foi amplamente citado por vários usuários da rede social como envolvidos na tragédia.

Meme Dilma

Nós queremos chamar a atenção para um só conceito: o de respeito. Independe se quem foi vítima de uma tragédia como a que aconteceu hoje em Santos seja uma pessoa pública, um chefe de estado, uma celebridade, um empresário, um trabalhador rural ou um catador de lixo. A era da informação abre as portas para quem quiser falar, e a liberdade de expressão permitida pelas redes sociais acaba dando brecha para que comentários medíocres e piadas ignorantes sejam feitas sem o menor escrúpulo.

O Canaltech exprime seu apoio à família de Eduardo Campos. Independentemente de razões políticas, acreditamos que a era da informação serve também como base de consolo aos que já passaram por momentos de dor e tiveram que conviver com a falta de sentimentalismo que encharca de chorume as redes sociais.

Eduardo Campos deixa uma esposa e cinco filhos.