Crítica | A Ascensão Skywalker é uma maravilha técnica completamente esquecível

Por Rafael Rodrigues da Silva | 23 de Dezembro de 2019 às 10h35

Quando Kathleen Kennedy, a responsável da Disney por toda a franquia Star Wars, tirou o último filme da mais recente trilogia das mãos de Rian Johnson e colocou J.J. Abrams novamente na direção, o fandom da saga se dividiu entre aqueles que comemoraram a decisão por terem odiado Os Últimos Jedi e aqueles que ficaram com receio de que o último filme seria um remake quase que cena a cena de O Retorno de Jedi, assim como O Despertar da Força foi praticamente um remake de Uma Nova Esperança.

Mas, no fim, os maiores medos de ambos se tornaram realidade: ao mesmo tempo que o filme se esforça para fazer algo muito diferente e quebrar algumas expectativas dos fãs nos primeiros dois terços do longa, há também um enorme esforço em fazer um remake de O Retorno de Jedi no final dele. A consequência disso é que nenhuma das duas facções de fãs vai sair totalmente satisfeita ou decepcionada com o filme, que é uma obra bem estranha e confusa até mesmo para os padrões de uma ópera espacial onde existem canhões que destroem planetas, mas a arma mais poderosa da galáxia é uma espada laser.

Cuidado! Daqui em diante este texto pode conter spoilers de Star Wars: A Ascensão Skywalker. Leia por sua conta e risco!

Numa galáxia muito, muito estranha

(Imagem: Reprodução/Disney)

O estranhamento com o filme já começa nos tradicionais créditos iniciais, aquele texto em movimento que serve como introdução para todos os filmes de Star Wars. Mesmo que desde os trailers já saibamos que Palpatine seria uma presença importante no filme, as primeiras palavras dos créditos serem “os mortos falam!” é uma enorme surpresa — e não do tipo bom. Nesse momento já fica bem claro o que podemos esperar do filme: uma tentativa de desfazer tudo aquilo que Os Últimos Jedi tentou inserir na saga (ainda que com falhas) e uma retomada de tudo aquilo que os fãs mais raivosos e barulhentos das redes sociais acreditam ser o “verdadeiro Star Wars”. Entre esses pedidos, muitas vezes há uma confusão entre “fazer jus aos sucessos do passado” e “repetir esses sucessos sem qualquer mudança”. E é justamente no meio da confusão entre essas duas definições que A Ascensão Skywalker parece ter se aconchegado e chamado de lar.

Desde o começo fica claro que não só os diretores, roteiristas e produtores do filme estavam prestando atenção em comunidades online como o Reddit, como talvez eles estivessem prestando atenção até demais. Isso porque não apenas o filme tenta o tempo todo atender aos pedidos desses fãs (basicamente, desfazer todas as novidades que Johnson havia tentado introduzir em Os Últimos Jedi) como tenta fazer isso ao transformar em cânone algumas das piores teorias de fãs possíveis, o que faz com que boa parte do filme se pareça menos com um longa de Star Wars feito por profissionais de cinema e mais com uma obra feita por fãs para um canal do YouTube, mas com orçamento alto o suficiente para contratar bons atores e efeitos especiais de ponta.

Algumas das mudanças feitas para esse filme são quase que criminosas de tão sem noção. Uma delas é no tratamento à personagem Rose Tico, interpretada por Kelly Marie Tran. Depois de ficar dois anos sofrendo assédio dos fãs mais raivosos, que praticamente a obrigaram a abandonar todas as redes sociais, a personagem — que no filme anterior ganhou tanto tempo de tela quanto Finn e Poe — se apareceu durante um minuto durante todo o filme foi muito, falando apenas meia dúzia de palavras e todas elas eram algo como “sim senhor!”.

A impressão que a produção do filme passou é que, se uma comunidade online se junta para assediar um dos atores, eles só vão proteger essa comunidade e tirar o ator de cena porque os dólares valem muito mais do que a dignidade do elenco — uma noção muito perigosa de se criar, principalmente em um mundo onde é cada vez mais normal as pessoas se juntarem para abusar de atores nas redes sociais por motivos banais como “não gostei do personagem”.

(Imagem: Reprodução/Disney)

Outro grande problema é a relação entre Poe e Finn: enquanto os dois primeiros filmes dão indícios de que a relação entre eles pode ter algo além da simples amizade (até mesmo chegando bem próximo de criar uma relação romântica), o terceiro filme “dinamita” tudo isso, acabando com as nuances de flerte que sempre existiram entre ambos e transformando a relação no clássico “bromance” hétero. Não contentes em acabar de vez com qualquer possibilidade desse relacionamento, ainda há a introdução de duas novas personagens (interpretadas por Keri Russell e Naomi Ackie) que são literalmente Poe e Finn “de saia”, sendo rapidamente transformadas em possíveis interesses amorosos dos heróis com menos de cinco minutos de cena — o que não apenas é um clichê terrível, como é de uma qualidade digna das piores fanfics da internet.

Ao mesmo tempo, ainda que a relação entre Rey e Kylo tenha seguido o caminho já traçado em Os Últimos Jedi — a de que eles são inimigos pelas circunstâncias, mas não necessariamente porque se odeiam —, a conclusão desse relacionamento acaba canonizando algumas das teorias mais sem graça existentes no Reddit — mais precisamente, teorias sobre “yin/yang” e sobre o parentesco da Rey com um importante Sith. E mesmo que, no geral, o arco de redenção de Kylo e o de descoberta de si mesma de Rey seja completado de maneira até que satisfatória (tendo em vista de onde cada um desses personagens começou a história), o modo como ele se desenvolveu para ambos foi muito estranho: enquanto o de Rey de repente insere algumas informações que parecem surgir do nada, o de Kylo não explica direito porque ele resolveu abandonar o caminho que sempre trilhou para voltar à luz. Ainda que o tempo todo o líder da Primeira Ordem nunca tenha parecido ter certeza de seu papel como Sith, a decisão sobre quem ele realmente é foi, assim como todo o resto do filme, muito apressada e sem muita lógica, ainda que na hora ela pareça fazer sentido.

