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Crítica Vidas Passadas | Um filme sobre tudo o que poderíamos ter sido

Por| Editado por Durval Ramos | 19 de Janeiro de 2024 às 18h00

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Divulgação/A24
Divulgação/A24

Em sua cena de abertura, Vidas Passadas, filme escrito e dirigido por Celine Song, mostra dois homens e uma mulher sentados no balcão de um bar, enquanto um casal do qual só ouvimos a voz tenta decifrar que tipo de relação eles possuem. O momento, segundo Song, é baseado em uma experiência que ela mesma viveu e que serviu como inspiração para a sua estreia nos cinemas.

Com uma narrativa que se concentra principalmente nas conexões que trazemos de outras vidas e em tudo o que poderíamos ter sido se tivéssemos feito escolhas diferentes, o filme da A24 chega aos cinemas do Brasil no próximo dia 25 de janeiro. Nos EUA, no entanto, ele estreou ainda em junho do ano passado, conquistando boa parte da crítica especializada e se tornando um dos queridinhos das premiações da temporada.

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Estrelado por Greta Lee (The Morning Show), no papel de uma imigrante coreana que mora em New York, por Teo Yoo (Love to Hate You) como sua paixão de infância, e por John Magaro (First Cow - A Primeira Vaca da América) na pele de Arthur, seu marido escritor, o longa-metragem é regido por um conceito coreano chamado de in-yeon – uma palavra que, traduzida ao pé da letra, seria algo como providência ou destino.

A filosofia, explicada no filme pela própria protagonista, diz respeito à conexão que une duas pessoas ao longo de suas muitas vidas. Uma ideia que vem do budismo, e que defende que duas pessoas que já tiveram algum tipo de relação estarão sempre ligadas em suas muitas reencarnações.

O amor puro da infância

Na trama, que se passa nos dias atuais, mas trabalha com flashbacks da vida da protagonista, acompanhamos os passos de Nora, uma escritora nascida e criada na Coréia do Sul até os 12 anos de idade.

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Criança inteligente e dedicada, Na Young (como era chamada na época) viveu seu primeiro amor na Coreia, quando se apaixonou por seu melhor amigo e colega de classe, Hae Sung. Juntos, os dois tinham uma relação de pura cumplicidade e inocência, interrompida brutalmente pela mudança da menina para o Canadá.

Doze anos depois, já trabalhando em New York como escritora, Nora reencontra Hae Sung na internet e passa a conversar diariamente com o rapaz – agora um jovem estudante de engenharia, que pretende passar um tempo na China para aprender mandarim. Por chamada de vídeo, os dois reacendem uma paixão que parecia adormecida, mas que, aos poucos, pela distância geográfica e pelas diferenças culturais, começa novamente a esmaecer.

Para não se machucarem ainda mais, os dois decidem parar de conversar. No entanto, doze anos mais tarde, quando Nora já está definitivamente estabelecida em New York e casada com um escritor por quem é apaixonada, Hae Sung reaparece, avisando que irá passar férias na cidade e que gostaria de vê-la.

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Um reencontro ocorrido 24 anos depois de sua separação e que serve como ponto de partida para que os dois relembrem não apenas as pessoas que eram quando se conheceram, mas tudo o que poderiam ter sido caso suas vidas tivessem tomado rumos diferentes.

Os muitos caminhos de uma vida

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De uma maneira muito delicada e franca, Vidas Passadas é um filme que discute as possibilidades do "e se", pensando nas outras realidades que poderíamos ter vivido se tivéssemos tomado uma decisão diferente ou respondido um sim ao invés de um não.

Embalado pela fotografia tocante de Shabier Kirchner, que coloca os personagens em enquadramentos estratégicos, o filme nos faz refletir sobre os caminhos que não tomamos, mas que poderiam mudar tudo. E, mais ainda, sobre as pessoas que parecem estar destinadas a serem importantes em nossa história, independente da jornada escolhida.

Contando com a leveza e as atuações brilhantes dos protagonistas – que conseguem dizer muito através do olhar – o filme fala ainda sobre a importância de nossas origens, mostrando como elas, mesmo que indiretamente, moldam muito do que somos.

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Em uma das cenas do filme, Arthur chega a contar que Nora fala apenas em coreano quando está dormindo. O que, segundo ele mesmo conclui, tem a ver com essa parte da vida da esposa que ele nunca conseguirá acessar. Uma parte ligada às suas raízes e à sua infância na Coreia que, embora não apareça no dia a dia de Nora, ressurge quando ela se desliga da realidade e mergulha em um lugar de pura fantasia: seus sonhos.

Tocante e reflexivo, Vidas Passadas é uma estreia poderosa de Celine Song, que antes de enveredar pelo mundo do cinema atuava como dramaturga. Premiado em Sundance e em outros festivais mundo afora, ele tem tudo para ressoar ainda muito por aí, seja em premiações da própria indústria ou dentro das pessoas que decidirem assisti-lo.