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Crítica Raquel 1:1 | Filme nacional acerta ao falar de religião e feminismo

Por| Editado por Jones Oliveira | 23 de Março de 2023 às 16h10

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Divulgação/O2 Play
Divulgação/O2 Play

Antes mesmo de estrear no Brasil, Raquel 1:1 já vinha sendo reconhecido internacionalmente. O filme escrito e dirigido por Mariana Bastos representou o país de origem no South by Southwest (SXSW) de 2022 e no 37º Festival Internacional de Guadalajara, no México, além de outros festivais na Europa. Mas, afinal, o que essa história nacional tem para conquistar tanto a crítica?

Primeiro é preciso dizer que o longa foi bem escrito e soube conduzir o enredo de forma adequada, mesclando religiosidade e crítica social sem perder o tom. O texto simples de Mariana, é também carregado de simbolismo e conduz o espectador a pensar qual é o papel de uma religião na sociedade e o que significa ser cristão. Além disso, ela se debruça sobre o feminismo e a importância das mulheres, tudo isso, na voz de Valentina Herszage, atriz que já estrelou a série Hebe e as novelas Pega Pega e Quanto Mais Vida, Melhor!

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Na trama, a atriz dá vida à Raquel, uma jovem de 15 anos que se muda para uma cidade do interior para morar com o pai. Tímida e traumatizada por eventos que aconteceram em seu passado—e que só são revelados na metade do filme— ela tenta fazer amizade com as meninas da mesma idade que fazem parte de uma igreja evangélica.

Pouco a pouco, então, Raquel vai sendo inserida naquela comunidade, e começa a frequentar uma célula (grupo de jovens que se reúnem para estudar o evangelho). Acontece que ela se sente incomodada com a forma como a Bíblia é interpretada, especialmente, no que diz respeito à submissão que as mulheres devem ter, e começa a questionar tais escrituras.

Embora receba apoio de algumas colegas e até comece um novo grupo de estudos, Raquel passa a ser lida por muitos da pequena cidade como uma herege amaldiçoada que só veio trazer desgraças para o município.

É a partir dessa premissa que a diretora constrói o suspense do filme. Não dá para negar que na primeira meia hora de tela ele é um tanto quanto forçado, e se firma como aquele tipo de tensão que quer deixar o espectador apreensivo a qualquer custo.

Mas, à medida que a trama avança, no entanto, Mariana acerta o passo. Um ponto positivo, foi a forma como ela escolheu contar como a mãe de Raquel morreu. Por meio de áudios que vão se intercalando com a história, descobrimos que a mulher era vítima de violência doméstica e sofreu um acidente de carro quando estava com o namorado.

O fato foi bem explorado na tela, e ajudou a construir a personalidade de Raquel e torná-la uma adolescente apática e um tanto quanto assustada. A atriz Valentina soube dar a intensidade exata que a protagonista pedia, e com certeza, foi um acerto no elenco.

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Coadjuvantes: uns acertam, outros não

Por falar em personagens, em Raquel 1:1 além de Valentina há outras boas apostas no elenco, como Eduarda Samara que vive Laura, a amiga mais próxima da protagonista. Com um gancho interessante, ela é um acerto e sua trama serve para mostrar como a intolerância religiosa pode ser perigosa e cruel.

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O veterano Emílio de Mello (O Rei da TV, Cazuza, Cordel Encantado), que vive o pai de Raquel, também não decepciona, e entrega a boa atuação que já é esperado do seu trabalho. Outro que agrada é Ravel Andrade, como o noivo possessivo de Laura. Alguns coadjuvantes, porém, derrapam e entregam uma atuação meio “canastrona”, especialmente o núcleo jovem do filme, fato que pode ser explicado pela pouca experiência em cena.

Você diz “amém” para tudo?

Apesar dos erros e acerto, o principal êxito do filme não está no elenco, e sim na forma como Mariana conseguiu conduzir o roteiro. Ela soube fazer uma crítica que extrapola o viés de uma religião específica—neste caso a evangélica— para questionar o que significa realmente ser cristão.

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Quando Raquel começa a fazer suas primeiras críticas às escrituras sagradas, ela logo é banida do convívio social da cidade e hostilizada. Afinal, para crer em Deus é preciso aceitar tudo sem questionar? Essa provocação fica na cabeça do espectador, que a depender da sua religião, vai recebê-la bem ou mal.

Laura também é hostilizada na família, quando sofre violência sexual do namorado, e seu pai prefere acreditar no rapaz do que nela. Além de não apoiar a filha, ainda a agride fisicamente. Tanto ela quanto Raquel, e quaisquer outras meninas que venham questionar a Igreja, serão banidas e não acolhidas.

Final mal explorado

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Se o texto e o elenco agradam—com algumas ressalvas— o final de Raquel 1:1 deixa um pouco a desejar e parece um tanto quanto apressado, no melhor estilo “vamos acabar isso logo”. A parte que ela e Laura são surpreendidas por bandidos, e o final na igreja ficam soltos e fazem o espectador perder a atenção.

De todo modo, é impossível negar que o filme seja bom. A escolha do título também foi acertada, fazendo referência à personagem bíblica filha de Labão, e o 1:1 se referindo ao fato dela estar reescrevendo a Bíblia (e este ser o primeiro capítulo e o primeiro versículo de sua história).

Com boa direção e roteiro, uma fotografia que agrada e um suspense que acerta o passo à medida que o filme se desenrola, Raquel 1:1 merece uma chance de ser assistido. Quem quiser, pode conferi-lo nos cinemas; para garantir a entrada, basta comprá-la pelo ingresso.com.