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Crítica Ninguém Vai Te Salvar | Um terror surpreendente com muito a dizer

Por| 22 de Setembro de 2023 às 20h05

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Ninguém Vai te Salvar é um daqueles filmes que chegam sem fazer muito barulho, mas se revelam grandes surpresas. E não apenas por ser um terror alienígena, um tipo de filme que andava bastante sumido do cinema, mas por usar esse estilo de forma bastante criativa tanto na forma quanto no conteúdo para falar de assuntos bem mais terrenos.

O longa estrelado por Kaitlyn Dever (Dopesick) chama a atenção desde os primeiros momentos por sua construção um tanto quanto incomum, mas muito inteligente. Ao mesmo tempo em que consegue fazer com que aquela imagem clássica do alien magrelo e cabeçudo volte a ser uma coisa aterrorizante, o filme apresenta e desenvolve todo um mistério em torno de sua protagonista que instiga e conduz o espectador para muito além dos perrengues com ET.

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Tanto que Ninguém Vai te Salvar é muito mais do que uma história sobre extraterrestres ou mesmo um terror propriamente dito. Ainda que todos esses elementos estejam presentes e muito bem representados na película, o cerne de toda a história é o horror da culpa e da perda das conexões humanas.

Quando faltam palavras

Parece estranho dizer que a melhor coisa de um terror alienígena é o fato de ele não ser sobre os aliens em si. Bem, se você quiser se assustar com ETs e ficar tenso com as cenas de perseguição, com certeza vai ter muito com o que se divertir por aqui, mas é essa apenas a primeira camada do roteiro e bem longe de ser a mais interessante. O que torna Ninguém Vai te Salvar diferente é o que ele apresenta além disso.

Chama a atenção logo de início que o longa praticamente não tem falas. A protagonista Brynn mora sozinha em uma casa em uma área afastada da cidade e, mesmo na área urbana, ela evita contato com qualquer pessoa. O porquê disso é o grande mistério da trama, mas fica claro desde o início que está relacionado a algo que ela fez no passado — uma culpa que a apagou por mais de uma década.

E é aqui que está o grande trunfo do longa. Mais do que ser um filme de alien, Ninguém Vai te Salvar é sobre essa característica incapacitante da culpa. É possível perceber já na apresentação da personagem o quanto ela está presa nesse estado depressivo, apegada a esse sentimento e ao fardo de carregar esse sentimento por tanto tempo. Ainda que a gente passe a maior parte do tempo sem saber do que se trata, é palpável o quanto Brynn é incapaz de seguir em frente.

E o fato de o roteiro quase não ter falas apenas deixa isso mais pesado. Com uma atuação incrível da jovem Dever — que já havia sido indicada ao Emmy por seu trabalho em Dopesick —, é fácil perceber a agonia da protagonista nessas palavras que nunca conseguem sair. Sozinha e isolada do resto do mundo, ela parece estar sempre tentando colocar essa dor para fora, mas é incapaz de expressar isso em palavras.

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O impressionante é que tudo isso é trabalhado em meio a uma luta por sobrevivência. A premissa básica do filme é simples e coloca Brynn tendo que lidar com uma invasão alienígena, fugindo e lutando contra as estranhas criaturas que decidem persegui-la. E é no meio desse desespero todo que a gente passa a se conectar e a entender qual é o verdadeiro terror que a jovem vive.

Conexão e empatia

Essa falta de falas faz com que toda a atuação de Dever tenha que ser entregue pelo olhar e expressões faciais, algo que ela entrega magistralmente bem. É fácil entender os pensamentos e os sentimento da personagem mesmo sem que ela precisa dizer uma única palavra — um silêncio que faz com que a sua única frase completa ganhe um peso muito maior quando é finalmente dita.

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Essa conjunção de atuação e escrita de um roteiro muito bem resolvido em sua mensagem é o que dá muita força a Ninguém Vai te Salvar e que o diferencia de outros filmes do gênero. Ele é realmente bastante único e, por isso mesmo, pode causar estranhamento em muita gente. Contudo, basta olhar um pouco além da camada superficial do terror alienígena para encontrar a potência dessa história.

Isso porque, no final das contas, trata-se de uma história justamente sobre como lidar com a culpa — e o modo como ele faz isso é bem curioso e fora do comum. Ao invés de trazer aquele discurso motivacional de que é preciso deixar as coisas para trás e superar a dor, a trama é bastante corajosa ao mostrar sua protagonista aceitando e aprendendo a conviver com aquele sentimento que jamais vai embora, da mesma forma que ela também precisa aprender a lidar com essa nova situação à sua volta.

É aí que o título acaba fazendo todo o sentido. À primeira vista, Ninguém Vai te Salvar soa como uma ameaça, mas ele é muito mais esperançoso do que aparenta. Porque, no final das contas, a solução depende apenas da personagem e apenas dela. E é algo que reverbera na relação que Brynn tem com a própria culpa e em como esse sentimento simplesmente a apagou diante de toda uma cidade e como, a partir das suas próprias ações, ela criou uma forma de lidar com isso.

Um terror de respeito

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Embora toda essa camada mais subjetiva e até reflexiva da história seja o que há de mais interessante e potente em Ninguém Vai te Salvar, não há como negar como a camada mais superficial também é muito divertida. Quem quer apenas um terror alienígena está muito bem servido.

Como dito, o grande mérito está em conseguir fazer com que aquela velha e caricata imagem do alien — corpo magricela, pele cinza, braços longos e finos, cabeça desproporcional e olhos grandes — seja assustador novamente. A princípio, ver esse tipo de ET até parece ridículo, mas não demora para que a gente veja como esse ser pode botar medo.

Parte disso está justamente no modo como o diretor Brian Duffield constrói a tensão das cenas. Mesmo expondo a criatura já nos primeiros momentos, ele trabalha muito bem o bizarro da composição corporal dos alien e a própria variedade das espécies para surpreender a todo o instante.

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Uma ótima surpresa

É esse equilíbrio muito bem desenvolvido entre um terror divertido e uma história cheia de significado que faz com que Ninguém Vai te Salvar seja essa grata surpresa. A forma como esses elementos são costurados a partir de uma narrativa incomum ajuda a criar a tensão necessária para fazer com que todos os elementos funcionem e até mesmo o final um tanto abrupto acaba se encaixando bem — ainda que exija um pouco mais de esforço para ser compreendido.

Mesmo não sendo um filme que vai redefinir o gênero ou trazer os alienígenas de volta ao mainstream, são essas ideias fora da caixa que mostram o quanto o cinema ainda tem muito a oferecer e que até mesmo propostas realmente simples têm muito a nos dizer, mesmo em silêncio.