O ciclo da vida: 25 anos de O Rei Leão

Por Sihan Felix | 18 de Julho de 2019 às 13h50
Disney

“Ser ou não ser, eis a questão.
Em nosso espírito sofrer pedras e setas
Com que a fortuna, enfurecida, nos alveja
Ou insurgir-nos contra um mar de provocações
E em luta pôr-lhes fim? Morrer... dormir: não mais.
Dizer que rematamos com um sono a angústia
E as mil pelejas naturais-herança do homem:
Morrer para dormir... é uma consumação
Que bem merece e desejamos com fervor [...]"

O Rei Hamlet da Dinamarca tem um filho, o príncipe Hamlet. Cláudio, tio do herdeiro e irmão de Hamlet da Dinamarca, cego pela cobiça e desejoso pelo poder, arquiteta a morte do rei (que reapareceria em espectro). Enquanto isso, a probabilidade de invasão da Dinamarca pela vizinha Noruega acende.

O rei Mufasa tem um filho, o príncipe Simba. Scar, tio do herdeiro e irmão de Mufasa, cego pela cobiça e desejoso pelo poder, arquiteta a morte do rei (que reapareceria em espectro) e, junto a uma alcateia de hienas, planeja invadir e tomar posse do reino.

No afastado início do século 17, era encenada, pela primeira vez, a tragédia Hamlet, de Shakespeare. Quase quatro séculos se passaram até que, em 1994, O Rei Leão surgiu nos cinemas e, com uma narrativa claramente inspirada na obra shakespeariana, fascinou espectadores de todo o planeta. Há 25 anos, um discurso do Bardo arrebatou crianças, jovens e adultos de cada cinema ao redor da Terra. Mesmo que muitos não pudessem imaginar que estavam assistindo a um relato do maior escritor em língua inglesa de todos os tempos, eram absorvidos pela força de uma história atemporal e verdadeiramente inesquecível.

"É, mas não é fácil."

Se a direção de Roger Allers (em seu primeiro trabalho) e Rob Minkoff (que nunca havia dirigido um longa) parece seguir um caminho natural e a construir relações de muita humanidade entre paisagens e personagens – a grandeza de Rafiki levantando Simba e tudo que cerca a ocasião é algo já eterno –, o roteiro do habilidoso trio formado por Irene Mecchi (estreante em longas), Jonathan Roberts (da esquecida comédia de horror Procura-se Rapaz Virgem) e Linda Woolverton (de A Bela e a Fera) segue a clássica jornada do herói, desconstruindo a dificuldade que é adaptar algo tão intenso e, sem dúvida, pesado para que a substância do texto do mais influente dramaturgo da história apaixone crianças (e não somente).

(Imagem: Walt Disney Studios Motion Pictures)

O herói que vai a uma aventura de redenção e retorna transformado (conceito simplificado da dita jornada do herói) tem sua personificação clara em Simba. Ao mesmo tempo em que as cores iniciais vibrantes e a reverência dos animais ao seu nascimento demonstram um certo bem-estar do reino, há, ao longe, o contraste escurecido, onde o sol parece nunca tocar. A frieza metafórica de onde vive Scar (personagem que merece uma matéria à parte tamanha a sua complexidade) é construída em um diálogo preparatório que Simba – ainda uma criança – tem com Mufasa. Nesse momento, ele (Simba) descobre que tudo aquilo que o sol toca é permitido, restando somente a área escura – "além da fronteira".

(Imagem: Walt Disney Studios Motion Pictures)

Mas, sem demora, Simba conhece as trevas de sua própria vida. Ela (a vida), a esse ponto, transforma-se em uma área sombria. Perder quem se ama é como se fechar em uma escuridão interna. Shakespeare demonstrou isso praticamente em cada trabalho seu. Surge o medo, a queda que parece sufocar. O que será depois? Deixar de ser um inteiro para viver sendo meio? Acostumar-se à falta, à saudade infinita?

(Imagem: Walt Disney Studios Motion Pictures)

Às portas do fim e de mãos dadas com a tristeza, surge um novo começo e a felicidade encarnada. A mudança ergue-se justamente do contraste. Enquanto Simba era um poço de agonia e frustração, Timão e Pumba são a esperança, outra chance: a força da mudança. Logo, Rafiki, o sábio, diz: “Ah! Mudar é bom!” Eis que Simba rebate: “É, mas não é fácil. Eu sei o que tenho que fazer, mas, se eu voltar, terei que enfrentar o meu passado. E eu tenho fugido há tanto tempo...”

