Crítica | Por um Corredor Escuro é terror para não passar despercebido

Por Laísa Trojaike | 21 de Janeiro de 2021 às 20h10
Summit Entertainment

De 2018, Por um Corredor Escuro (Down a Dark Hall) é a prova de que filmes muito bons podem passar despercebidos e que não apenas de estreias do ano vive um bom catálogo de streaming. Além disso, Por um Corredor Escuro cria outro marco notável na carreira do diretor Rodrigo Cortés, que chamou a atenção ao fazer o excelente Enterrado Vivo (2010), mas teve a sua popularidade afetada pelas suas produções seguintes, os pouco empolgantes Apartamento 143 (2011) e Poder Paranormal (2012).

Por um Corredor Escuro demonstra um tremendo amadurecimento de Cortês, que dirige um roteiro escrito a seis mãos e que funciona muito bem por agregar as experiências de cada um: Michael Goldbach, de Nação dos Sonhos, traz o trabalho com adolescentes problemáticas; Chris Sparling, de Enterrado Vivo e O Mar de Árvores, é o provável responsável pela sobriedade do roteiro; enquanto Lois Duncan, de Eu Sei o que Vocês Fizeram no Verão Passado, pode ter sido a "culpada" por trazer uma vibe anos 1990 para o filme.

Imagem: Reprodução/Summit Entertainment

Por um Corredor Escuro tem seus clichês, claro, mas ainda assim consegue ser um ótimo terror, até mesmo um pouco imprevisível. Sem um foco em querer nos assustar com jump scares a todo momento, este é um filme muito mais interessado em contar uma história assustadora, que, se refletida, pode ganhar desdobramentos ainda mais interessantes e assombrosos. Sob essa perspectiva, é difícil entender como Por um Corredor Escuro, lá em 2018, perdeu espaço nos cinemas, que exibiram verdadeiras bombas como Verdade ou Desafio e A Maldição da Casa Winchester.

Atenção! A partir daqui, a crítica pode conter spoilers.

Essência

Ao assistir Por um Corredor Escuro em 2021, não pude deixar de notar que o filme lembra bastante — ainda que com adolescentes e uma atmosfera de Mansão Xavier — o clássico Suspiria, de Dario Argento, em que internas de uma academia começam a morrer misteriosamente, revelando, através da curiosidade da protagonista, qual é o mal que se esconde nas entranhas daquele lugar. A referência vai além do tema, com Por um Corredor Escuro fazendo homenagem ao terro gótico e, ao mesmo tempo, ao terror dos anos 1990 (as personagens femininas e o figurino, inclusive, não nos deixam esquecer de Jovens Bruxas).

Imagem: Reprodução/Summit Entertainment

O elenco chama bastante a atenção e todas as atrizes estão ótimas interpretando adolescentes, mas o destaque não poderia ser para outra pessoa que não Uma Thurman, uma das principais responsáveis pelas quebras de expectativa da história, com nuances de interpretações que vão da crueldade e da rigidez à amabilidade e à compreensão, criando uma personagem complexa e que, ao fim, não se tornará unidimensional: ainda que os demais professores da academia, incluindo o seu filho, se voltem contra ela, sua crença de que não está fazendo algo errado conduz sua personagem para uma morte merecida, mas nem por isso menos complexa.

Por um Corredor Escuro está longe de ser um filme incrível ao ponto de ser considerado um dos melhores do ano — o que é ainda mais difícil se lembrarmos que 2018 é o ano de Hereditário —, mas é uma excelente descoberta em um ano que seguimos esperando por novos bons filmes de terror. Além disso, hoje muito mais do que antes, tem-se popularizado, nos cinemas e nas séries, a destruição das imagens idealizadas de grandes ícones históricos, como aconteceu recentemente em Soul, e é nisso que provavelmente podemos encontrar o melhor de Por um Corredor Escuro.

Imagem: Reprodução/Summit Entertainment

Não conheça seus ídolos

Em algumas obras, como Brooklyn 99, não conhecer os grandes ídolos é praticamente uma regra, isso porque costumamos idealizar artistas por seu trabalho, mas esquecemos que, para além de artistas, são pessoas e, como tal, podem ser completamente diferentes do que esperávamos. Por um Corredor Escuro propõe essa ideia que, se não é original, é única entre os filmes de terror mais populares dos últimos anos e com isso consegue o destaque necessário para não soar clichê ou repetitivo, e, o mais importante, ajudar a desmistificar a noção generalizada de que os gênios são pessoas necessariamente mais elevadas.

Os roteiristas de Por um Corredor Escuro acabaram não optando por personalidades mais conhecidas, como os citados Mozart ou Beethoven, porque isso também os ajuda a fugir dos clichês e dá aos espectadores caminhos para conhecer e questionar artistas que são bastante menos populares, mas que figuram nos livros de história.

Imagem: Reprodução/Summit Entertainment

As atuações são boas, a direção é interessante, a direção de arte é belíssima, a fotografia mais que competente… Por um Corredor Escuro é um bom filme se colocarmos todos os aspectos técnicos em uma balança, mas realmente me agrada muito mais a temática do filme. Fantasma é um tema muito comum no terror, mas não são muitas as vezes que os fantasmas são artistas. A ideia de incorporar em alguém para dar continuidade à sua obra, interrompida por uma morte prematura, é de fato uma ideia maravilhosa e poderia ser expandida em outros filmes ou até mesmo em uma série.

Nessa ideia, o terror se multiplica: a existência dos fantasmas e o fato de usarem corpos vivos para entregar novas obras soma ainda o terror de uma mente conturbada, como era a de muitos artistas e é nesse ponto que Por um Corredor Escuro se enfraquece: não há espaço na narrativa para que tomemos muito conhecimento dos tormentos que as adolescentes coadjuvantes estão vivendo. É possível imaginar toda sorte de narrativas e possibilidades estilísticas que esse tipo de relação com o mundo dos mortos poderia gerar, já que o roteiro nem sequer se atreveu a entrar em questões como uso de drogas (lícitas ou ilícitas) ou tormentos pessoais dos artistas.

Por um Corredor Escuro é uma excelente opção para quem quer ver um terror diferente, com um ar mais fresco e sem a previsibilidade absurda que a maioria dos roteiros do gênero costuma trazer. Para além disso, Por um Corredor Escuro ainda serve como um incentivo para que passemos a buscar por títulos que ficaram para trás e que, às vezes, podem nos oferecer muito mais do que um novo filme feito quase que exclusivamente para saciar nossa sede por novidades diárias.

Por um Corredor Escuro está no catálogo da Netflix.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Canaltech.

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