Crítica | Cats é um crossover com referência involuntária a The Room

Por Sihan Felix | 05 de Janeiro de 2020 às 13h30
Universal Studios

Em 2003, o cinema sofreu um golpe violento. Tommy Wiseau lançou o filme que, anos depois, viria a ser cultuado e exibido ao redor do planeta como um dos piores filmes já realizados em toda a história. E não é para menos: com a direção aparentemente sem noção alguma e com atuações (especialmente a do protagonista – o próprio Wiseau) que, quando redescobertas, tornaram-se memes, o filme traz uma espécie de erotismo dramático. O problema é que todo o erotismo se transforma em comédia involuntária quando Johnny (Wiseau) transa com o umbigo de Lisa (Juliette Danielle) durante um tempo considerável em duas cenas introdutórias de dar pena aos mais sensíveis. Já a tentativa dramática morre nessa mesma introdução, quando Denny (Philip Haldiman) – um sujeito semiadulto – age como se fosse uma criança na cama do casal sob o olhar de uma inocência doentia do diretor.

Cuidado! A crítica pode conter spoilers!

Estranhamento e desgosto

A verdade é que, ano após ano, são lançados tantos filmes que é humanamente impossível assistir a todos. Mas, em meio às centenas de lançamentos comerciais, é quase regra que um filme chame muita atenção pelas vias erradas. Cats vai além e, como um exemplo clássico do cinema de Tom Hooper (de Os Miseráveis, 2012), procura uma grandeza imagética que corrompe o roteiro do próprio filme. Não é só: se essa grandeza pudesse, de alguma forma, ser justificada pela consciência estética de Hooper (que é praticamente inexistente), o filme conseguiria pelo menos enganar ou ser algo somente ruim.

Não basta, por sinal, que essa adaptação da obra para a Broadway de Andrew Lloyd Weber (musical que já é adaptado, inclusive, por ser inspirado em um livro de poemas de T.S. Elliot) seja mais compreensível que a sua versão teatral. A questão é que, enquanto, no teatro, existe uma relevância muito mais evidente para o momento em si – uma espécie de aura em cada apresentação (por seu caráter invariavelmente único) –, no cinema, o momento é facilmente esfacelado quando o todo é sofrível. Desse modo, por mais que os números musicais sejam alavancados por um elenco excepcional de bailarinos – com destaque para a leveza da protagonista Victoria (Francesca Hayward) –, pode haver sempre um misto de estranhamento e desgosto.

A leveza da dança de Victoria (Francesca Hayward). (Imagem: Universal Studios)

Um mergulho na alma

Talvez, essa percepção mais dolorida se dê por motivos que vão além da maquiagem que parece se misturar em dégradé com a computação gráfica. Há uma falta de tato em Hooper que beira a incapacidade para a função. Pode ser interessante perceber, nesse sentido, como Rebel Wilson (a Jennyanydots), que é naturalmente engraçada, esforça-se para lidar com um texto que utiliza as piadas gordofóbicas mais banais. Se existe graça em suas cenas, deve ficar muito claro que se deve inteiramente à própria Wilson, já que roteiro (de Lee Hall – de Rocketman – e também com dedo de Hooper) e direção – aliados de uma montagem (de Melanie Oliver – de Maria Madalena) que parece não ter noção de ritmo para piadas – afogam tudo em uma bobagem sem fim. Além disso, James Corden (o Bustopher Jones) age no sentido inverso da colega: sua personagem tem um carisma enorme e uma caracterização até eficiente – com a pelagem imitando um smoking, fazendo-o permanecer em traje de gala –, mas Corden pode parecer preso a um todo bem embaraçoso.

O esforço de Rebel Wilson como Jennyanydots... (Imagem: Universal Studios)

Wilson e Corden, aliás, não são os únicos que sofrem sob a batuta de Hooper: Jennifer Hudson – que, além de excelente atriz, é uma cantora que sabe usar a voz como poucas no cinema – cede à canção Memory (provavelmente a mais conhecida do musical) uma interpretação que em muito lembra I Dreamed a Dream, aquela que deu o Oscar à Anne Hathaway por Os Miseráveis. É bonito de se ver e é expressivamente intenso... mas é como se Hooper quisesse forçar a barra para o público chorar e não tivesse repertório técnico para isso. São, na prática, movimentos de câmera com intenções semelhantes àquelas de 2012. No final das contas, a música de Weber e o talento de Hudson são muito maiores que o trabalho do diretor. Isso não seria ruim, claro, se Hooper entendesse tudo a ponto de não explorar o seu material de um jeito tão ganancioso. Ao conduzir sua unidade estética para um completo mergulho suicida na alma da pobre Grizabella (Hudson), ele assina a fragilidade da sua direção.

Jennifer Hudson: maior que o filme. (Imagem: Universal Studios)

Que a história seja feita

Assim como The Room, Cats tem uma estrutura tão amadora que, após uma hora de filme assistindo a quase que somente os números musicais de apresentação dos gatos e suas personalidades tão diferentes, esquece-se até de contextualizar o título Jellicle que aquela trupe de gatos detém. Hall e Hooper importam-se tanto com a individualidade dos felinos que deslembram o próprio filme, a própria unidade necessária. Claro que talvez seja compreensível que se trata de gatos angelicais, o que não justifica as feições e os corpos perturbadoramente humanos – algo que, devido à dita aura do momento, não faz o teatro sofrer, mas não existem situações que domestiquem essa abordagem a ponto de ela ser clara. É tudo solto, muito solto, e não de uma maneira saudável ou com o intuito de fazer pensar. Hooper, enfim, é um Wiseau sem a inocência doentia e que tem mais conhecimento. O problema é que nem sempre conhecimento resulta em competência.

Ainda assim, Cats é válido pelo crossover de videoclipe de Taylor Swift, X-Men, Padre do Balão e vídeo de YouTube sobre criar gatos. Swift (que interpreta Bombalurina) surge como exatamente uma diva pop, para emplacar a canção original Beautiful Ghosts (e logo desaparece); Idris Elba é um vilão com poderes semelhantes ao do Noturno, mas muito menos consistente em suas ações; Grizabella é destinada a um prêmio que mais parece uma metáfora sobre eutanásia – o que seria inteiramente irresponsável por ter a chance de ser lido como limpeza social; e Judi Dench (a Velha Deuteronomy), poderosa como sempre, quebra a quarta parede em um final satisfatório para quem tem a companhia de um ou mais bichanos (como eu) e, por ser tão raso quanto um porta-copo, constrangedor ao mesmo tempo.

Judi Dench em seu papel mais constrangedor. (Imagem: Universal Studios)

Resta saber se esse novo golpe violento sofrido pelo cinema será cultuado e exibido ao redor do planeta como seu irmão 16 anos mais velho. Não tenho certeza se há motivos para essa permanência. Talvez seja melhor colocar em um balão e deixar voar para longe. Se, no futuro, alguém encontrar... que a história seja feita.

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