A vida passa a fazer sentido

Fugir, tema tão impregnado na obra de Shakespeare – fugir da morte, da vida, dos outros e de si –, é tratado em O Rei Leão como uma revolução. É algo natural, visto que a coragem para enfrentar jamais depende de quem foge e, sim, de como essa vida única foi direcionada a acreditar. Fugir deixa de ser uma opção para Simba a partir do momento em que ele percebe os outros e não quando ao olhar para o espelho. "Narciso acha feio o que não é espelho" (Caetano Veloso e David Byrne), mas Simba não. Ele só estava vendado pela dor e hipnotizado pela falsa calmaria. Seja o espectro de Mufasa, o reencontro com Nala ou Rafiki, o contraponto, a crítica à fuga, dá-se no trato com os outros. Entender o mundo é uma construção social.

(Imagem: Walt Disney Studios Motion Pictures)

O retorno de Simba, mais forte, mais vivo, ainda rima no meio da narrativa com a própria história de Pumba, que tem seu trecho dramático – aquele que revela a rejeição que ele (Pumba) enfrentou – tratado como um bem-vindo alívio cômico em meio ao caos de um drama inglês com, hoje, mais de 400 anos. Esse retorno, como dito, não inicia dentro, mas fora, pelo outrem. Até Simba perceber-se como não somente uma semente, mas também como o próprio solo e, a partir disso, sonhar em avançar para alcançar a luz, a intervenção é necessária. E, claro, como bom romance, o peso maior é Nala.

(Imagem: Walt Disney Studios Motion Pictures)

Simba, então, segue para uma última parte de sua jornada do herói, aquela em que deixa de se sentir um grão, uma semente, e passa a ser fruto, o fruto de uma construção internalizada e prestes a explodir. Simba agora é a honra do pai, a força da mãe, a leveza de Timão e Pumba, a sabedoria de Rafiki, a postura de Zazú, a fúria da vingança, a esperança de um reino e, acima, o amor por Nala. Seguir em frente após anos de somente Hakuna Matata, sem saber do amanhã, deixou de apavorá-lo, porque ele entende agora a sua função... a vida passa a fazer sentido.

Que haja o ciclo da vida...

Apesar de, em uma primeira leitura, O Rei Leão retratar a eterna luta do bem contra o mal, a animação vai, passo a passo, sedimentando o ciclo da vida (representado pelo próprio Simba) e a descoberta do tempo e das responsabilidades individuais. Nesse sentido, a jornada do herói passa a ser uma jornada bíblico-histórico-mitológica, com o jovem leão, inclusive, vagando solitário em meio ao deserto, em privação de água e alimento. Um herói que, ainda tão pequeno, já se afoga em uma pré-redenção. Uma dualidade expressada paulatinamente na difícil decisão de esquecer ou enfrentar o que ficara para trás.

O Rei Leão não é a mais longa animação da Disney assim como Hamlet é para as tragédias de Shakespeare. Talvez não seja, também, a que deu mais trabalho para ser finalizada, como foi Hamlet àquela época. Mas, se o drama teatral inglês é um dos mais poderosos e influentes, o filme de Allers e Minkoff (e de cada artista que trabalhou em sua produção) é, provavelmente – ou para muitos –, a melhor e mais poderosa animação já realizada.

Péricles Ramos, um respeitado crítico literário brasileiro falecido dois anos antes da estreia de O Rei Leão, escreveu o seguinte trecho sobre Hamlet: “Cada posição crítica aponta para uma faceta de um todo e, juntas, possibilitam uma apreciação global. Não se pode analisar Hamlet a partir de um ponto de vista estritamente psicológico, ou político, ou ético, ou social, porque todos eles são válidos, as abordagens são múltiplas e os problemas contidos na peça são complexos e universais.”

Guardadas as suas proporções, o mesmo pode ser dito de uma animação, um filme, uma obra de arte que deve ser apreciada e desvendada vez por vez. Sendo, ainda hoje, 25 anos após o seu lançamento oficial, indiscutivelmente indicada para toda e qualquer geração que teve e não teve a oportunidade de testemunhar, O Rei Leão deve permanecer justamente como um ciclo: sem fim.

(Imagem: Walt Disney Studios Motion Pictures)

E eu, pessoalmente, finalizo esse texto me deixando transbordar. Mas talvez sejam somente ciscos nos olhos – muitos... e bem grandes.

Que haja o ciclo da vida. E que seja sem fim!

*Texto dedicado à pessoa que um dia me inseriu de corpo e alma no cinema infantil, a professora, colega e amiga Milene Figueiredo

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