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Twin Peaks Day: 7 momentos únicos das obras do gênio David Lynch

Por| 27 de Fevereiro de 2024 às 19h34

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Showtime
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Você já tentou desenhar um sonho ou um pesadelo, seja desperto ou logo após acordar de algum deles? Independente de qual seja sua resposta, essa tarefa sempre será difícil, e, para a maioria, impossível.  Mas a mente de David Lynch é tão genial que ele consegue encontrar os sons para o silêncio de nosso mergulho dormente na profundidade de nossa mente para transformar na realidade devaneios, imagens e outras viagens oníricas em objetos, pessoas, ambientes, atmosferas, narrativas e muito mistério.

Assistir a algumas de suas obras é praticamente como estar sonhando de olhos abertos— na maioria das vezes tendo um pesadelo. Como anualmente os fãs celebram no dia 24 de fevereiro o Twin Peaks Day, referente ao dia em que o Agente Cooper desembarcou na pequena cidade fictícia no início da história, o Canaltech aproveitou para mostrar por que esse artista é tão incrível.

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E porque, provavelmente, não teremos um igual por décadas depois que ele nos deixar — aliás, embora ele tenha 78 anos e esteja muito bem de saúde, sequer estou preparado para discutir essa possibilidade por enquanto. Fique, então, abaixo, com algumas informações sobre a importância de cada obra e sete momentos que provam como a mente de Lynch é bizarro e irresistível parque de diversões de conceitos, imagens e sequências únicas e completamente originais.

ATENÇÃO: algumas imagens sensíveis e temas ilustrados e descritos abaixo podem gerar desconforto ou gatilhos emocionais!

1. Eraserhead (1977)

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O primeiro trabalho de Lynch estipula as poucas “regras”, temas e elementos recorrentes em quase todas as suas obras no futuro. Reconhecer essas coisas é o melhor passo para encontrar o fio da meada em meio aos simbolismos e provocações surreais.

Vale lembrar que você vai se dar muito mal no universo do diretor se o seu perfil é daqueles que sempre quer ser o sabichão entendedor de tudo, esperando por respostas fáceis. Não se iluda se a satisfação de ter “solucionado” uma ou outra coisa do roteiro pobre e preguiçoso de Lost te deixou entusiasmado: aqui, a lógica medíocre e as respostas sem criatividade para perguntas infantis não têm a mínima chance.

Lynch é muito generoso com a audiência, pois ele provoca com quebra-cabeças, incógnitas e charadas que, no final das contas, deixa-nos preencher lacunas para criar uma versão própria da história, que sempre está se movendo em nossa mente, mesmo depois que a sessão acaba. As tramas têm um andamento linear com começo, meio e fim, com um objetivo mais simples e mundano, assim como os personagens possuem motivações fáceis de reconhecer e acreditar.

Somente em Inland Empire (2006) é que o diretor criou distrações desnecessárias para criar confusão proposital e desviar os fãs da história. Em todas suas outras obras, é possível encontrar aspectos em comum que ajudam a desvendar os enigmas e montar a narrativa com a cronologia de eventos e finalidade das principais imagens e sequências brisadas.

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Daqui em diante, você poderá notar em todas suas obras alguma luz piscando quando há uma presença e/ou intervenção maldosa e/ou sobrenatural. Assistir  a instituições tradicionais sendo  corrompidas com uma atmosfera de mistério e personagens moralmente questionáveis é algo comum nos filmes de Lynch.

Em Eraserhead, o casal Henry e Mary se separa depois da chegada de um filho indesejado. A falta de carinho e consideração com a criança, que sempre está chorando e não se alimenta de nada, só aumenta a sensação de incapacidade e culpa. E as coisas ficam ainda mais sombrias depois que Mary os abandona e o desejo por uma vizinha aumenta. Aí é que ele até começa a pensar em acabar com a própria vida.

