Crítica | Pieces of Woman: uma correção da mitologia

Por Laísa Trojaike | 12 de Janeiro de 2021 às 10h30
Netflix

O diretor Kornél Mundruczó, mais conhecido pela repercussão de Deus Branco, estreou seu novo título, Pieces of Woman, diretamente no catálogo da Netflix, provando que a plataforma tem, sim, lançado também títulos cult para os fãs do cinema europeu. Pieces of Woman é uma excelente obra de transição para quem quer conhecer algo diferente sem fugir muito das produções norte-americanas, já que este é um filme que o diretor húngaro gravou nos EUA com atores bastante conhecidos, inclusive entre cinéfilos brasileiros.

Essas informações são importantes para entender um pouco sobre o que é o contexto de Pieces of Woman. Além do diretor, que tem referências bastante diferentes das nossas, culturalmente falando, o filme também acaba sendo afetado pelas produções canadense e estadunidense envolvidas, criando uma linguagem híbrida que mantém o estilo do autor; mas com certa familiaridade para alguns dos maiores públicos da Netflix. No elenco central, Vanessa Kirby, que chama a atenção de um leque interessante de fãs, que vão desde os apaixonados pelo universo dos filmes de ação, já que Kirby fez personagens badass em Missão: Impossível - Efeito Fallout e Velozes & Furiosos: Hobbs & Shaw, até fãs da série The Crown, também da Netflix.

Imagem: Reprodução/Netflix

Atenção! A partir daqui, a crítica pode ter spoilers.

Outono

Pieces of a Woman, que não recebeu título em português, tem uma relação belíssima e muito sensível com a passagem do tempo. A imagem mais óbvia provavelmente é a da ponte, que é o plano de fundo das datas, cujas aparições funcionam quase como intertítulos e nos ajudam a compreender que a passagem de tempo envolve meses, auxiliando os espectadores que não vivem com tanta clareza as estações do ano. O simbolismo da ponte também pode ser explorado de diversas formas e, particularmente, parece interessante que a ideia de conexão trazida pela ponte seja bastante contraintuitiva: enquanto a ponte cresce de ambos os lados rumo a sua própria conexão, o casal que acompanhamos se distancia progressivamente.

O Brasil é grande o suficiente para não vermos a passagem do tempo na natureza da mesma forma e, em algumas regiões, o simbolismo das estações se perde no cotidiano. Para além da ponte, é ainda mais interessante como Pieces of Woman é desenvolvido através das estações. O parto acontece pouco tempo antes do inverno e a data nos diz que é setembro, outono nos EUA. A morte das folhas, que caem em profusão nessa época, tem uma certa melancolia e, ao pensarmos o filme após o final, a indicação de que a criança morreria estava também ali, na estação escolhida para contar essa parte da história.

Imagem: Reprodução/Netflix

Esse início, um plano-sequência de tirar o fôlego e arrancar lágrimas, acompanha, com aparente intenção de realismo, as dificuldades de um parto e revela os dilemas femininos que envolvem opções com seus próprios prós e contras: a segurança do hospital e a potencial chance de sofrer violência obstetrícia ou as vantagens do parto humanizado que implicam diretamente na aceitação de que não haverá recursos médicos à disposição.

Vanessa Kirby nos dá o que provavelmente é melhor atuação da sua carreira até então, não apenas pela sua performance nessa sequência de abertura, que é capaz de provocar sensações físicas através da empatia dos espectadores, mas também por atravessar diversos estados psicológicos complexos e conseguir transmitir a veracidade que o filme parece demandar. É notável ainda como as mesmas qualidades que fizeram de Kirby uma excelente heroína de ação são as mesmas qualidades que tornam sua personagem muito mais uma mulher que uma mãe, no sentido de que não há uma exploração da maternidade como algo essencial a toda mulher, mas sim para a personagem em questão.

Inverno

Se o outono é um prenúncio poético de fatalidade, o inverno é a indicação de que, durante toda a estação, não haverá florescer algum, nem da própria protagonista consigo mesma, nem na sua relação com as pessoas que a rodeiam, em especial com seu companheiro, interpretado por Shia LaBeouf, que atualmente enfrenta acusações de violência doméstica e cuja reputação acabou respingando no filme, já que muitos espectadores passaram a procurar vestígios da realidade na interpretação do ator — um assunto polêmico e bastante complexo ao pensarmos nas relações entre arte e vida.

Imagem: Reprodução/Netflix

O luto de todos, mas em especial o da mãe, é incrivelmente tocante não por um melodrama que force qualquer identificação ao espectador, mas por uma apatia que chega a ser incômoda e que poder ser até mesmo questionável para muitas pessoas. Juntos, o inverno e a apatia invocam uma sensação de niilismo e, mais especificamente, de vazio e negação que afastam o melodrama, uma dor silenciosa que age sobre o corpo quase como o frio, paralisando, retraindo...

Primavera e Verão

Simbologias femininas parecem transpassar o filme sutilmente o tempo todo. A escolha da maçã como um símbolo não parece ter sido gratuito justamente por sua ligação mitológica com o feminino. A filha tinha cheiro de maçã, diz a mãe, que algum tempo depois da tragédia aparece cheirando a fruta no supermercado. Além de crianças serem entendidas também como frutos do ventre feminino, há comumente, no imaginário de culturas cristãs, a relação entre mãe e Maria que, não custa lembrar, também dá origem a uma das mais consagradas imagens do enlutamento materno.

As relações com a cultura judaico-cristã parecem ser mais óbvias na escolha da maçã como um símbolo que aparece ao longo de todo o filme. A maçã até pode não ter sido citada nos textos sagrados, mas é a representação mais comum do fruto proibido. Eva, ao comer do tal fruto, não é agraciada com a beleza da maternidade, mas sim com uma espécie de maldição: “Multiplicarei os sofrimentos de teu parto; darás à luz com dores, teus desejos te impelirão para o teu marido e tu estarás sob o seu domínio" (Gênesis 3:16).

Imagem: Captura de tela/Netflix

O símbolo que marcou o início das dores femininas nesse contexto, ganha uma significação diferente em conjunto com a metáfora das estações. A obsessão da mãe pela maçã evolui ao ponto de ela germinar artesanalmente e com muito zelo novas sementes, o que encontra eco na própria fisiologia da mulher que, natural ou artificialmente, também cultiva suas próprias sementes. Em folclores europeus e norte-americanos, a maçã também pode adquirir significados como sinal de amor e fertilidade, o que casa perfeitamente não apenas com a maternidade, mas também com o desenvolvimento da personagem.

É na passagem do inverno para a primavera, quando o gelo está derretendo, que vemos o desabrochar da protagonista no tribunal, momento em que seu monólogo redefine o destino de outra mulher, atitude que é vista com orgulho pela avó da criança falecida. É possível sentir as conexões no tribunal como um silencioso e maravilhoso momento de sororidade. Esse momento de superação e redenção dá lugar à sequência em que ela (Kirby) descobre que, enfim, as sementes germinaram.

O final, é uma coroação desse épico pessoal: ela não apenas tem uma filha, como esta está brincando em uma macieira. Sem serpente, sem pecado. Apenas uma nova vida, potencialmente frondosa e com promessas de frutos como a própria macieira.

Pieces of a Woman está disponível no catálogo da Netflix.

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Canaltech.

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