E isso acontece por conta de outro ponto que torna A Ascensão Skywalker um filme estranho: o ritmo da narrativa. Enquanto os outros filmes da franquia sempre seguiram um estilo de narrativa dos antigos westerns (algo bem cadenciado, com momentos de ação intenso separados por períodos de calmaria que servem como espaço de reflexão e “respiro” entre uma cena de ação e outra), o nono episódio se parece mais com uma CG de videogame de duas horas e vinte minutos, onde até mesmo as conversas mais banais entre personagens precisam acontecer sob um pano de fundo de ação, seja um duelo de sabres de luz, uma perseguição por stormtroopers ou apenas correndo de um lado para outro enquanto preparam as tropas para uma nova batalha. A todo momento somos bombardeados por uma nova cena de ação, uma nova aparição de personagem, uma nova explosão que coloca os personagens em perigo — e, mesmo assim, este é talvez o filme de toda a saga com menos momentos marcantes, daqueles que ficam na memória e faz você se lembrar com um sorriso no rosto quando está sozinho pensando na vida.

(Imagem: Reprodução/Disney)

Ainda que a ação constante sirva para esconder muitos problemas do filme e torne a experiência de ter pago o ingresso do cinema palatável, ela é apenas um paliativo e rapidamente perde o efeito quando se tenta parar para refletir sobre o que vimos em tela. Pois, se Star Wars é que nem pizza, no sentido de que até quando é ruim é bom, A Ascensão Skywalker é aquela que você comprou em promoção no único lugar aberto às 4 da manhã quando estava voltando para casa bêbado: no momento você se lambuzou de comer e ficou se perguntando como alguém vendia uma pizza tão boa por um preço tão barato, mas, quando na manhã seguinte você vai requentar o último pedaço na geladeira para servir de almoço, é que percebe porque aquela pizzaria tem uma classificação de apenas duas estrelas e meia no iFood, pois sem o efeito do álcool ela se torna quase que intragável, ainda que você consiga notar que o molho usado é de qualidade e está bem temperadinho.

E, nessa analogia, o “molho” são aquelas poucas partes do filme que se salvam. Ainda que a batalha final seja uma refilmagem daquela mostrada em O Retorno de Jedi, com os poucos guerreiros da Resistência lutando uma batalha impossível até receberem uma ajuda improvável para salvar o dia de mais uma ameaça destruidora de planetas, ao menos o filme fez juz ao que significa ser um “rebelde” em Star Wars: o Império (ou a Primeira Ordem) que são o grupo militar, disciplinado e treinado para combate; a Resistência (ou a Aliança Rebelde) são apenas pessoas normais que querem viver suas vidas em liberdade, mesmo que precisem colocar suas vidas em jogo para que as próximas gerações possam desfrutar disso. E a fala de Maz Kanata, que, antes da luta final, é repetida por Poe Dameron — “Eles ganham ao te fazer acreditar que você está sozinho” — consegue condensar em cerca de uma dúzia de palavras todo o sentimento que é a base da saga, o porquê de essas pessoas continuarem lutando e se recusando a se render a um inimigo muito mais poderoso durante todo esse tempo. Essa é uma frase que já nasce clássica desde a primeira vez que é falada na tela, e muito provavelmente será bastante utilizada por pessoas do mundo todo em situações reais — principalmente em uma época em que ameaças como o fascismo e o nazismo começam a ressurgir.

Essa também é uma realidade para o final do arco de Rey. Ainda que o filme se contradiga ao tentar resolver a história da personagem (ao mesmo tempo que defende a ideia de que existem coisas mais fortes que o sangue e que não é a sua família que irá decidir quem você é, também coloca muita ênfase na importância da personagem escolher um sobrenome, uma família à qual ela pertence), a ideia de ela no final representar todos os Jedi que vieram antes dela é algo muito poderoso. Um tanto piegas o fato de ela ter que gritar isso aos quatro ventos como se o público não fosse capaz de perceber isso se ela não verbalizasse, mas mesmo assim poderoso. E, mesmo que toda a sequência final esteja cheia de problemas, este em específico não foi um deles.

Uma perturbação na Força

(Imagem: Reprodução/Disney)

Como já deixamos claro aqui, A Ascensão Skywalker é muito mais um filme estranho do que propriamente ruim — estranho porque não se parece em nada com qualquer outro filme da saga, mesmo que por muitas vezes tente imitá-los. Ao invés de entregar um final que consiga fechar com louvor a saga mais importante e famosa dos cinemas, o resultado é um filme todo desconjuntado que reside no estranho meio-termo entre agradar os fãs mais conservadores e abrir caminhos para novas possibilidades de histórias, conseguindo fracassar em ambos os aspectos.

Ainda que em muitos momentos perceba-se que há uma intenção interessante por trás de algumas escolhas, ela não consegue ser transmitida para a tela, fazendo de A Ascensão Skywalker não o pior filme da saga, mas o menos memorável e mais esquecível dela — e, para uma obra que deveria finalizar 42 anos de histórias, esse talvez seja o único pecado imperdoável dele.

Gostou dessa matéria?

Inscreva seu email no Canaltech para receber atualizações diárias com as últimas notícias do mundo da tecnologia.