Crítica | O Silêncio do Pântano asfixia a experiência do público e se invalida

Crítica | O Silêncio do Pântano asfixia a experiência do público e se invalida

Por Sihan Felix | 27 de Abril de 2020 às 08h00
Netflix

Para conceber um suspense, geralmente é necessário provocar a curiosidade do espectador. De algum modo, fazer surgir algum sentimento de aflição ou acender alguma fagulha de ansiedade pode ser fundamental para a manutenção do clima. Alguns do melhores filmes do gênero, além de construírem uma relação muito próxima com esses pontos, o fazem com a verdade: não existe universo na cabeça de um personagem que seja superior ao que é exibido – porque o universo do próprio filme inclui a todos nós que acabamos entrando em contato com ele. O filme só se completa, afinal, quando se oxigena da nossa experiência.

Essa constituição de uma unidade não-mentirosa é essencial para que o espectador possa aproveitar a experiência sem se sentir enganado. O mistério, no final das contas, não é aquilo que se vê, é tudo o que não se vê. As lentes das câmeras, então, deixam muito de fora. Cada plano, cada ângulo, cada detalhe podem ser pensados com a função de não revelar. O mesmo, mas em outra linguagem, acontece com o roteiro: trabalhar demais em cima do irreal pode destituir a realidade do que se cria e tornar tudo inválido (ou perto disso).

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Cuidado! A crítica pode conter spoilers!

Ficção como realidade e realidade como supérfluo

O Silêncio do Pântano (que pode ser assistido na Netflix) não demora a brincar no jogo de realidade versus ficção. Se nos primeiros minutos Q (Pedro Alonso) é apresentado lendo um trecho do seu livro recém-lançado, no qual o protagonista assassina um taxista com brutalidade, pode ficar um gosto de programa televisivo quando se descobre que a cena que precede é uma encenação – algo reforçado pela linguagem com ausência de planos gerais, sem abertura ou respiro para as imagens. Há, nessa cena montada dentro da mente do escritor, um grau de suspense interessante, um passo-a-passo quase hitchcockiano que vai da vida de rotina do taxista (a normalidade da situação reforçada por uma partida de futebol não-rara – Valência contra Barcelona) à exaltação vingativa do passageiro (a destruição do comum e a apresentação de uma insanidade vinda de alguém aparentemente inofensivo).

A exaltação vingativa. (Imagem: Captura de tela/Sihan Felix)

Por outro lado, a verdade é que encontrar força na história dirigida por Marc Vigil (estreante em um longa-metragem) pode não ser fácil. O roteiro de Carlos de Pando e Sara Antuña (ambos também debutantes), a cada investida, debruça-se mais e mais sobre a irrealidade, procurando idealizar um grande universo paralelo, mas Vigil prefere manter tudo debaixo de uma perspectiva completamente unidimensional. Não existe uma ideia de ambientação que separe, minimamente, as vidas da personagem (ou das personagens) de Alonso. Pelo contrário: o irreal é tratado com uma pegada que só intensifica a sensação de veracidade, de fatos.

Grande final

Há, de toda forma, dois personagens que, nas mãos de uma direção mais atenta, seriam divisórias: La Puri (Carmina Barrios) e Falconetti (Nacho Fresneda). Se ela é uma espécie de Vito Corleone das drogas – inclusive comentando sobre a família –, ele é uma mistura de John Wick com Michael Myers. Ainda que ela possa passar por crível, ele com seu pé de cabra é tão irreal quanto tudo que está acontecendo. Pena que Vigil busque a realidade e transforme Falconetti mais em um homem insano perturbado do que em uma máquina de espancamento fantasiosa. Ambos, diferente de Corleone, Wick e Myers, acabam como o jogador que fez o gol do Valência contra o Barcelona lá no rádio do táxi: esquecidos em pouco tempo.

Puri: uma espécie de Vito Corleone esquecível. (Imagem: Captura de tela/Sihan Felix)
Insano e perturbado, além de também esquecível. (Imagem: Captura de tela/Sihan Felix)

Talvez Q seja somente – apesar de bem-sucedido – um escritor medíocre. Nesse caso, o problema é em dobro para O Silêncio do Pântano, porque enquanto os personagens do personagem são desprovidos de motivações e, ao mesmo tempo, fixados com tantas tentativas no mundo real, o próprio quase não tem papel algum na história que não seja uma espécie de metalinguagem boba de ser o roteirista do que se vê, a não ser o grande final – que só não é maior, de repente, do que a decepção de chegar até ele só para reviver a sensação dos primeiros minutos.

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Sem oxigênio

Pode ser que a leitura do livro homônimo (El Silencio del Pantano, no original) de Juanjo Braulio, no qual o filme é baseado, seja mais envolvente. Quem sabe porque o texto permita que o leitor crie suas imagens e, assim, não seja possível se sentir enganado por uma visão estética realizada para a enganação.

No final das contas, O Silêncio do Pântano está para o suspense assim como está Psicose (de Hitchcock, 1960). A diferença é a validade do suspense: enquanto um está completando 60 anos bem vividos, o outro, infelizmente, será um rodapé de algo – ou nem isso –, especialmente por ter acreditado que o seu gênero é uma fonte para tentar enganar o público. Não existe, enfim e de novo, universo na cabeça de um personagem que seja superior ao que é exibido – porque o universo do próprio filme inclui a todos nós que acabamos entrando em contato com ele. Um filme só se completa, afinal, quando se oxigena da nossa experiência, e, provavelmente, O Silêncio do Pântano asfixia ela (a nossa experiência) e invalida a própria existência.

"É hora de dar tchau." (Imagem: Captura de tela/Sihan Felix)

*Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Canaltech

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