A sequência que mais marca o primeiro filme é o momento em que Henry encontra a “Mulher do Radiador” (ou Mulher-Esquilo, como muitos a chamam) cantando: “In heaven… everything is fine” — canção que se tornou cult por conta do filme e da versão que a banda Pixies executava em seus shows.

Embora pareça inocente, essa cena e a letra são um convite para Henry aceitar o falso conforto do suicídio, pois a moça aproveita a vulnerabilidade do rapaz para fazê-lo acreditar que não há outra saída mais fácil e menos dolorosa.

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2. Veludo Azul (1986)

Eraserhead causou tanto impacto nos corredores de Hollywood que logo os produtores que buscavam por novos talentos com forte assinatura autoral começaram a assediar David Lynch. E foi com O Homem-Elefante (1980) e Duna (1984) que o então jovem diretor aprendeu como é difícil dividir seu “bebê” com outras pessoas, ainda mais em estúdios maiores.

Ambos os trabalhos foram considerados fracassos comerciais, entretanto, mantiveram o interesse em Lynch, que começou a dominar seu ímpeto criativo para alçar voos maiores. E é aí que entra Veludo Azul, produção que ganhou destaque extra por conta da escalação dos atores Dennis Hopper e Isabella Rossellini, ao lado de um jovenzinho Kyle MacLachlan, que deram a carga dramática necessária para que as bizarrices do diretor fossem conduzidas de maneira carismática, misteriosa e intrigante — e por que não, um pouco assustadora, certo?

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Em Veludo Azul, um jovem jeca chamado Jeffrey Beaumont (MacLachlan) encontra uma orelha decepada em seu jardim, e, ao lado da filha do delegado, Sandy (Laura Dern), decide investigar o caso por conta própria depois que a polícia desiste de ir mais a fundo. Ambos descobrem os podres de uma cidadezinha aparentemente perfeita.

Na cena escolhida aqui, tudo foi milimetricamente planejado para causar desconforto: desde as cores que não combinam até a assimetria dos elementos na fotografia; a sujeira, o sangue e a destruição no pequeno flat que divide a cozinha com a sala. E o principal, as duas mortes mais originais do cinema: um homem de pé, convulsionando sem vida, enquanto outro sentado e com as mãos presas, aparece sodomizado e asfixiado. Essa situação fica ainda mais estranha porque os mortos, inicialmente, parecem estar vivos.

3. Coração Selvagem (1990)

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Embora não seja o predileto de muitos, Coração Selvagem ajudou a estabelecer o nome de Lynch em Hollywood, com mais uma produção recheada de grandes nomes no elenco: além do retorno de Rossellini e Dern, o filme foi protagonizado por nomes em ascensão, como Nicolas Cage e Willem Dafoe.

Na trama, depois de passar um tempo na prisão, Sailor Ripley (Cage) reencontra sua namorada, Lula Fortune (Dern), e eles viajam para a Califórnia. A mãe de Lula, Marietta (Diane Ladd) não aceita o namoro e contrata um assassino profissional, Bobby Peru (Dafoe), para matar Sailor.

Em determinado momento do road movie, uma mulher acidentada tenta explicar algo, não consegue direito. Ela começa a balbuciar e falar as palavras de forma estranha e incompleta enquanto põe a mão na cabeça. Na verdade, ela estava coçando seu cérebro, depois de a tampa de sua cabeça se romper expor seus miolos após o capotamento.

4. Twin Peaks (1990)

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Lynch ganhou tanto prestígio em Hollywood que a produção do Showtime procurou-o em busca de algo que o diretor pudesse contar de forma bizarra, mas ao mesmo tempo acessível, para um grande público. Assim, juntamente com Mark Frost, ele ofereceu inicialmente a trama de Mulholland Drive, que foi descartada — posteriormente reaproveitada no filme Cidade dos Sonhos, de 2001.

