Crítica | Princesa Mononoke é o maior épico das animações

Por Sihan Felix | 19 de Março de 2020 às 11h11
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Considerado por muitos como a obra-prima máxima da Hayao Miyazaki, Princesa Mononoke (disponível na Netflix) é a animação que fez o Studio Ghibli alcançar uma notoriedade não somente de culto, mas de uma abrangência clássica e, ao mesmo tempo, épica. Se nos anos anteriores Miyazaki já havia realizado masterpieces mais íntimas ou de uma grandiosidade discreta – como O Castelo no Céu (de 1986) e Meu Amigo Totoro (de 1988) –, foi no conto epopeico guiado por Ashitaka que o gênio japonês assinou seu nome na história, na eternidade.

Essa mesma animação, que é precedida pelo lindíssimo Porco Rosso: O Último Herói Romântico (de 1992), sedimentou o nome de Miyazaki em meio à cultura estabelecida do outro lado do planeta. Assim, enquanto a Disney construía um repertório de jovens clássicos – de A Pequena Sereia (de Ron Clements e John Muskerde, 1988) a O Rei Leão (de Roger Allers e Rob Minkoff, 1994) e de Pocahontas (de Mike Gabriel, Eric Goldberg, 1995) a Tarzan (de Chris Buck e Kevin Lima, 1999) – Miyazaki abria caminho com Princesa Mononoke no meio das animações assim como ...E o Vento Levou (de Victor Fleming, George Cukor e Sam Woodo, 1939) fez na história do cinema: com impacto e uma intocável integridade.

Essa trajetória culminaria poucos anos depois, com A Viagem de Chihiro (de 2001) recebendo o Oscar de Melhor Animação contra A Era do Gelo (de Chris Wedge, Carlos Saldanha, 2002), Spirit, o Corcel Indomável (de Kelly Asbury e Lorna Cook, 2002) e dois filmes da Disney: Lilo & Stich (de Dean DeBlois e Chris Sanders, 2002) e Planeta do Tesouro (de Ron Clements e John Musker, 2002). Nesse meio-tempo, a Pixar já iniciava a sua escalada, vencendo seu primeiro Oscar no ano seguinte com Procurando Nemo (de Andrew Stanton e Lee Unkrich, de 2003).

Cuidado! A crítica pode conter spoilers!

Um caminho mais bonito para a vida

Todas as informações anteriores podem ser relevantes de algum modo porque Princesa Mononoke é uma obra-fim, aquela que une a todas, realizadas e a serem realizadas, e o faz com uma consciência absoluta. Miyazaki explora a ganância do homem – com sua industrialização –, o amor impossível, a luta do bem contra o mal, mitos (do seu país, o Japão), a história da humanidade, o respeito pela natureza e o quanto ela é necessária para a manutenção da vida... e tudo com uma habilidade quase sobre-humana. Nessa condução que abrange com complexidade todos os temas aos quais se propõe, Miyazaki sintetiza os valores das animações de sua época, propõe os seus valores pessoais e faz desse seu trabalho uma experiência completa. Particularmente, vejo Princesa Mononoke como o que o cinema fez de mais absoluto pelo menos nos últimos 40 anos.

Ashitaka é uma espécie de representação da justiça, compreendendo um embate filosófico que coloca Jean-Jacques Rosseau e Thomas Hobbes em corners diferentes: De um lado, a crença em uma humanidade que nasce boa e a sociedade – que é má – a corrompe (Rosseau); do outro, o entendimento de que o homem nasce mau – com instintos de sobrevivência – e a sociedade tem o papel de educá-lo, de humanizá-lo e de torná-lo sociável (Hobbes).

Ashitaka e o embate filosófico. (Imagem: Studio Ghibli)

A luta de Ashitaka não é por si. Ele acaba por se revelar um herói altruísta, que busca a conciliação entre os lados de uma guerra e, assim, esquece-se da maldição infligida a ele mesmo. E tudo é construído de uma forma tão simples e generosa por Miyazaki que a aura de filosofia acadêmica se torna nada mais do que um caminho mais bonito para vida – a demonstração de quão grandioso pode ser alguém que se preocupa com algo mais além dos próprios desejos.

Essa complexidade, aliás, é diluída em cenas de ação multicoloridas que cedem à grandiosidade dos temas um elemento de lirismo, uma rima visual sufocante: se o conteúdo é universal, então a amplitude da batalha que se vê é tão gigante quanto o mundo – algo que adiciona elementos de horror por meio da violência.

Sem perdão

Ainda, em todas as batalhas, há uma quase reverência aos westerns mais sensíveis de John Ford, como Sangue de Heróis (de 1948) e Crepúsculo de Uma Raça (de 1968). A terra de ninguém – que na verdade tem dono – é palco para o estabelecimento de toda a ação e, ao mesmo tempo, onde se desenvolvem todas as discussões humanistas. E tudo é trilhado dentro de uma unidade sólida, contornada pelas cores vivas que parecem buscar o otimismo perdido dentro das veias de Ashitaka.

No final das contas, San – a Princesa Mononoke – pode não ser, à primeira vista, a protagonista, mas ela é a aura do próprio filme: "Eu te amo, Ashitaka, mas não posso perdoar os humanos". A representação da natureza por uma menina criada por lobos pode não ter relações claras com os gêmeos mitológicos Rômulo e Remo (resgatados e criados por uma loba), mas pode causar reflexão sobre a sede de poder do Império Romano, originado de alguém (Rômulo) criado igualmente por uma vida selvagem. Afinal, qualquer um de nós é fruto de uma força inconsciente e consistente que vem sendo cruelmente exterminada, especialmente desde a industrialização.

San: a aura do filme. (Imagem: Studio Ghibli)

O fim sendo construído

Princesa Mononoke é, enfim, uma fábula que traz o que o universo de Miyazaki e do Studio Ghibli tem de melhor. Mesmo assim, é triste perceber que, no mundo real, o poder silencioso da natureza não tem a força de San, o que torna a relação entre homem e essa sua mãe desigual e cruel. Mas, por outra perspectiva, o desgaste de tudo pode ser um revide, porque, talvez, quando tudo parecer exterminado, somos nós que estaremos assinando nosso próprio fim.

"Não adianta, no final, os tolos sempre vencem". Até perceberem que há derrota nessa vitória... e aí será tarde demais. "Todo mundo quer tudo. É assim que o mundo é". Até terem nada e o mundo nem mais ser.

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