Twin Peaks, então, se tornou um marco para a TV, que antes só dividia as histórias seriadas em dois gêneros: comédia e drama. A série de Lynch, com o mistério da morte de Laura Palmer desvendando uma comunidade cínica e perturbada escondida nos lares perfeitos do American Way of Life — séries como Arquivo X ou Dexter talvez nunca chegassem ao horário nobre, não fosse por Twin Peaks.

É verdade que, depois do sucesso da primeira temporada, que já havia sido “esticada” por Lynch e Frost, as coisas degringolaram um pouco na segunda, pois a trama, que nem mesmo tinha conteúdo inicial para os oito primeiro episódios, precisou se transformar quase em uma novela mexicana de mais 22 capítulos.

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Ainda assim, Twin Peaks foi iconoclasta, e o momento que destaco aqui é ainda da primeira temporada, ou do próprio filme homônimo, em que o detetive pede à mãe transtornada de Laura Palmer para fazer um esforço extra na tentativa de lembrar se havia algo estranho no quarto de sua filha nos dias próximos de sua morte. A mulher fica extremamente perturbada ao resgatar de sua mente a presença do suposto assassino, Bob, em um canto do quarto, olhando para ela.

5. Estrada Perdida (1997)

Desde seus primeiros trabalhos, Lynch já havia mostrado conexões de seus trabalhos com os trabalhos dos psicanalistas Sigmund Freud e Carl Jung — o próprio diretor já falou sobre ambos como referências de várias de suas visões em símbolos e personagens de seus trabalhos.

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Estrada Perdida é o seu trabalho em que isso pode ser visto com mais clareza, especialmente no momento em destaco aqui: quando Mistery Man (ou “Homem Misterioso”), um homem pálido e pequeno, que lembra o anão vestido de vermelho em Twin Peaks, diz a ele que está em dois lugares ao mesmo tempo.

Com isso, a trama confirma a influência Junguiana, que já havia se desenhado com a transferência e separação do quadro inicial, em que o marido Fred Madison (Bill Pullman), sexualmente impotente, de repente, torna-se o amante viril de sua esposa Renee (Patrica Arquette). O Homem Misterioso representa seu “eu” onisciente.

6. A História Real (1999)

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No filme mais convencional de David Lynch, ele abre o coração sobre o que sente depois de ter crescido mudando de cidade constantemente. A ideia inicial veio da história real de Alvin Straight, um veterano de guerra que, em 1994, decidiu percorrer o trajeto de Iowa e Wisconsin, nos Estados Unidos, usando como veículo um cortador de grama.

A sinopse do filme é parecida, entretanto, o próprio Lynch já admitiu que a história tem tudo a ver com sua própria biografia. Isso porque, quando criança, ele precisou mudar constantemente de cidade, por conta do trabalho de seu pai como pesquisador de agricultura do governo dos Estados Unidos, e isso fez com que suas amizades nunca fossem longevas em cada local que morou.

Em A História Real, cada personagem é como se fosse uma dessas amizades, que, embora ele não tenha tido muito tempo para se dedicar, todas tenham sido importantes. Cada uma plantou uma sementinha em sua vida, assim como o velhinho no cortador de grama (Richard Farnsworth) faz com os jovens no filme.

7. Twin Peaks: O Retorno ( 2017)

A terceira e última temporada de Twin Peaks é, basicamente, uma amálgama de todos os temas recorrentes de Lynch. Os personagens que entram e saem da trama, aparentemente sem relevância alguma, também representam seus amigos, assim como em A História Real.

O humor peculiar visto em diversas cenas de Coração Selvagem e nos personagens que o ator MacLachlan interpreta em seus trabalhos (especialmente o Agente Cooper) está em várias cenas longas sem som e edição dos capítulos dirigidos por Lynch nesta terceira temporada.

No episódio sete, que simplesmente quebrou a TV e nunca será superado no entretenimento, Lynch finalmente explica que a definição de maldade recorrente em seus filmes vem da bomba atômica: para ele, é quando a humanidade passou realmente a fazer crueldade extrema de forma completamente deliberada, superando a violência instintiva ao longo dos séculos.